Walther P-38

A Walther P-38 é uma arma notável. Mesmo que se desconsidere os inúmeros avanços e inovações que essa pistola específica trouxe no campo das armas individuais, o simples fato de ter sido a escolhida para substituir a lendária Luger P-08, já bastaria para inseri-la entre as clássicas de sua categoria.

Substituir um produto consagrado e de grande sucesso comercial, não importa qual seja sua categoria, é uma tarefa ingrata e, na maioria das vezes, frustrante. Mas a P-38 não apenas conseguiu igualar-se à sua venerável antecessora, mas superá-la em muitos aspectos para, por fim, vir a se tornar ela própria um clássico, tão dese-jado e cobiçado quanto a Luger.

Tal fato é até natural quando pensamos que a P-38 incor-porava algumas das características importantes que fize-ram da Luger uma lenda: o calibre potente, a empunhadu ra extremamente anatômica e uma precisão intrínseca. Mas, por outro lado, esta arma produzida pela tradicional empresa Carl Walther Waffenfabrik, era tão avançada pa-ra sua época, incorporando várias inovações que hoje são

obrigatórias em qualquer pistola militar, que não é nenhum exagero afirmar que a P-38 representa a alvorada de uma nova era no mundo das armas de fogo.

 

Desenvolvimento e Adoção pela Wehrmacht

Ainda em 1931 o exército alemão já havia iniciado os estudos para a substituição da pistola P-08 - conhecida como Luger - como arma regulamentar para suas tropas. Contudo, esse programa somente ganharia força após a ascensão do Partido Nazista ao poder, em 1933, que iniciou quase que imediatamente a expansão das Forças Armadas germânicas.

Hitler planejava reconstruir o outrora exército alemão, buscando equi-pá-lo com as melhores armas possíveis. Dentro dessa diretriz, surgi-riam armas revolucionárias para seu tempo como a submetralhadora MP38 e a metralhadora leve MG34. Mas, se a Luger era uma arma tão boa, porque haveria necessidade de substituí-la?

Em primeiro lugar a Luger era uma arma de difícil e cara manufatura, o que demandava muito tempo para sua confecção e ajustes necessá rios para que seu funcionamento fosse satisfatório.

Em segundo lugar, as tolerâncias entre as partes mecânicas da Luger eram por demais precisas, fazendo com que a sujeira ou mesmo a munição com carga propelente defeituosa comprometesse seu desem penho. Outro fator é que, mecanicamente, a P-08 e seu sistema de percursor lançado e ação "de joelho" já estavam superados por outros conceitos mais modernos e práticos.

Portanto, foi buscando uma arma mais barata, rápida e simples de se produzir e manusear que o Oberkommando der Wehrmacht (Comando

Infantaria alemã em combate no Cáucaso, 1942. O soldado da frente empunha uma P-38 e uma pá de trincheira.

Supremo das Forças Armadas - OKW) começou a testar os protótipos que foram apresentados pelas várias empresas alemãs: a Waffenfabrik Mauser, a Carl Walther Waffenfabrik e a Sauer & Sohn.

Fundada em 1886 por Carl Walther e situada na cidade de Zella-Mehlis (Turíngia), a Walther Waffenfabrik havia iniciado suas atividades como produtora de fuzis de caça mas, logo na primeira década do século XX, lançou-se na fabricação de pequenas pistolas portáteis nos calibres 6,35mm Browning e 7,65mm Browning, que atingiram um grande sucesso nos anos 10 e 20. Contudo, sua única tentativa no campo dos grandes calibres, a chamada "Modelo 6" em calibre 9mm Luger, lançada no meio da I Guerra Mundial, foi um fiasco, sendo que apenas 1000 armas foram produzidas.

Mas o grande "golpe de mestre" da casa Walther viria em 1929, com a introdução de seu modelo "Polizei Pistole" (PP), seguido, em 1931, pela versão mais curta, a chamada "Polizei Pistole Kriminal" (PPK), disponíveis nos calibres 7,65mm Browning (.32 ACP) e .380 ACP. Seu surgimento literalmente varreu o mercado consumidor de armas portáteis: eram armas de design moderníssimo, martelo de percussão (ou "cão") externo, acabamento de primeira qualidade e, mais importante, utilizavam o sistema de dupla ação.

Este trata-se de um sistema onde a arma, para ser disparada, a partir de uma posição de descanso, basta ter o seu gatilho puxado, isto é, para o primeiro tiro, a arma não mais precisava ser engatilhada (ou ter o "cão armado"). Essa simples característica - presente na maioria absoluta das pistolas de hoje - permitia que a arma fosse portada com um projétil na câmara de disparo, com a mais absoluta segurança. Além disso, a série PP/PPK possuía uma trava de segurança avançada (que desconectava a agulha de percussão do cão) e um indicador de projétil na câmara, que era um pino que se tornava protuberante na parte traseira do ferrolho.

O sucesso dessa série, fez com que Fritz Walther (filho do fundador da empresa) considerasse o projeto da PP um ponto de partida natural para atender à demanda da Wehrmacht. A princípio ele tentou construir simplesmente uma "irmã maior" da PP, inclusive mantendo o sistema de recuo direto - sem aferrolhamento, o que é necessário para calibres de maior potência -, mas sua tentativa foi frustrada, pois esse conceito (que implicava em uma mola mais forte e um ferrolho mais pesado) mostrou-se por demais caro e pouco prático.

As tentativas se seguiram, adotando-se um novo e práti-co sistema de aferrolhamento (onde o cano recua breve-mente com o ferrolho, antes deste prosseguir sozinho o restante do percurso, graças a uma trava flutuante logo abaixo do cano) e, em meados de 1936, a Walther havia desenvolvido dois tipos de pistolas semi-automáticas de grande calibre: o modelo AP (Armee Pistol, com cão em butido) e o modelo MP (Militar Pistole, com o cão exter-no), tentando a venda de ambos para o Exército.

Paralelamente, como a resposta foi um tanto desanima-dora e es-tando o ferramental para produção já pronto, a empresa decidiu colocar ambos os modelos para a venda no mer-cado civil, ainda que em bases limitadas. De con-ceito ultrapassado, o modelo AP foi logo descontinuado.

Tripulante de Panzer da SS segurando sua P-38 na frente russa, 1943.

Essas primeiras armas, de acabamento esmeradíssimo, possuíam cabos de madeira ou plástico negro zigri-nado e eram disponíveis nos calibres 7,65mm Parabellum e no calibre 9mm Parabellum - os mesmo utilizados pela pistola Luger. No lado esquerdo do ferrolho traziam timbradas as inscrições contendo o nome do fabrican te (Waffenfabrik Walther), local da empresa (Zella-Mehlis Thürn), o modelo ("HP") e indicação do calibre além da famosa logomarca da Walther.

Foi analisando os dados do modelo HP (de cão aparente), e comparando-o com os outros projetos disponíveis que o OKW decidiu, em meados de 1938, aprová-la como a nova arma oficial das Forças Armadas alemãs. Ao ser adotada, pelas forças nazistas, a nova arma recebeu a designação militar de Pistole 38 ou, abreviadamen-te, P-38, sendo que, a partir de então, a denominação "HP" deixou de ser timbrada nas armas militares. Sur-gia um novo clássico no campo das armas de fogo.

 

Características Técnicas

A P-38 tem o privilégio de ser a primeira pistola semi-automática de dupla ação de grande calibre a ser adotada por um grande exército, sendo que nos anos seguintes, esse tipo de mecanismo viria a ser tornar um requisito obrigatório para qualquer arma que tenha a pretensão de ser utilizada por qualquer aparato militar ou policial.

Ao longo da II Guerra Mundial foram produzidas cerca de 1.200.000 pistolas P-38 e, de tão avançado que é seu desenho, sua produção foi retomada em 1957 e continua ainda nos dias de hoje, sem qualquer alteração técnica. Mas o que a torna tão boa?

A P-38 incorporava uma série de soluções inovadoras, muitas herdadas da série PP da Walther. O primeiro é o já descrito sistema de dupla ação (para o primeiro tiro a pistola podia ser acionada pelo gatilho, o qual puxava o "cão" para trás e o soltava, como ocorre nos revólveres), o que permitia que a arma ficasse sempre preparada para uso imediato, com uma "bala na agulha", como se diz popularmente.

Além disso, a P-38 também havia adotado o sistema de indicação de munição na câmara - outra característica vinda da PP - , que consistia de um pino que se tornava protuberante na parte de trás do ferrolho, logo abaixo da massa de mira.

Outro fato técnico é o seu inovador sistema de recuo, onde o ferrolho deslizava para trás sendo suportado por duas molas de recuperação (ao invés de uma única como havia sido feito até então). Essa solução, aparente-mente simples, fazia com que seu funcionamento fosse mais uniforme, permitindo que não ocorressem falhas mesmo .

utilizando munições com até 20% a menos de carga propelente. Deste modo, a P-38 superava um dos maio-res problemas da sua antecessora Luger: a baixa qualidade das munições produzidas em tempo de guerra.

O cano da P-38, diferentemente daquele da Luger, não era fixo no chassis e era absolutamente independente do ferrolho, mantendo-se firmemente travado quando do disparo. Isto, aliado a um cano de 5 polegadas de comprimento (125mm) - uma polegada (2,5mm) mais longo que o da P-08 - tornavam a pistola da Walther uma ótima plataforma de tiro, muito precisa a despeito de ter miras fixas.

A trava, situada na porção traseira superior do ferrolho, além de bloquear o funcionamento da arma quando acionada, poderia ser também utilizada para desengatilhá-la, isto é, se a pistola estava com o cão armado, bastava abaixar a trava que o cão descia sem bater no percursor. Voltando a trava para a posição normal, o gatilho também desarmava, ficando pronto para ser acionado. Sua desmontagem iniciava-se através de uma alavanca na parte inferior posterior do lado esquerdo do chassis.

Mantendo a mesma capacidade que a Luger - oito cartu-chos de calibre 9mm Luger -, a P-38 era ligeiramente me nor (213mm de comprimento, contra 222mm da Luger), mesmo tendo o cano maior já que este atuava de forma semi-telescópica dentro do ferrolho. Sua empunhadura também não ficava em nada devendo à sua antecessora - com as talas de empunhadura feitas em plástico preto ou marrom avermelhado -, sendo muito confortável, e a arma toda (feita em aço), pesava, descarregada, 960 gra mas.

Como a maioria das pistolas militares, após o último dis-paro, a arma permanecia com o ferrolho aberto. O carre-gador era liberado através de um retém situado na base da empunhadura - seu único ponto negativo em compa-ração com a Luger.

Soldado alemão escolta prisioneiros americanos com sua P-38. Ardennas, dezembro de 1944.

Todas essas inovações técnicas casavam-se, ainda, com o fato de que as pistolas P-38 eram bem mais fáceis de serem produzidas do que as Lugers, já que não exigiam um trabalho de fresamento, polimento e ajustes tão precisos, além de ter completa intercambialidade de peças - o que era essencial para a Wehrmacht.

Embora a Luger P-08 continuasse em produção até novembro de 1942 por questões de logística e tradição, seria a Walther P-38 que acompanharia a Wehrmacht até a rendição, servindo com distinção em todos os front de combate.

 

Produção da Waffenfabrik Walther

Em 1º de abril de 1939 o Exército alemão fez o pedido formal à Walther para a entrega de 800 pistolas P-38 para avaliação de campo. Muitas destas primeiras armas ainda usavam peças em estoque originalmente do modelo "HP", destinado ao mercado civil, trazendo portanto bancos de prova comerciais.

O primeiro lote de série de pistolas P-38 militares é a ho-je chamada "série zero", pois tratam-se de 13.000 armas cuja numeração vai de 000001 a 013000, sendo entre-gues entre abril de 1939 e março de 1940.

Em 26 de abril de 1940, os testes de campo foram ofici-almente concluí- dos e a Wehrmacht fez uma encomen da para a entrega de 410.600 pistolas P-38 a serem distri buídas entre o E-xército, a Luftwaffe e a Kriegsmarine, além das SS.

Contudo a produção demorou a deslanchar e, embora a Walther previsse a entrega de 175.000 armas até junho de 1940, apenas 9.750 foram concluídas nesse período. Somente em abril de 1941 é que a Walther conseguiu atingir a produção de 10.000 por mês - o que se manteve, basicamente, até o final da guerra.

Desde 1934 o OKW havia estabelecido que nas pistolas Luger, e outras armas destinadas às Forças Arma-das, o nome dos fabricantes seriam substituídos por um código secreto. Tal iniciativa procurou de um lado ocultar o rearmamento da Alemanha e, depois, se prestou a dificultar a identificação das principais fábricas de armamento pelos inimigos, evitando missões de sabotagem e/ou bombardeamento destas unidades de produção.

Deste modo, apenas os primeiros exemplares entregues entre 1939 e o início de 1940 trazem a logomarca da Walther, que foi substituída pelo código "480". Contudo, apenas cerca de 7.000 armas foram feitas com esse código, que seria substituído pelas letras "ac" - que seria mantido até o final da guerra. Abaixo do código do fabricante era colocado o ano de manufatura da arma, em dois dígitos, embora algumas poucas do primeiro lote não fossem datadas. A numeração de série das pistolas P-38 militares (timbrada no ferrolho, chassis e base do cano) era dividido em lotes de 10.000 peças, iniciando-se em 0001-9.999, após o que eram acrescen-tadas letras minúsculas (p. ex. 0001a - 9999a ), sendo que no início de cada ano a numeração era "zerada", voltando-se ao número sem sufixo.

Além do código secreto, as P-38 de dotação das Forças Armadas ale-mãs traziam as marcas de aceitação militar os chamados Waffenamts, que se tratavam de uma pequena águia trazendo o número 359 (no caso da Walther). Os Waffenamts eram timbrados no ferrolho (lado direito), cano, chassis e, às vezes, em algumas peças menores.

As pistolas P-38 fabricadas pela Walther tinham, até o final do ano de 1941, um acabamento primoroso, quase do mesmo nível que as peças destinadas ao mercado civil no tempo de paz, caracterizando-se por te-rem peças bem polidas e com oxidação cuidadosa.

A partir de 1942 até o final de sua produção, a qualidade do acabamento foi deteriorando, tendendo a ser mais fosco, cada vez mais com marcas de fresa no chassis e ferrolho e de torneamento no cano, como reflexo da urgência na produção a fim de atender às demandas da Wehrmacht e da precariedade da mão-de-obra e matérias-primas dos dias de guerra. Contudo, funcionalmente, estas armas operavam com a mesma eficiên-cia que as pistolas mais antigas.

Soldado da SS com uma P-38 em sua cintura durante as batalhas na Normandia, 1944.

Também é interessante notar que, a partir do final de 1942, a oxidação aplicada às pistolas da Walther tinha uma acentuada tendência a se tornar acinzentado, como reflexo de uma provável mudança nos componentes químicos utilizados. No final de 1943, o código secreto "ac" e o ano de produção passaram a ser timbrados no ferrolho em uma única linha, após o número de série.

A produção da P-38 continuou até abril de 1945, quando a fábrica foi tomada por tropas americanas. Os núme-ros indicam um total de cerca de 590.200 pistolas produzidas pela Waffenfabrik Carl Walther.

 

Produção da Waffenfabrik Mauser

No entanto, a demanda da Wehrmacht requeria um número muito maior de pistolas e a solução foi contratar outras empresas para complementar o total requerido. Já em junho de 1940 a Waffenfabrik Mauser, de Obern-dorf, recebeu ordens do governo de suspender a produção da Luger P-08 e iniciar a produção da P-38. A dire- ção da empresa conseguiu adiar essa determinação por dois anos, principalmente pelo fato de que a Mauser teria de pagar royalties para a Walther pela produção de sua pistola. Finalmente, em novembro de 1942, a Mauser encerrou a produção da veterana Luger, passando a fabricar a P-38. No final de dezembro de 1942, a Mauser entregou as primeiras 700 pistolas.

Utilizando o código secreto "byf" (sempre timbrado acima do ano de fabricação), as P-38 produzidas pela Mauser em quase nada diferiam daquelas manufaturadas pela Walther, à exceção do contorno superior do chassis na parte superior do guarda-mato, o qual possui uma peque na curvatura descendente, no ponto em que se situa o gatilho.

Quanto ao Waffenamt, as pistolas da Mauser eram tim-bradas, até 1943, com a águia com o número "135" . Em meados desse ano, a partir do bloco de produção "p", a marca mudou para uma águia sobre as letras "WaA".

O acabamento seguia a mesma linha da Walther, até setembro de 1944, quando a Mauser adotou um sistema de oxidação que ficaria conhecido entre os colecionadores como "dupla tonalidade", que se caracterizava por ser um processo químico que reagia de modo diferente entre as partes usinadas e as micro-fundidas, tornando de cor negra os canos, enquanto o chassis, ferrolho e outras partes ficavam de cor cinza.

Dentro da história das P-38 fabricadas pela Mauser menção deve ser feita a uma rara variante que surgiu de uma encomenda feita pela temida GESTAPO (Geheime Statz Polizei, Polícia Secreta do Estado). Em algum momento do ano de 1944 esse infame órgão policial encomendou à fábrica Mauser uma arma curta em calibre 9mm Luger (maior que as munições 7,65mm e .380 ACP usadas nas Walther PP/PPK e Mauser HSc).

Depois de efetuar alguns estudos, a empresa desenvolveu uma proposta que consistia em uma P-38 com o cano encurtado para 6,5 centímetros e massa de mira colocada na frente do ferrolho. Chamada de P-38K (de Kurz, ou curto), esta variante - da qual forma feitos poucos exemplares - acabou também sendo encomendada por alguns oficial da SS. As marcas timbradas no ferrolho eram idênticas àquelas da série normal da arma. Poucos exemplares foram produzidos, o que os tornam peças altamente colecionáveis, mas muito falsificados.

No final de 1944 ou início de 1945, o código secreto da Mauser foi alterado para "svw", que permaneceria até a fábrica ser tomada por tropas alia das, em abril de 1945, quando a numeração de série estava na casa do número "3.750 f". No final do conflito, a fábrica Mauser teve des-truídos seus arquivos mas a maquinaria foi preservada e, estando sob controle do exército francês, este não furtou em retomar a produção de pistolas P-38, ainda que em bases mais limitadas, utilizando-se de peças de estoque exemplares já montados ou em fase de finalização.

Essas pistolas, cujo número de série é seqüencial à pro-dução nazista, mantêm o código "svw" (inclusive aden-trando o ano de 1946, não possuindo Waffenamts (geral-mente apagados) mas sim a chamada "prova de Nitro" francesa: uma estrela de cinco pontas, timbrada no lado

Soldados da 11ª Divisão Blindada do 3º Exército americano na fábrica da Walther, separam várias P-38 como troféus de guerra, abril de 1945.
direito do ferrolho e chassis. Mas a principal característica dessas armas era o acabamento que, em razão de alguma alteração química feita pelos franceses, deu a elas uma coloração completamente cinza, quase idênti-ca ao processo de "parkerização" usado pelos americanos em suas pistolas Colt M1911A1. Muito cobiçadas no mercado de colecionadores, essas P-38 acabaram por serem batizadas de "gray ghosts" (fantasmas cin-zas). Os franceses finalmente se retiraram da fábrica da Mauser no início de 1946, entregando-a para os rus-sos, a quem coube esse espólio.

Durante o período compreendido entre novembro de 1942 e abril de 1945, a Waffenfabrik Mauser respondeu pela produção de cerca de 340.000 pistolas P-38.

 

Produção da Spreewerke Metallwaffenfabrik

Mesmo com a produção sendo efetuada por duas grandes fábricas, a demanda de pistolas P-38 do Alto Co-mando da Wehrmacht não estava sendo atendida a contento, de modo que a solução encontrada foi determina ção que esta pistola fosse manufaturada por um terceiro fabricante. A escolha recaiu sobre uma empresa de equipamentos agrícolas, a Spreewerke Metallfabrik, localizada no distrito de Spandau (Berlim) - que teve a sua razão social alterada para Spreewerke Metallwaffenfabrik, em razão de sua nova atividade fabril. O código se-creto que lhe foi designado pelo OKW foram as letras "cyq", sendo que as pistolas deste fabricante não tra-zem o ano de produção estampado; o Waffenamt timbrado nas P-38 da Spreewerke era a marca d'água sobre o número "88".

Na primeira metade de 1943, parte do pessoal técnico da Mau-ser foi enviado para a linha de produção da Spreewerke, a fim de orientar a produção das primeiras armas, já que aquela em-presa não possuía o "know-how" da produção de armamento.

As primeiras 50 armas foram entregues em junho de 1943, mas foram rejeitadas. Outras 300 pistolas foram apresentadas para avaliação em agosto e, finalmente, aprovadas pelo Escritó rio de Armas (Waffenamt ). Embora também fosse feita uma projeção de 10.000 armas por mês, essa meta nunca foi atingi-da.

Seguiu-se uma produção inicial de armas com qualidade com patível com aquelas fabricadas pela Mauser mas, tão logo, os técnicos des ta última deixaram as instalações da Spreewerke a qualidade do aca bamento e de usinagem decaiu muito, che-gando a um ponto crítico entre o mês de dezembro de 1944 e o final da guerra, em maio de 1945, quando empregou-se mão-de-obra escrava de operários judeus.


Na verdade o acabamento das P-38 feitas pela Spreewerke é claramente muito rudimentar, com marcas de fre sa claramente aparentes, sem qualquer polimento ou preocupação estética - algo que foi se tornando supér-fluo no desesperado programa de armamento alemão nos últimos meses do conflito. Além disso, a mão-de-obra desqualificada e "contratada" por meios pouco ortodoxos, fez com que surgissem no mercado de colecio-nadores a teoria de que muitas destas pistolas P-38 da Spreewerke foram sabotadas, pelo que não é muito re-comendável seu uso com munições modernas.

Outra característica peculiar das P-38 deste fabricante é que alguns dos últimos exemplares usavam talas da empunhadura feitas em alumínio ao invés de plástico (como nas feitas pela Walther e Mauser), com certeza outro sinal da escassez de material nos derradeiros momentos do III Reich. Quando a produção de pistolas P-38 pela Spreewerke acabou, em maio de 1945, um total de 285.000 armas haviam sido manufaturadas.

 

Carreira de Sucesso no Pós-Guerra

Mesmo após o fim das hostilidades, em maio de 1945, a procura pelas pistolas P-38 não cessou. Várias pe- ças capturadas haviam sido levadas para os EUA, onde desfrutaram de enorme popularidade entre os vetera-nos e novos admiradores, principalmente por não existir qualquer equivalente a esta arma no mercado do Tio Sam (sua primeira concorrente somente surgiria em 1954 com o lançamento da Smith & Wesson Modelo 39).

A P-38 também continuaria uma carreira militar de suces-so nas mãos de tropas da França que, como visto, fabri-cou brevemente este modelo em 1945-46, utilizando-as nas guerras coloniais na África e na Indochina.

Além disso, vários ex-combatentes da Wehrmacht que se alista-ram na Legião Francesa no pós-guerra mantiveram suas P-38 como arma de uso pessoal.

Em 1955, quando a Alemanha Ocidental foi autorizada a recons truir suas Forças Armadas, a escolha para uma arma portátil não poderia ser mais previsível: a P-38, agora fabricada pela Walther na cidade de Ulm, sob a desig-nação de P-1, utilizando um chas sis de liga leve - outra marca que seria mais tarde a regra entre as armas militares.

A Walther P-1 permaneceria como arma oficial do Bundeswehr até o início dos anos 80.

Fabricada ainda nos dias de hoje, passados mais de 60 anos de sua introdução, e praticamente sem nenhuma alteração em seu design, a P-38 figura entre os projetos mais influentes no campo das armas de fogo e se constitui um clássico, sendo que os exemplares do III Reich estão entre as peças mais desejadas entre os colecionadores.


Dados técnicos
(para os modelos fabricados durante o III Reich)
Fabricantes:Walther, Mauser e Spreewerke
Comprimento total:213 mm
Comprimento do cano:125 mm
Calibre:9 mm Luger
Peso (descarregada):960 gramas
Capacidade:8 (+1) cartuchos
Cabos:Plástico ou Alumínio
Miras: fixas






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