Hauptmann I(J)/LG2, JG52 e JG27 388
missões de combate, 158 vitórias (7 na Inglaterra, 154 caças)
Morto em acidente aéreo (30/09/1942)
Marseille foi, entre
outros tantos elogios, assim qualificado pelo General
der JagdfliegerAdolf Galland: "...o mais virtuoso,
jamais igualado, entre os pilotos de caça da Segunda Guerra Mundial. Suas façanhas
eram consideradas inconcebíveis, até então, e ninguém conseguiu superá-las mesmo
depois da sua morte. Sua habilidade de derrubar esquadrilhas inteiras em
uma única surtida é a base de sua legenda, que sustenta seu mito. Marseille é
ainda cultuado pela maioria dos pilotos de caça da Luftwaffe como sendo o melhor
entre os melhores, excelente atirador, piloto acrobático e o qual empregava a
melhor tática; a combinação dessas habilidades deu origem ao mais
letal piloto de caça de sua época".
Os americanos Raymond F. Toliver e Trevor J. Constable - autores
do livro "Fighter Aces of the Luftwaffe" e também participantes
daquele conflito mundial, de posse de registros de ambos os lados
e após entrevistas com os principais entre os numerosos ases da
aviação de caça alemã, obtive-ram uma uniformidade de opiniões sobre
Marseille que o descreviam como um excepcional piloto, dotado de
uma soberba visão tridimensional e de uma habilidade única de atirar.
Sua carreira foi meteórica, entrou para a Luftwaffe aos
dezoito anos e meio e aos vinte e dois já estava morto, deixando
em seu currículo uma série de façanhas inigualáveis.
No último ano de sua vida, não somente foi agracia-do (não
chegou a receber) com a mais alta condecoração militar alemã, os
Diamantes da Cruz de Cavaleiro,
como também se converteu em mais um dos eternos heróis de sua nação.
Passado mais de meio século após sua morte, o tempo não diminuiu
em nada a fama e glória que ele conquistou no deserto do Norte da
África, pe- lo contrario, hoje em dia "A Estrela da África"
brilha mais forte que nunca.
Hans-Joachim "Jochen" Marseille, nasceu em Berlin-Charlottens-burg,
Alemanha, em 13 de dezembro de 1919, no seio de uma fami lia de
militares de ascendencia francesa. Seu pai foi um oficial do exercito
que alcançou o posto de general e lutou em Stalingrado.
O fato de seus pais viverem separados, sem duvida deve ter influen-ciado
na formação de seu caráter. Quando mais jovem, ele se carac
terizou por sua indiferença frente aos ideais conservadores e autoritá
rios, sendo sempre informal e despreocupado com a disciplina e o
protocolo militar.
Contudo, mesmo tendo aversão pelos ideais militares, sua paixão
pelo vôo o conduziu a ingressar na Luftwaffe em 07.11.1938. Em 13.
03.1939 Marseille foi promovido a Fahnenjunker e no inicio do verão
daquele mesmo ano foi transferido para Luftkriegsschule Flirstenfeld-bruck
onde fez seu primeiro vôo solo a bordo de um Focke-Wulf
Fw 44 "Stieglitz".
Em 01.05.1939 foi promovido a Fahnenjunker-Gefreiter, exatamente dois meses
depois, em 01.07.1939 foi pro-movido a Fahnenjunker-Unteroffizier e em 01.11.1939
a Fähnrich, mesmo dia em que foi transferido para a Jagdfliegerschule 5.
Durante seu treinamento militar sobressaiu-se, principalmente, pelas infrações
disciplina-res.
Após concluir o curso de formação de piloto em 10 de agosto de
1940, Marseille foi designado para servir no I(J)/LG 2 (Gruppe
I da (Jagd) Lehrgeschwader
2) durante a Batalha da Inglaterra
onde conseguiu sua primeira vitória em 24.08.1940 diante de um
Hurricane da RAF.
Ao todo, ele alcançou sete vitórias naquele teatro e foi
obrigado a abandonar seu Bf
109E seis vezes. Dentre as principais causas dessas "derrotas"
sempre estava pre-sente a sua indisciplina e o prazer pela caça
solitária, vio lando constantemente a doutrina de combate aéreo.
Contudo, apesar de demonstrar desde o inicio uma habi-lidade natural
para derrubar aviões inimigos, nessa época ninguém podia
imaginar que o jovem Fähnrich
pudesse chegar a ser o que foi um dia.
Ao terminar a Batalha da Inglaterra,
em 24.12.1940 ele seria transferido para o 4./JG52, comandado por Joha-nnes
"Macky" Steinhoff. Nessa época, sua folha de ser viço era um acumulado
de faltas e sanções disciplinares.
Marseille, era bem afeiçoado, boêmio
e mulherengo. Pri-mando pela elegância e irreverência, tornava-se o favorito
das garotas e em muitas ocasiões chegava a faltar aos compromissos militares por
ter "amanhecido em claro".
No entanto, de um certo modo, o comandante Steinhoff
tolerava essas faltas porque considerava que por detrás daquele piloto indisciplinado
havia um ás em potencial.
No dia 21.02.1941 Marseille
foi transferido para Döberitz, próximo a Berlím, onde se encontrava baseado o
3./JG27 sua nova unidade. Em 21.04.1941 ele e seus companheiros de esquadrão foram
enviados ao Norte da África afim de prover
apoio aéreo ao "Africa Korps" de Rommel. Nessa unidade, o jovem berlinense superou-se
como piloto, e fez de seu Messerschmitt Bf 109
(14-amarelo) o maior carrasco dos combates aéreos travados nos céus norte-africanos.
Já nas primeiras missões no novo cenário, desenvolveu e apurou a sua capacidade
de visada de tiro, "shooting eye", despontando para a fama.
Numerosos ases admitiam que, normalmente, esse ponto
de visa-da só se tornava efetivo depois de um longo período de medíocres e frustrantes
desempenhos. Quando pegou o "seu ponto", Marsei-lle tornou-se insuperável na história
do combate aéreo. Considera-do um computador humano, enquanto evoluía no espaço,
ele, num lance visual, era capaz de avaliar a correta visada e determinar o exato
momento do tiro. Dois dias depois de ter desembarcado na África, em 23.04.1941
já conseguia sua primeira vitória no deserto diante de um Hurricane
sobre Tobruk e em 01.06.1941 era promo-vido a Oberfähnrich.
"
Quando Marseille veio para a JG27, ele trouxe uma reputação mili tar muito ruim,
e não era um companheiro simpático. Ele tentou se exibir, e se considerava como
um astro de cinema. Na África, ele fi cou ambicioso, no bom sentido, e mudou completamente
seu cará ter, depois de pouco tempo. Ele possuía um pensamento muito rá- pido
e não era um bom líder nem bom professor, mas os pilotos o adoravam. Eles o agradeciam,
por protege-los e traze-los para ca-sa em segurança. Ele era um cavalheiro, uma
mistura do ar fresco de Berlim e do champanhe francês". Eduard Neumann,
13 vitórias, Kommodore da JG27.
Os que tiveram o privilégio de vê-lo em ação, jamais esqueceram a sua
precisão e os incríveis ângulos a partir dos quais conseguia o acerto letal. Os
mecânicos de armamento, responsáveis pelos remuniciamentos da sua aeronave, constatavam
com freqüência cofres semi-usados apesar dos múltiplos resultados positivos al-cançados
por ele em suas missões.
Os
alemães eram muito meticulosos com relação aos relatórios de combate incluindo
todos os dados relevan-tes como tempo de batalha, área de operação, oposição encontrada,
e o uso dos armamentos. No fim de cada missão, eram contados o número de tiros
disparados du- rante o vôo através das cápsulas utilizadas. Marseille
fre- qüentemente alcançava a espantosa média de 15 balas por vitória obtida
muitas delas resultando na queda do avi ão inimigo (de acordo com estatística
feita pelo Comando de Caça e relatada por um membro do seu Estado-Maior, o Maj
Günther Rall, 275 vitórias). Feito incrível, conside-rando
que sua aeronave não possuía visor giro! Nenhum outro piloto seja ele alemão
ou de qualquer outra naciona lidade se compara a ele neste aspecto!
A medida que passavam os meses, Marseille adquiria e aprimorava cada
vez mais as suas qualidades de piloto de caça. Através da prática constante e
o desejo de ser o melhor de sua unidade, Marseille era um dos poucos pilotos capazes
de dominar completamente seu Bf 109, usufruindo
ao máximo de sua capacidade. Ele praticava suas técnicas sempre que podia, mais
e mais vezes, freqüentemente contra os próprios companhei ros de esquadrão, enquanto
retornavam de uma missão. Sem demora, ele tornou-se capaz de fazer o que pou-cos
ou nenhum piloto conseguia, derrubar vários aviões inimigos em tempo recorde.
Nesses ataques chegava a abater quatro, cinco e até oito aeronaves numa única
surtida. Seus movimentos eram tão rápidos que era comum os pilotos aliados pensarem
que estavam sendo atacados por uma grande formação de caças.
Começou a conquistar vitória atrás de vitória,
para satisfa ção do Ministro da Propaganda alemão, que não perdia a oportunidade
de apresenta-lo nos noticiários de cinema, jornais e revistas.
Assim
ele foi transformado num ídolo, não apenas para seus companheiros de batalha,
mas também para toda a população germânica, que estava sempre a espera das façanhas
do jovem piloto. Marseille tornara-se um "super star", a "Estrela da África"
como era chamado nos jorna- is, que recebia enorme quantidade de correspondência,
em especial de suas admiradoras, as quais compartilha- va com seus companheiros
de esquadrão, que passavam horas lendo e comentando.
Em 21.02.1942 alcança sua 50ª vitória aérea, no dia seguinte
é condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz
de Ferro e promovido a Leutnant. Em 06.06.1942
recebe as Folhas de Carvalho da Cruz de Ferro
(97º a rece-ber esta condecoração) após conquistar sua 75ª vitória,
dois dias depois é nomeado Staffelkapitän
do 3./JG27. Em 17.06.1942 atinge 101 vitórias aéreas (11º piloto a superar
a marca de 100 vitórias, mas o 1º a conquistar exclusivamente contra a RAF), no
dia seguinte é condecorado com as Espadas
da Cruz de Cavaleiro (12º a re ceber esta honraria).
A habilidade de Marseille não tem paralelo na historia da aviação militar.
A simbiose homem-máquina transformava seu Messerschmitt
Bf 109 em um ser único que parecia ter vida própria. Ele se movia com uma
graça e precisão que impedia qualquer tipo de fuga por parte dos adversá-
rios, ou ao menos que pudessem enfrenta-lo em condiçõ- es de igualdade.
Sua velocidade e movimentos, que algumas vezes atin-giam acelerações de
3 ou 4 vezes a da gravidade, subi-tamente eram reduzidos aos limites de sustentação
do avião, utilizando ailerons para manter o aparelho na posi- ção precisa, para
em seguida, com um ligeiro movimento no manete e acelerador, apontar o nariz do
avião para o ponto exato que ele determinava.
A DAF
- Desert Air Force (Força Aérea do Deserto), composta por
unidades da Royal Air Force, Royal Austra-lian
Air Force, e South African Air Force,
utilizavam normalmente a formação defensiva denominada Lufbery Circle, em homenagem
ao piloto de caça norte-americano da I Guerra Mundial que desenvolveu esse tipo
de formação, Raoul Lufbery. Quando encontravam uma formação inimiga superior numericamente
ou em posição de vantagem, os caças da DAF formavam um círculo defensivo,
com as aeronaves próximas umas das outras, de modo a concentrarem o seu poder
de fogo. Em teoria, se um caça alemão tentasse se posicionar atrás de
um caça britânico, o outro caça da DAF que estivesse
atrás do primeiro abriria fogo contra o caça alemão, que havia se introme-tido
no círculo. Mas Marseille não se deu por vencido, e desenvol veu uma tática, que
embora tivesse custado alguns Bf 109s no iní cio de seus combates no deserto,
permitiu que ele quebrasse a-quela formação inglesa e conseguisse abater vários
aviões inimi-gos.
Começando de um ponto a alguns milhares de pés acima do
círcu lo, e afastado lateralmente cerca de uma milha, Marseille mergu- lhava por
baixo da formação e atacava por alí. Escolhia uma vítima que não o havia visto,
alinhava seu avião e descarregava uma cur-ta e mortal rajada de metralhadoras
e canhões, normalmente atin-gindo o motor, o cockpit e quase sempre matando o
piloto. Após o ataque, ele executava um mergulho, e se afastava em seguran- ça,
retornando ao ponto inicial para um novo ataque. Repetindo essa manobra ou suas
variantes varias vezes.
"...Durante os combates sobre os comboios que iam à Tobruk,
os britânicos introduziram o círculo defensivo. Era uma tática muito eficiente,
entretanto Marseille acabou com ela; ele mergulhava por baixo perto do círcu-lo,
e com a velocidade adquirida subia rápido, e quase ao atingir o nível do círculo
ele se colocava atrás de um Tommy, rapidamente
atirava com precisão e mergulhava em direção ao mar, sem que fosse possível perse-guí-lo.
Repetia a manobra até que conseguisse quebrar a formação. Nenhum outro piloto
alemão conseguia ser tão eficiente e repetir o desempenho de Marseille, embora
todos soubessem o que fazer." - Werner Schröer,
114 vitórias, 8./JG27.
Em
1º de setembro de 1942 durante a batalla de Alam El Halfa, Marseille atingiu
o auge de sua carreira derrubando dezessete aviões inimigos em tres missões de
combate. A primeira teve inicio as 7:30, quando o frio da noite começava a ceder,
frente a presença do sol abrasador. Essa primeira missão do día era de escolta
para uma esquadrilha de Stukas que devía realizar
bombardeios ao sul de Imayid. As 7:50 a esquadrilha de Marseille se encontra com
os Stu-kas. Logo depois, Marseille ordenou que subissem a 3.500m para fazer a
cobertura. Subitamente Marseille comunicou pelo rádio que estava atacando.
Alguns segundos depois, seu ala vía Marseille detrás de um caça inimigo. Um disparo
curto e o avião britânico fez um movimiento extranho desabando céu abaixo. Pöttgen
olhou a hora, 8:26 e anotou a posição no mapa. Nem bem terminara de fazer as anotações
quando viu Marseille que girava para a esquerda e atacava outro P-40.
Eram 8:28 e dois kilômetros a leste, caía outro avião da RAF. Enquanto isso, os
Stukas haviam completado sua missão e davam meia volta, porém os caças
restantes se lançaram contra eles. Às 08:35 Marseille atacou novamente
alcançando sua terceira vitória. Nesse momento quando iniciavam a cobertura de
retorno à base, surgiu uma esquadrilla de Spitfires
V. Agora Marseille
e seu ala corríam serio perigo ao enfrentar
os seis caças britânicos, no entanto o jovem piloto sabía muito bem
o que devia fazer. Executou um giro para cima e para trás e se dirigiu como uma
flecha contra o líder inglês. O Spitfire disparava sem tregua e Marseille
virou súbitamente até ficar a frente do resto da esquadrilha britânica, que passou
rugindo a seu lado. Meio giro em 180 graus e estava a menos de 100 metros do último
Spitfire. Duas rajadas curtas e o avião inglês iniciou um mergulho sem volta,
eram 8:39.
Às 9:14 a esquadrilha de Marseille tocava o solo.
Revisão e recarga de armas e combustível. Marseille havia disparado apenas
20 projeteis de canhão e 60 balas de metralhadora. Porem não houve surpresa, essa
era a sua média de tiros por missão. Às 10:20 novamente a esquadrilha estava
no ar para escoltar os Stukas. Não demorou muito tempo quando a vista privilegiada
de Marseille avistou duas formações de 18 bombardeiros inimigos escoltados por
duas esquadrilhas de caças com 25 aviões cada uma. Nessa época, a superioridade
numérica inglesa já era evidente na África. Uma das esquadrilhas de escolta se
lançou contra os Stukas. Marseille e seus companheiros lhes cortaram o caminho.
Os ingleses imediatamente tomaram a formação em círculo. Marseille se enfiou entre
o círculo a toda potência, reduzindo subitamente a velocidade e dando um giro
para esquerda, disparou contra o primeiro caça que encontrou a sua frente, eram
10:55 quando caiu o primeiro P-40, 20 km ao sul de Alam-el-Halfa . Trinta segundos
depois caía o segundo. Os ingleses romperam o círculo e se emparelharam para escapar
rumo a noroeste. Marseille já estava atrás do último avião. Duas rajadas
curtas e caía outro caça britâni co às 10:58. Os ingleses se agruparam
ainda mais, Marseille os seguiu rumo ao Mediterrâneo. Um minuto depois caía
o quarto caça da RAF, mais dois minutos, o quinto P-40 explodia no ar sob
o fogo do jovem berlinense.
O sexto caça foi derrubado as 11:02. O restante da esquadrilha inglesa
voava em formação cerrada e não vi-ram os caças alemães que os seguiam. Marseille
se lançou direto até eles atacando-os com disparos certei-ros, o último que explodiu
no ar, era um P-40. Marseille ordenou que regressassem quando viu outro P-40 que
escapava deixando uma nuvem de fumaça branca. O jovem berlinense não pensou duas
vezes e se lançou como um falcão sobre sua presa. Novamente, um par de rajadas
curtas bastaram para desintegrar mais um caça britânico que se encontrava
aproximadamente a 80 metros de distância. O saldo era impressionante, até
mesmo para os companheiros de Marseille. Haviam sido abatidos oito aviões em apenas
dez minutos: às 10:55; 10:56, 10:58, 10:59, 11:01, 11:02, 11:03 e 11:05.
O
dia não havia terminado. Contudo, depois de um breve descanso, não pode liderar
seu Staffel na missão seguin te por causa de problemas com um dos pneus. Teve
que esperar até as 17:00 para voltar a decolar escoltando um uma esquadrilha de
Ju 88. Logo apareceram quinze P-40 que se lançaram contra os bombardeiros quando
Marsei-lle já estava em curso de colisão com os caças da RAF. Novamente
se formaram em círculo e uma vez mais Jo-chen se metía entre eles rompendo a formação.
A ação durou apenas seis minutos e nesse curto espaço de tem-po Marseille derrubou
cinco aviões ingleses. Os quatro primeiros caíram a intervalos de um minuto
entre eles, das 17:45 às 17:50 e o último às 17:53. A proeza
de ha- ver derrubado 17 aviões em um único dia se cumpria na mesma data em que
foi informado da morte de seu pai.
Dois dias depois, após conquistar sua 126ª vitória,
Marseille foi promovido e condecorado, tornando-se aos 22 anos de idade,
o mais jovem Hauptmann da Luftwaffe
e o quarto homem em toda Wehrmacht
a ser agraciado com a mais alta condecoração militar alemã,
os Diamantes da Cruz de Cavaleiro, porem
nunca os recebeu. Depois desse brilhante início, encerrou o que seria
o último mês de sua vida com um feito dos mais marcan-tes, quando em um
período de nove dias abateu 44 aviões, perfazendo um total de 61 vitórias
naquele mês, incluindo sete caças Curtiss P-40
da RAAF em 15.09.1942, em apenas onze minutos, alcançando suas vitó- rias
de número 145 à 151. Em 26.09.1942, conquista suas últimas sete vitórias,
totalizando 158 confirmadas. Neste mesmo mês, recebeu da Itália
a Medaglia d'oro al Valore Militare (Medalha
em Ouro por Bravura), honraria com a qual, além dele, foi distinguido
só outro piloto alemão (Joachim Müncheberg,
135 vitórias). Até mesmo o Marechal de Campo Erwin Rommel "A
Raposa do Deserto", teve que se contentar com a versão em prata desta
condecoração.
"Todo mundo sabia que ninguém poderia se igualar a ele. Ninguém poderia
fazer o mesmo. Alguns pilotos tentaram isto como Stahlschmidt,
eu, e Rödel. Ele era um artista. Marseille era
um artista ". Usando suas mãos para ilustrar. Nós estávamos
aqui e ele estava bem acima em algum lugar ". Friedrich
Körner, 36 vitórias, 2/JG27.
Algumas
vitórias múltiplas de Marseille
Vitórias
Data
Horarios
88 a 91
15.06.1942
18:01,
18:02, 18:04, 18:06
92
a 95
16.06.1942
18:02, 18:10, 18:11, 18:13
96
a 101
17.06.1942
12:02,
12:03, 12:05, 12:08, 12:09, 12:12
105 a 108
01.09.1942
08:26,
08:28, 08:35, 08:39
109
a 116
01.09.1942
10:55,
10:56, 10:58, 10:59, 11:01, 11:02, 11:03 e 11:05
117 a 121
01.09.1942
17:47,
17:48, 17:49, 17:50, 17:53
127
a 132
03.09.1942
07:20,
07:23, 07:28, 15:08, 15:10, 15:42
137 a 140
05.09.1942
10:48,
10:49, 10:51, 11:00
145
a 151
15.09.1942
16:51,
16:53, 16:54, 16:57, 16:59, 17:01, 17:02
152 a 158
26.09.1942
09:10,
09:13, 09:15, 09:16, 16:56, 16:59, 17:10
Mas o que
fazia de Marseille tão efetivo na frente de batalha onde a maioria dos pilotos
conseguia pouco ou nenhum sucesso? Vários fatores explicam seu sucesso no deserto,
um deles é atribuído a sua extraordinária visão. Existe uma lenda que conta que
Marseille teria olhado para o sol por um longo período de tempo de maneira que
teria aclimatado os seus olhos ao clarão do deserto. A verdade é que Marseille
tinha a habilidade de enxergar o avião inimigo muito antes que qualquer outro
de sua formação. Com a tendência de avistar o inimigo primeiro, ele era então
capaz de posicionar-se convenientemente para atacar suas vitimas que sucum-biam
pela velocidade e surpresa de suas investidas. Reiner Pöttgen (7 vitórias),
seu ala, recorda o quanto era difícil acompanhar Marseille, porque ele arremetia
contra o inimigo quando ninguém havia sequer notado a sua presença.
Marseille também freqüentemente violava um
dos principi os básicos do combate aéreo: de que o combate deve ser feito a toda
potência. Outros alas, que com ele voa-ram, comentavam que, usualmente,
ele reduzia a manete de seu Bf 109 quase até
o fim e que então usava seus flaps ao máximo afim de adquirir a sustentação necessá
ria para fazer curvas mais fechadas e colocar-se em po-sição de ataque por debaixo
do inimigo.
Uma vez ali, podia disparar sob o ventre de seu oponente uma
rajada rápida e mortal, em seguida abria completa-mente o acelerador, recolhia
os flaps e se lançava contra o próximo Tommy.
Sua soberba habilidade como piloto de caça era ofuscada apenas pelo
seu comprometedor comportamento em terra. Dono de um temperamento forte e irreverente
Jochen contrastava dos demais pilotos de sua unidade. No inicio, seus superiores
considerava-o importuno, indisciplinado e prepotente. E o que ainda era pior,
Marsei lle era nos termos nazistas um "decadente". Usava cabelos compridos (para
os padrões da Wehrmacht), gos-tava de
músicas americanas como Jazz e Swing, além de ser muito brincalhão.
"Jochen na realidade era um brincalhão; ele estava sempre inventan
do brincadeiras. Um dia ele veio me visitar com seu jipe Volkswa-gen colorido,
que ele chamava de Otto. Depois da conversa, de uma xícara de café e de um copo
de Doppio Kümmel italiano, ele entrou no seu jipe e dirigiu-o diretamente contra
minha barraca, acabando com tudo. Em seguida, afastou o jipe com um largo sorriso
em sua face" - Werner Schröer.
Seu alojamento
salvo pelas paredes de lona, parecia ter sido trans-portado tal como estava em
Paris. Sofás feitos com sacos de areia forrados com lona, caixas de mantimentos
dispostos como se fos- sem mesas e cadeiras: não havia formalidade. A atmosfera
de bar no alojamento completava-se com a instalação de um "barzinho"
im-provisado. Muito bem provido, para inveja dos que o visitavam. Oficia is alemães
e italianos de altas patentes eram seus hóspedes fre-quentes e se encontravam
lado a lado com os colegas de esquadrão de Marseille. Ter visitado a Jochen havia
se convertido numa espécie de "status" entre os altos
oficiais do eixo.
Durante as últimas semanas, Marseille
começou a mostrar sintomas de esgotamento, stress extremo, devido às exaustivas
missões que o obrigavam a voar, duas a três vezes por dia. Muito distante
estava a Batalha da Inglaterra, quando
os pilotos alemães tinham descanso suficiente entre as missões. Como acontecia
com to-dos os pilotos, após o termino de cada missão, necessitava de mais tempo
para recuperar-se. Ele começou a perder peso e seu rosto já refletia o cansaço.
A
manhã de 30 de setembro de 1942 parecia como muitas outras manhãs de verão no
deserto norte africano, com o clima quente, seco e estável. Para os homens do
I/JG27 a antecipação de outro dia cheio de duros combates estava presente na mente
de todos. O Afrika Korps comandado pelo Marechal de Campo Erwin Rommel estava
em uma posição muito delicada, sendo atacado e talvez tivesse suas linhas rompidas
pelo 8º Exército Britânico sob coman-do de Montgomery, que havia
ganho uma liderança agressiva e estava com moral elevada para um ataque. Os homens
da JG27 estavam não apenas atentos às notícias da derrota de Rommel na Batalha
de Alam el Halfa, acontecida em início de setembro, como também viviam sob o causticante
clima do deserto, a falta de supri-mento, o constante stress do combate aéreo
e a presença constan-te dos ataques dos "comandos" britânicos contra seus aeródromos.
Embora, a situação fosse muito difícil para o Gruppe,
além de terem perdido dois dos mais experientes pilotos da unidade, a moral indivi-dual
estava extremamente alta, pois as demais unidades da área tinham problemas muito
maiores.
O Hauptmann Hans-Joachim Marseille ao se levantar da cama naquela manhã
foi saudado por Mathias, seu criado particular. A tensão do ano e meio de combate
ininterruptos mostrava seus efeitos, na face de um jovem de apenas 22 anos de
idade. Aquela manhã de 30 de setembro parecia ser mais uma daquelas manhãs em
que ele iria sair à caça nos céus egípcios, com mais vitórias e glórias. Mas nesse
dia fatídico, um aciden te transformaria a vida daquele que talvez fosse
se tornar o maior piloto de caça da guerra e herói da nação germânica em uma simples
nota de rodapé no solo do deserto do Norte da África.
Programado para voar
no novo Bf 109G-2 (W.Nr.14256), Jochen foi
chamado mais uma vez para fazer a escol-ta dos lentos e obsoletos Ju
87 Stuka que atacariam objetivos no Egito. Às 10:47, Hans-Joachim Marseille
decolou para a que seria sua última missão. Depois de completada, Marseille e
sua unidade foram novamente orientados para interceptar uma esquadrilha inimiga
localizada ao sul de Imayid, Egito. No entanto, nenhum contato com as aeronaves
inimigas foi estabelecido e o esquadrão de Bf 109s tomou o rumo de casa.
Às
11:35, Marseille avisa que tem fumaça entrando em seu cockpit e começa a dificultar
sua visibilidade e respiração. Os demais membros da esquadrilha insistem para
que Jochen permaneça em seu avião pelo menos por mais alguns minutos pois ainda
estavam sobre o território inimigo. Por volta de 11:39, a fumaça no
interior
do cockpit esta agora insuportável e Marseille é forçado a aban-donar o
"14-Amarelo". Sua última transmissão pelo rádio foi: "Eu tenho que sair
agora. Não posso suportar mais". Nesse momento já estava sobre o território
do Afrika Korps a aproximadamente 3.050 metros de altitude. Marseille então manobra
seu Bf 109 a fim de preparar-se para abandona-lo. Mas sofrendo provavelmente de
uma desorientação espa-cial, possivelmente por estar intoxicado pela fumaça, que
também obstruía a visão no interior do cockpit, o avião entra num mergulho invertido
com ângulo aproximado de 70º a 80º e com velocidade de ~205 m/s. Marseille
então salta de seu Bf 109 avariado. Lamentavelmente, batendo o lado esquerdo
de seu peito na cauda do avião, matando-o instantaneamente ou incapacitando-o
de qualquer tentativa de abrir seu pára-quedas. Os demais membros do esquadrão
observam horrorizados o corpo de Jochen cair ~9 Km ao sul de Sidi Abdel Rahman,
Egito. Um final injusto para o maior ás do Norte da África (talvez de toda a Segunda
Grande Guerra) e um presságio ruim do que iria acontecer a Luftwaffe e consequentemente
a todo III Reich. No local
do acidente (30°53'26.76"N 28°41'42.89"E), encontra-se hoje um pequeno
monumento em forma de pirâmide construído em sua homenagem,
na
lápide, em alemão, italiano e árabe está escrito: "Aqui jaz o Cap. Hans-Joachim
Marseille. Tombou INVICTO, em 30 de setembro de 1942."
Marseille foi enterrado com todas as honras militares, no cemitério
mili tar em Derna, Egito. Seus colegas de esquadrão ficaram tão abatidos com sua
morte que o I Gruppe inteiro foi afastado das operações de com bate por quase
um mês. Algum tempo depois, o emblema do I/JG27 foi alterado, recebendo uma borda
cinza escuro com os seguintes dizeres "Staffel Marseille" (Esquadrão de Marseille).
Tendo
participado de mais de 388 missões de combate, obteve um total de 158 vitórias
confirmadas (das quais 154 delas foram contra caças!), sendo 151 conquistadas
no período de apenas 18 meses em que esteve no deserto, lutando contra os pilotos
da DAF. Nenhum outro piloto conse guiu tantas vitórias na frente ocidental quanto
Marseille. No total foram 101 Curtiss P-40, 30 Hawker
Hurricane, 16 Supermarine Spitfire e 4 bom bardeiros
bimotores, a grande maioria delas diante dos bem treinados e equipados pilotos
da RAF. Marseille ocupa a 27ª posição no "ranking" germânico
de vitórias aéreas. No entanto, com o mais elevado respeito a que fazem jus os
ases alemães que o precedem, ele os excedeu a to-dos por ter alcançado
o maior número de vitórias contra aeronaves britâni cas do que qualquer outro
piloto de caça.
Cronologia
13.12.1919 - Nasce
em Berlin-Charlottensburg 07.11.1939 - Entra para a Luftwaffe 10.08.1940 - Designado para o I(J)/LG2 como Fähnrich 24.08.1940
- Alcança sua primeira vitória aérea sobre o Canal. Set/1940
- Condecorado com a Cruz de Ferro de 2ª classe depois de sua 2ª vitória
Outono/1940 - Condecorado com a Cruz de Ferro de 1ª classe depois
de sua 4ª vitória
24.12.1940 - Transferido para o 4/JG52 depois de conquistar sete
vitórias sobre o Canal. 21.02.1941 - Transferido para o 3/JG27 21.04.1941 - Chega ao Norte da África 23.04.1941 - Derruba
um Hurricane, sua primeira vitória na África. 01.06.1941
- Promovido a Oberfähnrich 01.12.1941 - Condecorado com a Cruz Alemã
em Ouro (1º piloto na África a receber esta honraria) 21.02.1942
- 50ª vitória aérea 22.02.1942 - Recebe a Cruz de
Cavaleiro, é promovido a Leutnant. 01.05.1942 - Promovido a
Oberleutnant 06.06.1942 - Recebe as Folhas de Carvalho (97º a
receber esta condecoração) depois de 75 vitórias. 08.06.1942
- Nomeado Staffelkapitän do 3/JG27 17.06.1942 - Abate mais 7 aviões
e atinge 101 vitórias (11º piloto a superar a marca de 100 vitórias,
mas o 1º a
conquistar 100 vitórias exclusivamente contra a RAF) 18.06.1942
- Condecorado com as Espadas da Cruz de Cavaleiro (12º a receber esta honraria) 06.08.1942 - Condecorado com a Medalha Italiana em Ouro por Bravura (a
mais alta condecoração italiana por bravura) 01.09.1942 - Abate 17 caças num único dia, mais um recorde
contra a RAF. 03.09.1942 - Recebe os Diamantes depois de conquistar
sua 126ª vitória (4º a receber esta condecoração) 16.09.1942 - Promovido a Hauptmann (o mais jovem da Luftwaffe) 26.09.1942
- Conquista suas últimas sete vitórias, totalizando 158 vitórias
aéreas. 30.09.1942 - Marseille morre as 11:36 am, 7 Km ao sul
de Sidi Abd el Rahman. 01.10.1942 - Enterrado no Cemitério dos
heróis de guerra em Derna/Egito.