Luger P-08
"Parabellum"

A pistola semi-automática alemã Luger P-08 (também conhecida como Parabellum) é um daqueles objetos que acabam por habitar o subconsciente coletivo. Assim como o Cadillac 1959 "rabo-de-peixe", a Mona Lisa de Da Vinci ou, ainda, a logomarca da Coca-Cola, a silhueta dessa arma tornou-a não apenas inconfundível mas também um ícone que consegue invocar inúmeras imagens que vão do arrogante oficial prussiano com seu capacete de espigão da I Guerra Mundial, passando pelos cruéis oficiais nazistas do segundo conflito che gando até os vilões de filmes de espionagem de James Bond.

Seu desenho peculiar, caracterizado por linhas agressivas sua empunhadura de ergonomia jamais igualada e seu me canismo ímpar (a ação de "joelho"), contribuíram muito pa-ra criar a aura lendária que a cerca, e serviram para consa grar a Luger tanto entre os Colecionadores quanto entre os leigos. Essa impressão duradoura sempre a acompan-hou praticamente desde o seu surgimento, em 1899, tor-nando-a um dos grandes sucessos comerciais da história: foi fabricada continuamente até 1945, totalizando mais de 4 milhões de exemplares em cerca de 170 versões diferen tes por cinco fabricantes (DWM, Erfurt, Simson, Mauser e Krieghoff), apenas na Alemanha, que a utilizou extensa-mente nas duas guerras mundiais.

No primeiro terço deste século foi a pistola mais bem sucedida comercialmente, sendo adotada como arma regulamentar de vários países (Suíça, Brasil, Portugal, Bulgária, Rússia, Holanda, Tailândia, Estônia, etc.), bem como comercializada no mercado civil com sucesso nos cinco continentes.

É justamente em razão do respeito devido à sua história, que a pistola Luger será estudada nessa seção com o devido cuidado e atenção, buscando fornecer aos iniciados e iniciantes um panorama de seu uso pelas forças armadas germânicas, principalmente pela Luftwaffe na II Guerra Mundial.

 

O Início

A Luger foi projetada pelo engenheiro austríaco Georg Luger (1849-1923) entre 1898-1899, enquanto trabalhava como projetista da DWM (Deutsche Waffen und Munitionfabriken - Fábrica Alemã de Armas e Munições). Tomando como ponto de partida um produto anterior da mesma empresa, a pistola Bochardt C-93 - tida pelos estudiosos como a primeira pistola semi-automática do mundo - Luger aperfeiçoaria seu projeto, tornando-a muito mais portátil e prática de se manusear.

Lançada oficialmente em 1899, e chamada simplesmen-te "Pistole 1900, estava disponível inicialmente apenas no calibre 7,65mm Luger (ou 7,65mm Parabellum), uma munição de alta velocidade e grande precisão, mas de poder de parada apenas moderado.

Outras características eram o cano de 120mm (4.75 po-legadas), as manoplas de acionamento do ferrolho em for mato côncavo (conhecidas do Brasil como "orelha corta-da") e uma tecla de segurança na empunhadura, que im pedia o disparo se a arma não estivesse corretamente empunhada. Seu sucesso foi quase imediato, sen do ado tada ainda em 1900 pelo exigente Exército da Suí ça, o que serviu de excelente propaganda.

Nos anos seguintes vários aperfeiçoamentos foram feitos à medida que a arma foi se popularizando. O primei-ro e mais importante seria a introdução de um calibre mais potente e que estaria destinado a se tornar o mais difundido calibre militar da história: o 9mm Luger (ou 9mm Parabellum) - que conjugava perfeitamente precisão velocidade e poder de parada. Junto do já mencionado 7,65mm Luger, estes seriam os dois únicos calibres empregados pela Luger ao longo de sua história.

Outras alterações ocorreram nas manoplas de acionamento do ferrolho (agora integrais e completamente zigrinadas) mola de recuperação, extrator, gatilho e guarda-mato, chegando-se a uma versão definitiva em 1906 - pelo que este modelo seria de-signado Modelo 1906 e que seria adotado, como visto, por inú- meros países, entre eles o Brasil, que adquiriu 5.000 pistolas em calibre 7,65mm e outras 500 em calibre 9mm e que perma-neceram em uso no Exército até 1937.

Curioso mencionar que o nome da pistola nunca foi, oficialmen te, "Luger". O fato é que foram os americanos - cujo mercado consumidor absorveria grandes quantidades desta arma até a década de 1930 - que passaram a chamá-la assim e o nome ficou. Outra denominação comum é a palavra latina "Parabel-lum" (para a guerra), que era o endereço telegráfico da DWM - daí a origem do nome pelo qual ficaria conhecida no Brasil: "pa rabelo" ou "parabéu", muito comum nos sertões e interior do nosso País.

O acabamento das Lugers, tanto para o mercado civil quanto para as forças militares era primoroso. Utilizando uma oxidação chamada "à boneca" ou "à frio", estas pistolas adquiriam uma tonalidade escura mas de fundo azul, com as partes pequenas (gatilho, alavanca de desmontagem e trava de segurança) recebendo tratamen-to diferenciado, e ganhando um tom amarelado ou "champanhe". A madeira empregada nas talas de empunha dura (completamente zigrinadas) e base do carregador eram confeccionadas em ótima nogueira.

 

A Luger no Exército Imperial

Conquistado o mercado internacional, faltava à DWM a adoção pelas próprias forças armadas do Império ale-mão. E esta não tardou muito a ocorrer.

A Marinha germânica faria a primeira encomenda em 1904 (seguindo-se outras em 1906 e 1908), seguida pelo Exército em 1908 (daí o no-me pelo qual ficaria conhecida nas forças armadas da Alemanha: P-08 - Pistole 1908) sempre utilizadas em calibre 9mm Luger. No entan to, os alemães acabaram criando variações específicas para cada for ça armada, devido ao emprego que previam para essas armas.

Isto originaria três modelos básicos de uso pelas forças da Alemanha antes e durante a Primeira Guerra Mundial:

Modelo do Exército (Pistole 08 ou P-08) - as pistolas adotadas pe-lo Exército, e de uso por oficiais e oficiais não-comissionados, pos-suíam miras fixas, cano de 100mm (4 pol.), sem tecla de segurança, capacidade de oito cartuchos em 9mm Luger e talas de empunhadu-ra em madeira. Embora a maioria possuísse previsão de encaixe do coldre coronha, estes nunca foram fornecidos para as tropas regula-res de infantaria.

Soldados alemães ostentam os coldres de suas pistolas Lugers, 1915.)

Modelo Naval (Marine Modell) - as pistolas da Marinha possuíam o cano de 150mm (6 pol.), miras reguláveis para 100m e 200m (1) e eram fornecidas com um coldre-coro-nha, que permitia sua utilização como uma pequena cara-bina semi-automática, algo muito apreciado pelas tripula- ções de lanchas e submarinos, que tinham pouco espaço disponível (2). As pistolas encomendadas em 1904 e 1906 possuíam a tecla de segurança, que foi retirada a partir de 1908, visando a padronização do equipamento. Todas as Lugers Navais do período Imperial possuíam duas letras maiúsculas "M" coroadas no lado esquerdo, indicando a aceitação pela Kriegsmarine (3).

Modelo Artilharia (Artillerie Modell) - essas pistolas, embora fornecidas ao exército, eram destinadas Àqueles soldados que, devido às suas funções, estavam impossibi litados de portar o fuzil regulamentar Mauser G98, como, por exemplo, os soldados que serviam batalhões de artilha ria (daí o nome o modelo), motoristas, mensageiros, moto-ciclistas, etc. Ela se caracterizava por ter um cano de 200 mm (8 pol.), miras reguláveis até 800 metros, e também ser disponível com um coldre coronha capaz de transfor-má -la em uma mini-carabina. No meio da guerra foi desen volvido um estranho carregador de tambor (também chama do de "caracol"), com capacidade para 32 tiros, que devi-do à sua complexidade tendia a emperrar facilmente, o que conferia ao conjunto um aspecto um tanto grotesco.
Várias destas foram utilizadas por tripulações de aviões e de dirigíveis e cerca de 200 viram serviço durante a II Guerra Mundial - sem o tambor - quando foram fornecidas a motociclistas da Luftschutz (Defesa Civil).

Marinheiro alemão da frota de torpedeiros e sua Luger Naval, c. 1914.

Em razão do aumento da demanda, a DWM foi obrigada a for-necer os projetos da Luger para o governo alemão, que passou a fabricá-la no Arsenal Imperial de Erfurt, que produziu os mo-delos do Exército e de Artilharia até 1918, totalizando cerca de 500.000 armas. As Lugers militares passaram a possuir, além da marca do fabricante sobre o ferrolho - as letras DWM entre-laçadas ou a coroa imperial sobre a palavra Erfurt - também o ano de fabricação, a partir de 1910, timbrado sobre a câmara. Os bancos de prova de aceitação eram marcados no lado direi to da arma.

O total de pistolas utilizadas pelas forças alemãs entre 1904 e 1918 é calculado em torno de 1.700.000 armas, nas suas vári-as configurações. A numeração de série das pistolas militares germânicas era dividido em lotes que começavam em 0001 a 9.999, após o que eram acrescentadas letras minúsculas (p.ex 0001a - 9999a ), sendo que no início de cada ano a numeração

era "zerada", voltando-se ao número sem sufixo. Cada peça de uma Luger possui sempre os últimos dois dígi-tos do número de série estampado, o que serve para conferir se todas as peças são originais.

 

A Luger na República de Weimar

Após a derrota alemã na I Guerra Mundial e a queda da Monarquia, o Tratado de Versailles de 1919 permitiu a manutenção de uma força de apenas 100.000 homens. Outra conseqüência do tratado foi o desaparecimento dos arsenais imperiais, que tiveram suas máquinas desmontadas. Depois desse período, a DWM ficou como a única responsável pela produção de Lugers, continuando a vende-las para o mercado civil e para clientes no exterior.

Entretanto, a partir de 1925, outra empresa passou a pro-duzir a Luger: a Simson & Co. Sediada em Suhl, esta em-presa foi autorizada pelos Aliados a fornecer as pistolas de reposição para o diminuto exército da República de Weimar. Para tanto, ela adquiriu o ferramental proveniente do antigo arsenal de Erfurt. Sua produção estendeu-se até 1933, totalizando apenas 25.000 pistolas, as quais possuí am um ótimo grau de acabamento, e traziam sobre o ferro lho a marca "Simson & Co. - Suhl".

Durante esses anos, as forças armadas alemãs padroniza ram a configuração das pistolas Luger, passando a empre-gar apenas a versão P-08 (cano de 100mm, sem a tecla de segurança e com miras fixas), deixando de adquirir as

versões Naval e Artilharia. Embora continuassem a ser produzidas, essas versões passaram a se destinar ao mercado civil ou a encomendas feitas por exércitos e órgãos de segurança de outros países.

Na primavera de 1930, a empresa Waffenfabrik Mauser, situada em Oberndorf ªNeckar, adquiriu da DWM todo o ferramental para a produção das pistolas Lugers, junto com um grande estoque de pistolas semi-acabadas e peças avulsas. Até 1934, a Mauser montou, reformou e comercializou cerca de 30.000 destas pistolas, forne-cendo-as às forças policiais alemãs. Geralmente as peças fabricadas pela Mauser possuem sobre o ferrolho a logomarca da fábrica.

Mas, com a ascensão de Adolf Hitler e do Partido Nacional Socialista ao poder, em janeiro de 1933 e o conse-qüente início do rearmamento alemão, a Luger novamente passaria a desempenhar um papel crucial.

 

As Lugers do III Reich

a) Fabricação Mauser

Após assumir o poder na Alemanha, Hitler iniciou imediata-mente o programa de rearmamento do Exército. A rápida ex pansão do contingente militar deveria ser acompanhado, por óbvio, do aumento da produção de armamento mas este, em razão das imposições ainda existentes do Tratado de Versai lles, deveria ocorrer em segredo.

Para tanto, desenvolveu-se um sistema pelo qual tanto o no-me do fabricante quanto o ano de produção ficavam ocultos sob códigos secretos, que eram estampados na arma no lu-gar do nome do fabricante.


Como principal produtora da pistola Luger - ainda a arma regulamentar do Exército alemão - a Mauser passou a ado tar este sistema a partir de 1934. O primeiro código adota-do foi o "S/42", timbrado sobre o ferrolho e a letra "K" para indicar o ano de fabricação 1934; em 1935 a letra adotada foi "G".

Em 1936, o sistema de letras para designar o ano de pro-dução foi abandonado, tendo em vista que Hitler já havia denunciado o Tratado de Versailles, retornando-se à data- ção com quatro dígitos sobre a câmara.

Entretanto, o sistema de códigos secretos para o fabrican te permaneceu. A justificativa, mais do que razoável, era a de que, em caso de guerra, havia o perigo de que o inimi-go, através das armas capturadas, soubesse quais fábri-

Oficial da Luftwaffe disparando com sua pistola Luger.
cas as estavam produzindo e, a partir daí, dirigir operações de sabotagem ou bombardeamento das instalaçõ- es.

Um Unteroffizier da Luftwaffe verificando sua Luger.

A partir de 1937, a fábrica Mauser passou a utilizar um método de aca bamento diferente do que vinha sendo utilizado desde o início da fabri- cação da Luger. Chamado de "oxidação à quente" ou "rápida", ele con feria à arma uma tonalidade mais negra, sem as nuances de tom azul presentes na "oxidação à boneca". Além disso, mesmo as partes pe-quenas passaram a ter o mesmo acabamento. Ainda, no lado esquer-do da arma, logo abaixo da manopla de acionamento do ferrolho, tam-bém passou-se a timbrar o termo "P.08".

Por outro lado, a pistola saía de fábrica com um coldre de couro e dois carregadores marcados na base com o mesmo número de série da ar-ma. A base dos carregadores passou a ser, a partir de 1934, de alumí- nio - até então eram de madeira - o que permaneceu até 1941, quando foi introduzida uma nova base, agora de baquelite. Do mesmo modo, as talas da empunhadura permaneceram de madeira até 1940, quando foram introduzidas empunhaduras de plástico, com as bordas lisas. A numeração de série, embora tenha mantido o método de divisão por lo tes de 10.000 armas, acrescentando um sufixo, passou a ser contínu-a, não mais sendo "zerada" a cada ano.


Em meados de 1939 o código secreto da Mauser foi novamente alterado, passando a ser timbrado apenas "42" e mantendo-se a datação da câ- mara através de quatro dígitos. Este código foi mantido até meados de 1941 quando adotou-se o último código conhecido: "byf". Na mesma épo ca, o ano de fabricação passou a ser timbrado com apenas os dois últi-mos dígitos. Os bancos de prova eram marcados no mesmo local que as Lugers da época imperial, principalmente, no lado direito da arma, mas há também marcas de aceitação no ferrolho e cano. Os tipos de bancos de prova - chamados de Waffenamts - variou muito ao longo da produção (tabela 1).

A despeito de sua fama, precisão e qualidades notórias, a Luger possuía algumas limitações para o uso militar, sendo que as principais eram a suscetibilidade à sujeira (areia, barro, neve), que a levava a falhar e em-perrar, e a produção cara e um tanto lenta. Interessante notar que os alemães continuaram a produzir a pistola Luger até novembro de 1942, mesmo após a adoção de uma nova e muito mais moderna arma pesso-al: a Walther P-38, em 1938.

Piloto da Luftwaffe e sua Luger.

Como a P-38 somente passou a ser produzida em larga escala a partir de maio de 1940, a Luger foi a principal pistola da Wehrmacht durante os primeiros anos da II Guerra Mundial. Mesmo depois de finda a produção, a Luger pode ser vista em todas as frentes de batalha em que as tropas de Hitler lutaram, sendo cobiçadas pe-los soldados aliados como preciosos troféus de guerra. Estima-se a produção total da Waffenfabrik Mauser en tre 1934 e 1942, e destinada às Forças Armadas alemãs, em cerca de 906.730 pistolas Luger.

b) Fabricação Krieghoff

Durante toda a década de 1920 e começo dos anos 30, a empresa Krieg-hoff Waffenfabrik, sediada na cidade de Suhl (Alemanha), foi revendedora e distribuidora de pistolas Luger produzidas pela DWM e pela Mauser, a-lém produzir refinadas armas de caça. Nesse período, seu proprietário, Heinrich Krieghoff, tornou-se amigo de um famoso ás da I Guerra Mundial: Hermann Göring.

Com a ascensão de Hitler ao poder, Göring tornou-se não apenas o Minis-tro da Aeronáutica, mas também o "homem nº. 2" do III Reich. À frente de seu ministério, Göring iniciou imediatamente o programa de reconstrução da Luftwaffe - a Força Aérea alemã.

Enquanto isso, em 1934, a fábrica Krieghoff, graças a interferência de Göring, adquiriu o ferramental das pistolas Luger da empresa Simson & Co., que estava sendo liquidada judicialmente, por pertencer a judeus. A-pós adquirir o maquinário, a Krieghoff reformou todo o ferramental, o qual, por sua vez, já havia sido adquirido pela Simson junto ao Arsenal de Erfurt quando do término da I Guerra.


Ainda em 1934, a Krieghoff obteve o contrato para fornecimen-to de pistolas Luger para uma organização espotiva-militar que seria o embrião da Luftwaffe, ainda mantida em segredo. Oficia lizada em março de 1935, quando Hitler denunciou o Tratado de Versailles, a Força Aérea germânica passou a receber ofici-almente as pistolas a ela entregue pela Krieghoff, timbrando seus próprios bancos de prova.

Entre 1935 e 1945 a Krieghoff montou um total de cerca de 13.600 armas, devidamente timbradas com os bancos de pro-va da Luftwaffe (tabela 2). As Lugers produzidas pela Krieghoff são muito valorizadas pelos colecionadores devido ao fato de terem sido as únicas do período nazista oficialmente inspecio-nadas, testadas e aceitas pela Luftwaffe. Vários pilotos a por-taram, embora tendessem a substitui-las por outros modelos mais leves e menores ao longo da guerra - o que era fundamen

Pára-quedistas alemães em Creta portando suas Lugers no bolso frontal de seus macacões de salto, 1941.
tal dado o pequeno tamanho das cabinas dos aviões. Mesmo assim, continuaram populares até os últimos dias do conflito.

Soldado da Luftwaffe treina com sua Luger.

Como o ferramental havia sido reformado, a qualidade destas pistolas era excepcional, sendo produzidas dentro de mínimas tolerâncias e com aço de ótima qualidade. A maior parte da produção deu-se nos a-nos de 1936 (7.400 pistolas), 1937 (2.550) e 1940 (1.100). Nos demais anos (1938 e 1941 a 1945), a produção total foi de apenas 1.150 unida-des. Importante destacar que nenhuma arma foi produzida em 1939.

Curiosamente, ao contrário das pistolas produzidas pela Mauser, aque-las feitas pela Krieghoff, nunca utilizaram qualquer marca ou código se-creto. Consequentemente, todas as Lugers deste fabricante trazem so-bre a porção central do ferrolho o timbre com a logomarca, que era uma âncora, ladeada pelas letras "H" e "K", tendo logo abaixo a inscrição "KRIEGHOFF - SUHL". Por fim, sobre a câmara, era timbrado o ano de fabricação, em quatro dígitos, com exceção de cerca de 4.000 exempla res feitos em 1936, que levavam a letra "S". Outro detalhe típico da Lu-ger Krieghoff é que a numeração de série era contínua e não se utilizava de sufixos e não era reiniciada a cada ano.

Devido a essas várias particularidades, a Luger Krieghoff encontra-se entre as mais raras (e caras) armas do III Reich, de modo que o valor do modelo mais comum deste fabricante tende a ser quatro a cinco vezes mais ca ro que um bom exemplar da Mauser.

c) A Luger "Kü"

Dentre as mais raras variações da P-08 do III Reich, um dos mais procurados e misteriosos modelos foi justamente utilizado pela Luftwaffe a partir de meados da II Guerra Mundial: a chamada Luger "Kü".

Sua curiosa denominação (invenção dos colecionadores do pós-guerra e não um nome oficial) advém do fato de que algumas Lugers possuem as letras "Kü" como um prefixo ou sufixo do número de série estampado na lateral esquerda da câmara, logo acima da alavanca de desmontagem. A maioria das pistolas até hoje localiza das foram produzidas pela Mauser (código byf) em 1941 e trazem a marca de aceitação contendo a águia sobre o número 665 no cano.

O significado do termo "Kü" tem gerado alguma controvér-sia entre os estudiosos mas a teoria mais aceita sugere que se trata de uma abreviação da palavra alemã "Kümme rer", cuja tradução mais apropriada seria "fora de padrão" ou "fora do tamanho".

Importante notar que esse termo pode ser visto em outros equipamentos (inclusive armas) fornecidas para a Luftwa-ffe. Deste modo, existe a presunção de que as Lugers "Kü" foram montadas para a Força Aérea alemã a partir de peças anteriormente rejeitadas pelo controle de qualidade dos inspetores do Waffenamt (Escritório de Armas).

No entanto, ainda pairam dúvidas quanto à data em que essas armas foram montadas e entregues para a Luftwaffe. É razoável supor que foram montadas ainda em 1941 (a data da maioria delas), mas seu acabamento é por demais rústico para o início da guerra, sendo mais admissível algo como 1943 ou mesmo 1944, quando a P-08 não era mais fabricada pela Mauser (o que forçaria o uso de peças outrora recusadas). Outra questão curiosa é a que admite que essas armas foram montadas usando a mão-de-obra escrava do campo de concentração de Neuengamme, de acordo com o livro "Infiltration", de autoria do Ministro dos Armamentos de Hitler, Albert Speer.

Supõe-se que cerca de 5.000 Lugers "Kü" foram montadas entre 1941 e 1944, o que a torna uma das mais raras armas do III Reich.

Dados técnicos
(para os modelos fabricados durante o III Reich)
Fabricantes:Mauser e Krieghoff
Comprimento total:225 mm
Comprimento do cano:100 mm
Calibre:9 mm Luger
Peso (descarregada):880 gramas
Capacidade:8 cartuchos
Cabos:Madeira ou plástico
Miras:fixas

 


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