Mauser Mod. 1914/1934

Mauser é, ainda hoje, sinônimo de arma de fogo. A famosa fábrica, que era situada na cidade de Oberndorf, às margens do rio Neckar, foi um dos maiores fabricantes de armas do mundo entre a década de 1880 e o final da II Guerra Mundial, e seus produtos - principalmente os fuzis militares - armaram metade dos exércitos do Mundo, inclusive o Brasil, nesse período.

Fundada em 1874 pelos irmãos Peter-Paul (1838-1914) e Wilhelm Mauser (1834-1882), a "Waffenfabrik Mauser" de senvolveu-se graças à genialidade de ambos e à sua in-venção mais famosa: o fuzil de ferrolho de giro, considera do por muitos o mais perfeito e acabado sistema de repe tição de armas longas já inventado.

Embora tivesse como seu carro-chefe comercial os fuzis militares, na última década do século XIX, a fábrica Mau-ser estava atenta às tendências do mercado de armas curtas, notadamente a busca de uma arma portátil que funcionasse em regime semi-automático com a utiliza- ção dos gases resultantes do disparo do projétil.

A primeira pistola semi-automática da empresa, projetada pelos irmãos Fiderle, foi lançada em 1896, e estava destinada a se tornar um dos maiores clássicos da história das armas: a Mauser C-96 (Construct 1896) . Apelidada pelos colecionadores de "Broomhandle" ("cabo de vassoura", em razão de sua típica empunhadura) e utilizando um cartucho potente (o 7,63mm Mauser, desenvolvendo a velocidade de 442 m/s e gerando uma energia de 578 Joules), era uma arma extraordinária do ponto de vista de acabamento e projeto. Outro detalhe importante era que a maioria dos exemplares era vendida com um coldre de madeira que podia ser utilizado como uma coronha, permitindo sua utilização como uma pequena carabina.

Contudo, a despeito de ser destinada ao mercado militar, a C-96 era uma arma muito grande, um tanto desajeitada e complexa de se desmontar. Fora isso, enfrentou a concorrência de sua contem porânea, a também germânica Luger.

A despeito de ter sido fabricada até 1936, totalizando quase um milhão de exemplares produzidos em inúmeras variações, a C-96 nunca chegou a ser adotada em número substancial por qualquer nação, residindo suas vendas principalmente no mercado civil ou em pequenos contratos com algumas nações.

A exceção fica por conta dos 150.000 exemplares fabricados em caráter emergencial para o Exército alemão entre 1916 e 1918, para uso na I Guerra Mundial e que utilizavam munição regulamen tar 9mm Luger, sendo marcadas com um "9" vermelho na empu-nhadura. Por essa razão, essas raras pistolas tornaram-se conhe-cidas pelos colecionadores como "Red Nine".

 

Sucesso Comercial

Não demorou muito para o departamento comercial da Mauser perceber que a volumosa C-96 não tinha um grande apelo entre aqueles que desejavam portar uma arma para fins de defesa pessoal, principalmente nos centros urbanos. Por sua vez, o incrível sucesso da linha de pistolas portáteis que John Browning estava desenhando para a FN belga na primeira década do século XX, mostrou qual o caminho a seguir.

Os técnicos da Mauser começaram a desenvolver uma série de protótipos entre 1906 e 1910, mas utilizando po tentes calibres militares. Entretanto, um dos membros da equipe de projetos da empresa, Josef Nickl, percebeu que um desses modelos experimentais, datado de 1909, poderia funcionar bem com calibres menores, mais ao gosto dos civis europeus.

Após refinar o desenho da arma, surgiu a Mauser Modelo 1910, uma elegante e pequena arma no calibre 6,35mm Browning (ou .25 ACP) com apenas 116mm de compri-mento total.

O sucesso da empreitada levou ao surgimento de um modelo ligeiramente maior quatro anos mais tarde, utilizando o calibre 7,65mm Browning (.32 ACP) e chamado de Mauser Modelo 1914. Essa arma se tornaria um dos grandes sucessos comerciais da empresa nos quinze anos seguintes e mesmo o início da I Guerra Mundial, em agosto de 1914, não causou qualquer distúrbio na produção mas, muito pelo contrário, incrementou suas vendas.

A Mauser 1914 veio suprir uma grande lacuna nos círculos militar e policial da Alemanha. Explica-se: naquela época era permitido aos oficiais do exército alemão adquirirem suas próprias armas pessoais e muitos preferiam adotar exemplares menores e mais confortáveis de se portar do que a Luger ou mesmo a C-96 e a pequena Modelo 1914 revelou-se uma opção mais do que atraente. Além disso, a política alemã de autorizar o uso de armas portáteis para um grande número de funções (padioleiros, enfermeiros, médicos, motoristas e mesmo oficiais administrativos em serviço na frente de batalha, entre outros) criou uma demanda que foi suprida em grande parte por armas menores como a Mauser 1914.

Por sua vez, os departamentos policiais germânicos, ávidos por uma pistola semi-automática, rapidamente voltaram-se para o novo produto da Mauser. Muitos exemplares do Modelo 1914 foram utilizados por policiais durante e após a I Guerra Mundial, normalmente trazendo marcas de propriedade no lado direito do chassis.

 

Características Técnicas

A Mauser Modelo 1914 é uma arma compacta que herdou muita de sua aparência de sua "irmã" menor. Contudo há algumas pequenas diferenças entre os dois modelos, sendo que a arma em calibre maior tinha um sistema diferente de segurar o pino do cano, novo desenho da placa que cobre o mecanismo de trava e outras alterações cosméticas.

O sistema de funcionamento é o clássico recuo direto por força dos gases ("blowback"), não necessitando de qualquer tipo de aferrolhamento em razão da potência limitada do calibre que utiliza. O mecanismo de disparo é o de percursor lançado, ou seja, ao se movimentar o ferro lho para trás, a "agulha" ficava retida por uma armadilha que era solta ao se acionar o gatilho. Os técnicos da Mauser aproveitaram o dispositivo para criar um sistema de segurança: quando o percursor está armado, sua par-te posterior projeta-se alguns milímetros para fora do fer rolho, aparecendo na parte traseira do ferrolho, avisando que a arma está pronta para disparar. Esse simples dis-positivo tratava-se de uma grande inovação quando arma foi lançada.

O acabamento da pistola fazia jus à fama da fábrica Mauser. Tratava-se de uma arma construída com aço da melhor qualidade, com um lindo acabamento com fundo levemente azul, fruto da chamada "oxidação à boneca" ou "à frio". Suas partes menores, como o gatilho, extrator e pino de desmontagem, tinham um tratamento diferenciado, ainda mais azulado.

Outra característica típica do Modelo 1914 era que o ferrolho não recobria integralmente o cano da arma, evitando que essa peça fosse desnecessariamente pesada. Também ficava no ferrolho as inscrições do fabricante: "WAFFENFABRIK MAUSER A.-G. OBERNDORF a.N MAUSER´S PATENT" (lado esquerdo) - podendo ser em uma ou duas linhas - além da indicação do calibre no lado direito. Várias pistolas ainda apresentam a "bandeira" da fábrica Mauser, estampada na placa que recobre o mecanismo.

As miras do Modelo 1914 eram fixas - como é de se es-perar de uma arma destinada à defesa pessoal - e os bancos de prova (a letra "U" encimada por duas coroas) são timbrados logo atrás da alça de mira. A trava era a-cionada ao se abaixar uma alavanca situada no lado es-querdo da arma, logo atrás do gatilho; ao se apertar o bo tão situado embaixo da mesma, destravava-se a pistola. O carregador - que muitas vezes tinha a logomarca da Mauser -, com capacidade de oito cartuchos em calibre 7,65mm, era liberado através de um retém situado na base da empunhadura.

Outra das características típicas da Mauser Modelo 1914 era sua empunhadura envolvente. Confeccionada em ma-deira ou, por vezes, em baquelite (com as letras W.M. en trelaçadas), era levemente zigrinada e era surpreendente-

mente confortável de se segurar. Já o número de série da pistola era timbrado integralmente à frente do lado esquerdo do ferrolho e no chassis (logo abaixo do percursor). Além disso, os três últimos dígitos eram tam-bém gravados no suporte do cano e, por vezes, na base do carregador. Antes de 1913 os números de série para o modelo 1910 (em calibre 6,35mm) vão de 0001 a cerca de 61.000. Quando de sua introdução, a nume-ração das pistolas modelo 1914 ficou de 61.000 a cerca de 100.000. Após 1914 os números de série para a "irmã menor" vai de cerca de 100.000 a 200.000 e, partir daí até o número 640.000 (atingido em 1939), os números de ambas as pistolas foi intercalado.

A desmontagem de campo da Mauser Modelo 1914 era simples: 1) verifique se a arma está descarregada e retire o carregador; 2) pressione o botão situado à frente da armação, logo abaixo da boca do cano; 3) vire o pino de fixação do cano para o lado direito, puxando-o para a frente; 4) segure o ferrolho atrás e, em seguida, puxe o cano para cima, retirando-o; 5) deslize o ferrolho para frente, liberando a mola de recuperação e seu guia. São poucos os componentes e, para montar, é só inverter o processo.

 

O Modelo 1934 e seu uso no III Reich

Após a I Guerra Mundial a produção de armas na Alemanha foi severamente restringida pelo Tratado de Versalhes. Entretanto, as proibições não afetaram de modo grave o Modelo 1914, que continuou a ser comercializado com sucesso em todo o mundo ao longo dos anos 20, inclusive no Brasil. Mesmo em seu país natal, a pequena pistola da Mauser permaneceu como uma das favoritas das forças policiais.

Contudo, em 1929, com o lançamento da revolucionária Walther PP, a Mauser começou a perder terreno rapidamente. A série PP, seguida dois anos depois pela PPK, traziam inúmeras inovações que tornaram suas concorrentes obsoletas da noite para o dia. Isso, aliado à crise mundial do início dos anos 30, forçou os técnicos da Mauser a retornarem à prancha de desenhos em busca de soluções.

A ascensão do Partido Nazista ao poder em 1933 e o gra dual rearmamento alemão que se seguiu, aliados à algu-mas alterações técnicas assegurariam uma sobrevida ao Modelo 1914. Um anos após Hitler se tornar chanceler surgia o que a Mauser denominou "Modelo 1934".

Trata-se, na verdade, da mesma arma, dotada de apenas algumas modificações cosméticas, sendo a principal a empunhadura mais ergonômica (em madeira ou ebonite) e o número de série gravado em um recesso em baixo re levo no ferrolho. Vários colecionadores denominam essa arma de "1910/34".

Essas pequenas mudanças garantiram-lhe um contrato com a S.A. (Sturm Abteilung - a Tropa de Choque do Partido Nazista) e, principalmente, com a Kriegsmarine. As armas destinadas à marinha germânica são devidamente marcadas na parte frontal da empunhadura com uma âncora e as letras "O" (de "Ost" para os navios baseados em Kiel) ou "N" (de "Nord" para os navios ancorados em Wilhelmshaven). Outra marca que também costuma aparecer nessas armas é o "M" encimado por uma águia.

A Luftwaffe, embora não tenha feito nenhuma requisição formal de compra dessas armas, também foi sua usuá- ria, pois muitos tripulantes as adquiriram (bem como o Modelo 1914) para uso em serviço, prática permitida pela política da Wehrmacht.

Muitas pistolas Mauser viram ação já na Guerra Civil Es-panhola (1936-1939), nas mãos de pilotos da Legião Con dor. As armas de uso da Luftwaffe eram fornecidas geral-mente em coldres de couro (na cor marrom) que tinham um compartimento para um carregador extra.

À essa altura, o modelo já dava seus últimos suspiros. Finalmente, em 1939, a Mauser lançou uma nova arma, a moderníssima HSc, encerrando a produção dos modelos 1910 e 1914/34, que totalizaram uma produção de cerca de 750.000 peças, ao longo de quase 30 anos de produção. No entanto, durante toda a II Guerra Mundial essas armas foram vistas nas mãos de oficiais alemães, a quem serviram fielmente, contribuindo para consagrar o nome da empresa que as criou.


Dados técnicos
(para calibre 7,65mm do III Reich)
Fabricantes:Waffenfabrik Mauser
Comprimento total:160 mm
Comprimento do cano:80 mm
Calibre:7,65 mm Browning
Peso (descarregada):720 gramas
Capacidade:8 (+1) cartuchos
Cabos:Madeira ou ebonite
Miras:fixas




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