Em uma manhã de junho de 1917, um solitário
Albatros D. III alemão fazia uma patrulha sobre a cidade fran cesa de
Liearval, em busca de uma balão aliado. O seu piloto, o jovem Leutnant Ernst Udet, um promissor ás da Jasta 15, estava a 15.000 pés de altitude
quando avistou um ponto a oeste, que, pouco depois ele identifi-cou
como sendo um Spad VII francês.
O piloto germânico virou em sua direção e avançou diretamente
contra o caça aliado - que fez a mesma coisa. Passaram velozmente
um pelo outro, a pou-cos metros de distância. Udet curvou rapidamente
à esquerda, tentando colo-car-se na traseira de seu adversário,
mas este, novamente, fazia a mesma ma-nobra. De repente, estavam
avançando de novo um contra o outro. Novamente, os dois aviões
quase roçaram, escapando por pouco da colisão. A batalha con-tinuou
com um piloto rodeando o outro. Nivelavam seus aviões depois de
uma curva fechada, e retomavam seus ataques frontais. Depois de
uma destas inves tidas Udet passou tão perto do Spad que reconheceu
"o rosto estreito e pálido sob o capacete de couro". Seu adversário
era, simplesmente, o então maior ás francês, com 54 vitórias,
o lendário Charles Guynemer (1894-1917).
Udet compreendeu a gravidade da situação e continuou a lutar.
A pós outra in-vestida, ele executou uma curva de Immelmann, tentando
rolar de volta sobre o ás francês. Não deu certo: Guynemer percebeu
a manobra e, com um looping, afastou-se. Udet fez outra curva
fechada mas, quando a terminava, o francês surgiu de repente em
sua frente, com seus projéteis rasgando a fuselagem do avião
do piloto germânico.
Udet entrou em desespero. Tentava todas as manobras que conseguia,
mas nada parecia surtir efeito. No en tanto, de repente, o Spad francês
apareceu em sua mira - era sua única chance e ele não a desperdiçaria.
O alemão apertou o gatilho e... a arma não disparou!! Tentou de novo
e nada. As armas estavam travadas. En-quanto tentava destravar, Udet
pensava se não seria hora de abandonar o combate, mas sabia que seria
segui do facilmente por Guynemer. Sua única chance era evadir-se dos
ataques até que o francês se cansasse.
Enquanto o combate prosseguia, Udet tentava destravar sua arma,
es-capando quase que por milagre dos tiros de Guynemer. Por fim,
por pu ra irritação, Udet começou a esmurrar suas armas. Nesse
momento, Guynemer passou invertido sobre seu avião, vendo o gesto
de desespe ro do alemão e entendendo a situação. O francês terminou
sua passa-gem, fez a volta e veio direto para Udet, em vôo quase
invertido. Udet sabia que estava morto mas, em vez de uma rajada
de metralha, tudo que recebeu do ás francês foi um aceno satisfeito.
E então o francês se foi, desaparecendo nas nuvens.
A luta de Udet com Guynemer (que mais tarde seria postado como
de-saparecido em ação - sendo que o povo francês se recusaria
a acredi-tar em sua morte já que seu corpo nunca foi encontrado),
entrou para os anais da História da Aviação como um dos maiores
duelos aéreos (senão o maior) de todos os tempos, já que raras
vezes dois grandes mestres puderam se bater individualmente, pondo
em prática todos os seus truques.
via o combate aéreo mais como um duelo entre cavaleiros medievais do que
como uma simples matança. Daí o fato, talvez de ser tão popular entre
os pilotos do segundo conflito.
Nascido em 26 de abril de 1896, próximo a Munique, na Baviera, Ernst
"Erni" Udet cresceu fascinado pelas "máquinas voadoras", chegando até
mesmo a integrar o Aeroclube de sua cidade. Quando a I
Guerra Mundial eclodiu em agosto de 1914, ele juntou-se à 26ª Divisão
de Reserva de Wurtemberg, onde serviria como mensa-geiro - já que ele
disponibilizou sua própria motocicleta para exercer a função, a despeito
de sua pequena esta tura (tinha pouco mais de 1,50m).
Sonhando em voar, Udet pagou 2.000 marcos para ter aulas de vôo,
conseguindo seu brevê em abril de 1915. Promovido a Unter-offizier,
ele foi transferido para o Flieger Abteilung 68, na região de
St. Quentin, uma unidade de observação, onde voava o Fok-ker E.III.
Mas, Udet resistia em atirar contra os adversários, já que a idéia
de matar alguém o aterrorizava. Apenas depois de quase ser morto
por um avião de observação francês em novem-bro de 1915, ele mudaria
de idéia.
No início de 1916 ele passaria a voar como piloto de caça. Desig
nado para servir no Jasta 15 (Jagdstaffel 15) , Udet finalmente
al-cançaria sua primeira vitória confirmada em 12 de março de
1916 após um combate contra uma formação numericamente superior
de inimigos. Condecorado com a Cruz
de Ferro de 1ª Classe, ele encerraria aquele anos acrescentando
apenas outras duas vitóri-as ao seu score.
O início de 1917 também se mostraria sombrio para Udet que, além de
não alcançar quase nenhuma vitória - havia abatido apenas dois outros
adversários até o seu encontro com Guynemer narrado acima - via seus
com panheiros morrer quase que diariamente. Sua redenção viria com a
transferência para o Jasta 37. No final de agosto de 1917, seu score
já havia subido para dez vitórias, havia se tornado o comandante de
sua unidade, sendo condecorado com a Cruz
da Ordem da Casa Real de Hohenzollern em novembro. Ao final de 1917,
ele já somava 16 vitórias confirmadas.
No início de 1918, Udet seria convidado pelo próprio Man-fred
von Richthofen (o Barão Vermelho) para integrar a JG 1 (Jagdgeschwader
1), assumindo o comando do lendário Jasta 11. No comando desta
unidade, ele participaria da úl tima grande ofensiva alemã na
I Guerra, voando os avança-dos Fokker D. VII.
Sua série de vitórias seria interrompida em 06 de abril de 1918
(quando somava 23 abates) ao ser afastado do front por ordem de
Richthofen, em razão de fortes dores nos ou vidos que estavam
se tornando crônicas.
Enquanto encontrava-se de repouso, Ernst Udet foi avisa-do da
morte de Richthofen (em 21.04.1918) e, dois dias de pois, foi
agraciado com a desejada Orden
Pour Le Mérite.
Retornando ao front em 20.05.1918, Ernst Udet assumiu o comando do
Jasta 4. Voando um Fokker D.VII com a fuselagem vermelha com o apelido
de sua namorada Lola Zink ("Lo") e a frase "Du doch nicht" ("Você não,
certamente"), iniciou uma feroz "corrida de ases" contra outro ás alemão:
Erich Löewenhardt, do Jasta 1.
Em 02.07.1918, o Oberleutnant
Udet enfrentaria pela primeira vez, os pilotos do U.S. Army Air
Service, abatendo dois Nieuport 28´s. Um dos pilotos, o 2nd Lieutnant
Walter Wanamaker, ferido por Udet, foi obrigado a aterrissar nas
linhas alemãs. Surpreendentemente, Udet pousou perto do avião
do seu adversário, deu a ele um cigarro e ficou conversando até
que o auxílio médi-co chegasse. Udet recortou o tecido do leme
do avião onde constava o nú- mero de série (N6347), guardando-o
como lembrança.
Doze anos depois, quando ambos se reencontraram na Corrida Aérea
de Cleveland em 06.09.1931, Udet devolveu a Wanamaker o troféu,
que hoje pode ser visto no Museu da Força Aérea Americana em Dayton,
Ohio.
Enquanto isso sua competição com Löewenhardt caminhava para um
fim trá gico. Em 10.08.1918, quando seu score somava 54 abates
(contra 52 de U-det), Löewenhardt morreu quando seu pára-quedas
não abriu após uma coli-são com seu Rottenflieger.
Já Udet, derrubaria 26 aviões aliados entre julho e setembro de
1918, elevando seu total para 62 vitórias confirmadas. No dia
26.09.1918, após abater dois bombardeiros Airco DH9, ele foi ferido
na coxa sendo que encontrava-se no hospital quando o Armistício
foi assinado, em novembro do mesmo ano.
Nos anos seguintes à I Guerra Mundial,
Udet se tornaria a personifica- ção do aventureiro bon-vivant.
Nos anos 20 ele criou sua própria empre-sa aérea e se tornou o
mais famoso piloto acrobático do entre-guerras, pilotando um avião
construído por ele próprio e chamado de "Flamingo". Amante das
mulheres e da bebida, ele se tornaria extremamente popu-lar em
exibições nos Estados Unidos (onde tornou-se amigo do maior ás
a-mericano da I Guerra, Eddie Rickenbacker), Europa e América
Lati na.
Em 1929 ele acompanharia o cameraman Hans Schneeberger em uma
viagem no interior da África, sobrevoando (e filmando) regiões
onde o ho mem branco jamais estivera antes.
No início dos anos trinta ainda escreve uma biografia intitulada
"Mein Flie gerleben" (traduzido para o inglês como "Ás da Cruz
de Ferro"), que venderia mais de 600.000 cópias até 1935. Por
fim, ele atuaria ain-da (como piloto) em três filmes de Arnold
Franck: "O Inferno Branco de Piz Palu" (1929), "Tempestade sobre
o Monte Branco (1931) e "S.O.S. Iceberg" (1933).
Nesse meio tempo, Hitler e o Partido Nazista assumem o poder na Alemanha.
Udet ignorava a política e até mesmo tinha uma aversão pelos métodos
brutais do NSDAP, mas um convite de seu amigo e antigo ás da I Guerra,
Hermann Göring mudaria as coisas. Ele ouviu
com interesse quando Göring falou-lhe de seus planos de reconstruir
a Força Aérea alemã, que havia sido banida pelo Tratado
de Versalhes. Em 1934, enquanto da-va aulas de vôo para Erhard
Milch, foi convencido de que, como era o maior piloto vivo da Alemanha,
suas opi-niões poderiam ser importantes para o desenvolvimento da Luftwaffe.
Em 1934, Udet juntou-se à Luftwaffe. A despeito de suas diferenças
com os nazistas, o patriotismo, o desafio de re construir a Força
Aérea que ele tanto amava, e o sentimen to de estabilidade financeira
e social que um emprego "nor mal" lhe dariam, pesaram em sua decisão.
Ingressando como Oberstleutnant,
rapidamente ascenderia à patente de Oberst
em 1935, assumindo o cargo de Inspetor de Ca- ças e Bombardeiros
de Mergulho e tornado-se a principal figura no desenvolvimento
do lendário Junkers Ju87 Stuka.
No início de 1938, sob pressão de Göring,
Udet torna-se o Generalluftzeugmeister der Luftwaffe (Diretor
do Departa-mento Técnico da Luftwaffe), responsável pelo desenvolvi-mento
dos novos aviões e armamentos a serem utilizados.
A despeito de suas responsabilidades, Udet encontraria tempo para testar
pessoalmente os novos aviões, incluindo o Messerschmitt
Bf 109, que pilo tou em uma corrida aérea sobre os Alpes em 1938.
Controlando mais de 4.000 pessoas e tendo que tomar decisões críticas
diariamente, sobre o desenvolvimento de pesquisas e projetos, suprimentos,
questões financeiras, etc., Udet foi se tornando uma pessoa deprimida
com a vida de executivo - algo que ia contra sua natureza. O início
da II Guerra Mundial, em setembro de 1939 apenas complicou mais ainda
sua situação.
Além disso, Erhard Milch - então Staatssekretär
der Luftfahrt (Secretário de Estado do Ministério do Ar) e Generalinspekteur
der Luftwaffe (Inspe-tor Geral da Luftwaffe) - começou a entrar
em atrito com o já General der
Flieger Udet, procurando minar sua reputação perante Göring.
Mas, ao menos aos olhos de Hitler, ele continuava a ser um herói:
em 21.06.1940 ele era um dos poucos presentes na rendição da França
e, um mês de-pois, foi condecorado com a Cruz
de Cavaleiro da Cruz de Ferro e promo vido a Generaloberst.
A despeito de ser visto como uma referência e um verdadeiro herói
pelos jovens pilotos da Luftwaffe, como Werner
Mölders, Adolf Galland, Gün-ther
Lutzöw e Günther von Maltzahn,
o desgaste com Göring e Milch
foi aumentando, ainda mais depois do fracasso na Batalha
da Inglaterra. So frendo de insônia, bebendo e fumando muito,
Udet parecia esgotado. A invasão da URSS
em junho de 1941, apenas piorou o quadro. Embora te nha tentado
renunciar, em agosto, Göring o impediu, alegando que isso geraria
uma má publicidade.
A gota d´água veio em 15 de novembro de 1941. Nesse dia, Udet recebeu
a visita do Generalmajor August
Ploch, seu ex-subordinado, que havia sido transferido para a Frente
Russa como punição pelas falhas do De-partamento Técnico. Seria por
meio de seu amigo que Udet soube das atrocidades cometidas durante a
guer-ra. Dois dias depois, em 17 de novembro de 1941, após beber duas
garrafas de conhaque e enquanto falava com sua amante pelo telefone,
Udet apontou uma pistola para sua cabeça e disparou. Era o fim de um
dos mais brilhantes pilotos da História.
Ernst Udet teve um funeral de chefe de Estado, recebendo homenagens
não somente da alta cúpula do Parti-do Nazista (que acobertou o incidente,
divulgando que o piloto havia morrido enquanto testava um novo avião),
mas também dos jovens pilotos que tão bem soubera inspirar.