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Nas décadas seguintes ao final da II
Guerra Mundial, o Generalfeldmarschall
Albert Kesselring foi virtual-mente ignorado pelos historiadores militares.
Ora ofuscado pelas divisões Panzer durante a Blitzkrieg
de 1940, depois eclipsado por Rommel
no Norte da África e, por fim, lutando
uma campanha longa e desgastante na Itália, ele foi sempre deixado em
segundo plano pelos estudiosos.
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Contudo, a partir dos anos 70, sua imagem foi sendo devidamente
resga-tada de tal modo que, atualmente, Kesselring pode ser facilmente
coloca do ao lado dos melhores comandantes de Hitler. Isso porque,
mesmo de modo discreto, ele conduziu sua carreira de maneira brilhante
em três fa-ses: 1) na organização e unificação do Exército alemão
após o fim da I Guerra Mundial, ajudando
a lançar as bases para sua expansão no III Reich, 2) depois como
um dos fundadores da Luftwaffe e líder de uma Fro ta Aérea durante
as bem sucedidas campanhas da Blitzkrieg
e, por fim, 3) como comandante supremo das forças alemãs na Itália,
no desenvol- vimento de uma das mais notáveis campanhas defensivas
da História.
Albert Kesselring nasceu na cidade de Markstelft, Baviera, sul
da Alema-nha, em 13 de novembro de 1885, filho de um professor
e vereador local. Embora sua família não tivesse tradições militares,
ele decidiu ingressar na Academia Militar em 1904. Após a conclusão
de seu treinamento, em 1906, ele foi aceito como Fahnenjunker
no 2º Regimento de Artilharia Le-ve do Exército da Baviera, então
estacionado em Metz, Lorena, parte da França então ocupada pelo
Império Alemão.
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Durante a I Guerra Mundial, com o posto de
Hauptmann, Kesselring passaria um bom
tempo na frente de com bate ocidental - período durante o qual recebeu
as Cruzes
de Ferro de 2ª e 1ª
Classes - até ser transferido pa-ra o Estado-Maior Geral, um claro
sinal de seu potencial incomum. Ele serviria no quartel-general de uma
divi-são e, depois, no 2º Corpo de Exército Bávaro, onde permaneceu
até o Armistício, em novembro de 1918.
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Nos conturbados meses subseqüentes ao fim da
I Guerra Mundial, Kessel ring - então servindo como o comandante
de um regimento na Baviera - pre senciou as várias tentativas
dos comunistas de instaurarem um estado re-volucionário tal como
tinha ocorrido na Rússia. Embora extremamente des-gostoso com
o fato de ter de combater o seu próprio povo, Kesselring acre-ditava
que o comunismo era um mal muito maior, de modo que participou
da repressão aos grupos revolucionários.
Em 1922 Kesselring foi chamado a Berlim para integrar a chamada
Heeres leitung (Direção do Exército), sob comando direto do General
Hans
von Seeckt. À esse departamento cabia organizar e administrar
o reduzido e-xército alemão, limitado pelo Tratado
de Versalhes a uma força de cem mil homens - sem artilharia
pesada, aviões ou armas químicas. Além disso, es tariam sob supervisão
direta de uma Comissão Militar de Controle Aliada.
Sob o comando de von
Seeckt, o Major Kesselring ajudou
a projetar um e-xército composto de "cem mil oficiais". Esse conceito
previa que todos os homens mantidos no Reichswehr deveriam estar
aptos a exercerem o pa pel de líderes (como oficiais e oficiais
subalternos) quando uma expansão
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de sua forçafosse permitida. Foi com von
Seeckt que Kesselring desenvolveria seu estilo de ser cordial e aces
sível, ao mesmo tempo em que não cedia um centímetro de suas posições,
além de se abaster por completo de ingerências políticas ou intrigas pára
promover sua carreira - algo que lhe seria muito útil nos anos seguin-tes.
Foi nessa época que ganhou o apelido de "Albert Risonho".
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No período em que permaneceu no Estado-Maior, Kesselring tinha
co-mo principal responsabilidade criar uma estrutura de pessoal
capacita-do para a aquisição de armas modernas destinadas ao futuro
exército, envolvendo desde as especificações, passando pela pesquisa,
projeto, experimentos de campo, aceitação e, por fim, a elaboração
dos contra-tos de produção e entrega às tropas do equipamento.
Depois, ele seria responsável pela desburocratização militar e
pela introdução de uma cultura que privilegiava a iniciativa individual
dos oficiais. Sua filosofia era a de que "não se pode fazer uma
guerra a partir de gabinetes".
Quando Hitler chegou ao poder, em janeiro de 1933, uma de suas
pri-meiras providências foi iniciar o processo de recriar a Força
Aérea ale-mã, ainda em segredo, nomeando o ex-piloto e ás da I
Guerra Mundial, Hermann Göring para
o Ministério da Aeronáutica. Este, por sua vez, buscou o então
Oberst Kesselring para ajudá-lo.
Caberia a ele direcio-nar o investimento de um generoso orçamento
na construção de esta- ções, quartéis, pistas e bases da Força
Aérea. A fim de ganhar respei to de seus subalternos, Kesselring,
então com quase 50 anos de idade, aprendeu a pilotar, recebendo
seu brevê de piloto ainda em 1933 (duran-
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te a guerra ele freqüentemente pilotava seu próprio avião de ligação,
durante visitas ao front). Em 1935 ele foi promovido a Generalmajor.
O reconhecimento pelo desempenho viria em junho de 1936, quando, após
a morte em um acidente do Gene-ral Walter Wever, ele foi indicado para
o cargo de Chef der Generalstabes der Luftwaffe (Chefe do Estado Maior
da Luftwaffe). Ele permaneceria um ano nessa função, assumindo então o
Distrito Aéreo (Luftkreis) 3, em Dres
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den. Em 1939 tornou-se Comandante em Chefe da Luftflo
tte 1, então sediada no nordeste da Alemanha. Era com essa
unidade que o agora General
der Flieger Kesselring estava quando a II Guerra Mundial começou,
em setem-bro de 1939.
Durante a campanha polonesa, a Luftflotte 1 atuou em su porte
ao Grupo de Exército Norte, sob comando do Gene ral Fedor von
Bock (1880-1945), cujo papel previa uma ar-remetida a partir da
Prússia Oriental em direção à Varsó- via. A estratégia executada
foi brilhante, graças à sober-ba colaboração entre Bock e Kesselring.
Como resultado Kesselring foi condecorado com a Cruz
de Cavaleiro da Cruz de Ferro em 30 de setembro de 1939. Em
12 de ja-neiro de 1940, Albert Kesselring assumiu o comando da
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Luftflotte 2 com a qual, mais uma
vez, atuou em parceria com von Bock durante a Blitzkrieg
contra a Holanda, Bélgica e França, na primavera de 1940.
Sua frota aérea era composta de cinco grupos de aviões de combate, bombardeiros
de mergulho e horizontais e caças, além de unidades de bateria antiaérea
e pára-quedistas, sob as ordens do General Kurt
Student. Mais uma vez, a estratégia foi executada impecavelmente,
garantindo às forças alemãs, a superioridade aérea e apoio onde necessário
resultando na capitulação da Holanda em cinco dias e na antológica tomada
do forte belga de Eben Emael pelos Fallschirmjägers
de Student.
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O resultado foi que, no final de junho de 1940, os aliados haviam
sido varridos da Europa, a França havia se rendi-do e a Inglaterra
estava só para enfrentar Hitler.
Em razão de seu espetacular comando, Kesselring foi promovido
ao posto de Generalfeldmarschall
por Hitler em 19.07.1940. A partir de então caberia a ele comandar
a Luftflotte 2 durante toda
a malfadada Batalha da Ingla-terra.
Para ele o fracasso desse tipo de campanha - quan do coube à Luftwaffe
a tentativa de subjugar pelo ar os in-gleses - repousou unicamente
no fato de Hitler não ter a capacidade de perceber que a força
aérea germânica não fora concebida para esse tipo de operação.
No início de 1941, ele transferiu seu quartel-general para a
Polônia em preparação para invasão
da URSS que efeti
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vamente começou em 22.06.1941. Apoiando, pela terceira vez, o poderoso
Grupo de Exércitos do Centro de von Bock, os aviões de Kesselring destruíram
nada menos que 2.500 aeronaves nos primeiros dias. Em julho, o Grupo de
Exército do Centro havia feito 330.000 prisioneiros, além de ter tomado
2.500 tanques e 1.500 canhões em Minsk e Bialystock. No final de outubro,
eles capturaram o incrível número de 650.000 homens em Vyazma, a 220 km
de Moscou.
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Mas Kesselring não permaneceria muito tempo na URSS. Condecorado
com as Folhas de Carvalho da Cruz de
Cavaleiro em 25.02.1942 (o 72º soldado a receber essa honraria),
ele foi transferido, junto com sua Luft-flotte para o Norte
da África e Mediterrâneo em março daquele ano, tor-nando-se
Comandante Supremo da Wehrmacht naquela região. Lá ele rapidamente
conquistou a confiança e amizade dos italianos (inclusive Mussolini)
com seus modos diplomáticos e amistosos. Já sua relação com o
lendário General der Panzertruppe Erwin
Rommel - a "Raposa do Deserto" - as coisas não foram tão calmas.
A relação tempestuosa entre esses dois grandes generais (Rommel
só aceitava as ordens de Hitler, muitas vezes ignorando Kesselring)
foi fa-tal para os alemães. Em primeiro lugar, Hitler negou-lhe
a chance de to mar a ilha de Malta (o baluarte britânico no Mediterrâneo)
através de um ataque aerotransportado e anfíbio - o que seria
fatal para o Afrika Korps -; em segundo Rommel não lhe deu ouvidos
após suas vitórias sobre os ingleses em maio e junho de 1942,
quando Kesselring alertou-lhe que um avanço maior era perigoso
pois as linhas de suprimento estavam no seu limite. A insistência
de Rommel levou ao colapso da logística ger-
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mânica. De todo modo, em 18 de julho de 1942, Kesselring tornou-se
o 18º soldado da Wehrmacht a receber
de Hitler as Espadas da Cruz de Cavaleiro.
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O Afrika Korps, com uma força de 250.000 homens, ren-deu-se em
12.05.1943. Um preocupado Kesselring come çava a preparar a defesa
da península italiana. Agora livre de Rommel - que havia sido
chamado de volta à Alema-nha em março de 1943 - sua primeira providência
foi evi-tar que outra perda maciça de soldados ocorresse na Si-cília.
Criando um perímetro defensivo fortemente armado em torno do estreito
de Messina, durante seis dias e se-te noites de agosto de 1943
cerca de 80.000 soldados a-lemães e seu valioso equipamento alcançaram
a Itália continental. A inércia dos aliados em nada diminuem o
mérito de Kesselring e sua "pequena Dunquerque alemã"
Mas seria no solo da Itália que Kesselring ganharia sua fama.
Entregando o comando da Luftflotte 2 ao General-feldmarschall
Wolfram von Richthofen, Kesselring
pôde concentrar-se na organização das defesas na península
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italiana. Para se ter uma idéia do que ocorreria nos dois anos seguintes,
quando os americanos desembarca-ram na Itália em setembro de 1943, essa
era a força aliada que mais próxima estava do território alemão, mas,
quando a guerra acabou, em maio de 1945, eram as tropas que mais longe
estavam do III Reich.
A campanha na Itália - que foi agravada pela rendição incondicional das
forças italianas em 09 de setembro de 1943 - foi conduzida inteiramente
pela Wehrmacht e entrou para a História
Militar como uma das mais bem su cedidas campanhas defensivas. Kesselring
construiria uma sucessão de linhas de defesa que sempre iam do Mar Adriático
ao Mediterrâneo, sendo a primeira e mais famosa a linha Gustav, que passava
sobre o Monte Cassino.
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Selvagens batalhas se seguiram por mais de seis meses mas os
alemães não cederam. O fato é que em março de 1944, mesmo após
os desembarques aliados em Anzio e as três Batalhas de Cassino,
Kesselring ainda mantinha a linha Gustav. Contudo, a superioridade
aliada começou a se fazer sentir, fato complicado pelos movimentos
de resistência italianos, e ele finalmente foi obrigado a recuar
no verão de 1944, para a nova linha de defesa, chamada de Linha
Gótica cujo ponto de apoio principal era a cidade de Bolonha.
Nesse ínterim, ele coordenaria magistralmente a evacuação de Roma,
permitindo que essa cidade histórica fosse declarada "cidade aberta"
e preserva da. Por outro lado, o tesouro do Mosteiro
de Monte Cassino (que se-ria destruído
pelos bombardeios Aliados) e várias outras obras de arte foram
entregues por ele ao Vaticano.
Em 19 de julho de 1944, o Generalfeldmarshall Kesselring tornou-se
o 14º soldado a receber os Brilhantes
da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Os combates prosseguiram
violentos no segundo semestre mas, em 23.10.1944, a sorte de "Albert
risonho" quase o abandona: em um violento acidente, seu carro
colidiu com um caminhão rebo-cando um canhão e ele sofreu graves
ferimentos no rosto e na cabe-
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ça que teriam matado um homem menos robusto. Era o fim de sua participação
na Campanha da Itália, pois ele permaneceria em recuperação até março
de 1945.
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Quando retornou à ativa, em março de 1945, agora para assumir
o comando de todo um Grupo de Exército responsável pela defe-sa
do território alemão diante dos aliados ocidentais. Desneces-sário
dizer que era uma tarefa não só desesperada como impos-sível.
Os aliados já haviam cruzado o Reno e contavam com 85 divisões,
enquanto ele dispunha de apenas 51 divisões, muitas reduzidas
a apenas 5.000 homens. Nos derradeiros dias, seu co mando foi
ampliado para abranger as tropas na Itália, Iugoslávia e parte
da frente sudeste, mas seu esforço concentrou-se em per-mitir
que o maior número possível de soldados alemães conse-guisse se
render aos britânicos ou americanos, aos invés dos soviéticos.
Finalmente, em 08 de maio de 1945 a guerra acabou e Kessel-ring
rendeu-se oficialmente ao general americano D. Taylor. Os anos
seguintes não foram dos melhores para Kesselring: ele foi levado
à Itália para ser julgado por "crimes de guerra" por um tri bunal
britânico. O processo resultante - que o condenou à pena de morte
- foi tão absurdamente conduzido que o próprio primeiro
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ministro britânico Winston Churchill interferiu em favor de Kesselring.
Vários apelos - inclusive de antigos inimi-gos e membros do clero italiano
- fez com que a pena fosse comutada para prisão perpétua.
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Durante dois anos como prisioneiro de guerra, oito sema nas aguardando
execução e cinco anos em uma prisão civil, Kesselring conduziu-se
com coragem, dignidade e, na verdade, com a arrogância apropriada
a seu posto.
Citado a comparecer como testemunha no Julgamento de Nuremberg
para prestar depoimento, irritou-se com o tom do promotor de justiça
inglês e declarou: "Sob jura-mento, prestei depoimento como
oficial alemão com mais de 40 anos de serviço e como marechal-de-campo
alemão! Se minhas declarações merecem tão pouco res peito, abstenho-me,
de agora em diante, de fazer qual-quer declaração", o que
provocou um pedido de descul-pas.
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Em 1952, com a saúde debilitada, Kesselring recebeu o indulto e posto
em liberdade, vindo a fixar-se em Nanheim (Alemanha Ocidental). Durante
seus últimos anos de vida, dedicou-se aos seus hobbies (leitura de clássicos
- citava Goethe e lia muito Platão - e colecionava conhaques) e ao seu
livro de memórias ("Memórias de Guerra") e manteve sempre seu jeito
afável porém firme, vivendo em uma casa às margens de um lago. O Generalfeldmarshall
Albert Kesselring faleceu em 16 de julho de 1960, aos 74 anos de idade.
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