Oberstleutnant JG52, JGr.50 e JG11 830 missões
de combate, 212 vitórias (6 quadrimotores) Prisioneiro de Guerra (17/05/1945)
Depois da guerra, Sepp Herberger, o lendário
treinador da Seleção de Futebol Alemã campeã do Mundial de 1954, ajudou
seu amigo Hermann Graf: ele conseguiu para o Oberst
aposentado um cargo na indústria de solda elétrica. Herberger retribuiu,
assim, os muitos favores feitos para ele durante a II Guerra Mundial pelo
al-tamente condecorado soldado e apaixonado por futebol. Isto porque,
durante a guerra, Graf havia montado um time com os maiores nomes do futebol
alemão de sua época e que encontravam-se em serviço na Luftwaffe: Fritz
Walter (capitão da equipe campeã da Copa do Mundo de 1954), Franz Hahnreiter,
Alfons Moog, Fritz Hack e muitos outros jogaram pelos "Die Roten Jäger"
de Graf. Mais ainda, o Oberst Graf, sempre que possível, lhes permitia
participar dos jogos decisivos dos campeonatos nacionais em plena guerra.
O General der JadfliegerAdolf
Galland, sabendo deste fa-natismo de Graf pelo esporte, sempre que questionado
por outros oficiais, dizia: "Eu sei que ele anda por todo lado com todo um time
de futebol". Certa vez, a Federação Ale-mã de Educação Física, enviou uma carta
para o Reichs-marschallGöring
solicitando que Graf fosse proibido de jo-gar (uma vez que ele defendia a profissionalização
do es-porte), ao que o Comandante Supremo da Luftwaffe respon deu, ironicamente:
"Se Graf gosta de jogar futebol, então, deixem-no jogar!!".
Graf não apenas
jogava futebol - ele foi um dos mais pro-missores goleiros alemães na sua juventude
- mas tam-bém voava e combatia muito bem. Ele foi o último coman-dante da Jagdgeschwader
52 (JG 52), a mais bem sucedi-
da unidade de caças da Luftwaffe,
que abateu quase 11.000 aviões inimigos até o fim do conflito. Ele também foi
o primeiro piloto no mundo a atingir a marca de 200 vitórias aéreas, tendo sido
condecorado com a Cruz de Cavaleiro com Folhas de
Carvalho, Espadas e Diamantes em 16 de setembro de 1942. Ao final da guerra,
Graf tinha voado em 830 missões e alcançado 212 vitórias confirmadas (além de
outras 40 não confirmadas).
Nascido em Egen im Hegau em 12 de Outubro
de 1912, ele fez seu primeiro vôo de planador aos 12 anos de idade. Em 1936 juntou-se
à Wehrmacht, sendo enviado para a escola
de pilotos de Karlsruhe. Após completar o curso foi mantido na Reserva e somente
em 1939 - após concluir um curso de aspirante à oficial - é que seria readmitido
na Luftwaffe.
Em 31 de julho de 1939 Graf juntou-se a um esquadrão
de caças em Aibling. Contudo, o início de sua carreira foi desanimador: ele voou
21 missões durante a Campanha da França
sem disparar um único tiro. Somente durante a Campanha
da Rússia (mais de 18 meses depois) é que Graf derrubaria seu primeiro inimigo,
voando pelo 9º Staffel da JG 52 (9./JG 52)
- o lendário Karayastaffel. Isto foi em 04 de agosto de 1941, próximo à cidade
de Kiev (Ucrânia).
O Karayastaffel (cujo símbolo era um pequeno coração
a-tingido por uma flecha) viria a se tornar o mais bem suce-dido Jagdstaffel
de toda a guerra, ao mesmo tempo que seus homens tornaram-se igualmente notórios
por sua falta de disciplina militar. Além do próprio Graf, o 9./JG 52 era famoso
por outros três pilotos: Alfred Grislawski, Ernst
Süss e Heinrich Füllgrabe. Dentro deste quarteto, Graf e Grislawski eram
os mais próximos, enquanto Füllgrabe e Süss eram inseparáveis.
As peripécias do grupo são notáveis. Uma vez quase enlouqueceram um general
que estava fazendo uma visita à base do III./JG 52, enquanto em outra ocasião
um deles literalmente seqüestrou o Fieseler Storch
do Generaloberst von Richthofen, para
levar um colega ferido ao hospital de campo.
Após seu debut, o número de
abates de Graf passou a subir rapidamente: ele receberia a Cruz
de Cavaleiro em 24 de janeiro de 1942, após derrubar seu 45º adversário e,
em 17 de maio do mesmo ano ele se dirigiria ao Quartel General de Hitler para
receber as Folhas de Carvalho, após abater seu
105º avião inimigo. Por sua vez, Graf nunca escondeu o fato de que boa parte de
seu sucesso se deu ao empenho de outro jovem piloto e que se tornaria um dos mais
promissores ases da Luftwaffe: o austríaco Leopold Steinbatz.
Apenas dois dias depois, em 19 de maio de 1942, Graf receberia as Espadas
da sua Cruz de Cavaleiro. Mesmo após a morte de seu fiel "Katschmarek",
Steinbatz, em 15.06.1942, nada pode impedi-lo de prosseguir acumulando vitória
sobre vitória contra os soviéticos.
Por fim, em 16 de setembro de 1942, após atingir sua
172ª vitória, Her-mann Graf se tornou o 5º soldado alemão a ser condecorado com
a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas
e Diamantes. Em 23 de setembro, ele obteve 10 vitórias contra os soviéticos
em uma sé- rie combates naquele dia.
Em 26 de setembro de 1942,
ele se tornou o primeiro piloto da história a atingir a marca de 200 vitórias confirmadas. Entretanto, no mesmo dia chegava a ordem do Oberkommando der Luftwaffe (OKL)
que o proibia de voar em combate. Foi lhe dado um posto burocrático em terra:
o comando das Unidades de Caças do Oeste, baseado na França. Contudo, após alguns
meses, a situação da Alemanha se agravou desesperadoramente e Graf foi designado
para criar o Jagdgruppe 50 (JGr.50), unidade
que se destinou, durante o verão de 1943, a encontrar e destruir todo De
Havilland Mosquito da RAF que pudesse ser localizado, avião que estava se
tornando um tremendo incômodo para a Luftwaffe.
Göring
permitiu que Graf escolhesse ao seu bel-prazer os pilotos para integrar este Gruppe.
Hermann Graf não apenas escolheu seus velhos amigos Grislawski,
Süss e Füllgrabe, mas também toda a Seleção Ale-
mã de Futebol - com os quais formou o acima mencionado time Rotten Jägers
(Os Caçadores Vermelhos). A cor escolhida causou certo transtorno, já que um oficial
do Ministério da Propaganda acusou Graf de estar fazendo propaganda comunista!
Entretanto, devido ao pouco sucesso que teve a iniciativa do JGr.50, o grupo foi
logo dispersado.
Graf seria, no outono de 1943, indicado para atuar como Geschwader-kommodore
da JG 1 - para onde levou os colegas do Karayastaffel e o seu time de futebol
- mas ali permaneceu por curto período pois, pouco depois, ele assumiu o comando
da JG 11, unidade que foi criada a partir da JG 1 especificamente para atuar na
Defesa do Reich, contra as gigan tescas
formações de bombardeiros aliados e sua escolta de caças P-51
Mustang e P-47 Thunderbolt. Localizado em Rotemburg
(próximo a Bre men), a JG 11 se revelaria uma das mais bem sucedidos Geschwaders
a operar contra os quadrimotores aliados. E, mesmo atuando como seu Kommodore,
Graf ainda encontraria tempo para se dedicar ao futebol.
Em certa ocasião
Graf se machucou durante uma partida no campo improvisado na base de Wiesbaden,
que o deixou mancando. Sem ter tido tempo para se recuperar, ele recebeu relatórios
de que uma formação de bombardeiros aliados se aproximava de Schweinfurt e, com
muito esforço conseguiu subir em seu Bf 109.
No combate acirrado que se seguiu, ele conseguiu danificar seriamente dois quadrimotores,
que foram forçados a sair da formação.
Entretanto, o
motor de seu avião foi danificado pelo fogo defensivo de um dos aviões e ele foi
obrigado a fazer um pouso forçado em uma plantação de tabaco. Retirado do avião
com a ajuda dos fazendeiros, Graf saiu mancando - como era de se esperar. Os fazendeiros
correram em seu auxílio e perguntaram ao condecorado oficial se estava ferido
ao que ouviram incrédulos a resposta sorridente: "Não. Este machucado é de uma
partida de futebol!". Enquanto isso, viram o piloto sair saltitando em uma das
pernas...
Mas nem tudo era fácil à esta altura da
guerra. Em 20 de dezembro de 1943, tombou o primeiro dos membros do Karayastaffel:
Ernst Süss, ás de 68 vitórias e detentor da Cruz
de Cavaleiro, foi morto por Mustangs da USAAF, enquanto
saltava de pára-quedas de seu avião. Ele estava voando sob o comando de Graf na
JG 11.
Em 29 de março de 1944, Graf novamente danificou outros dois Boeing
B-17´s e, em seguida, engajou-se em um violento dogfight contra os caças de
escolta. Enquanto seus homens atacavam selvagemente a formação aliada, Graf foi
separado de sua unidade e passou a ser perseguido por quatro caças Mustangs.
Envolto por inúmeros projéteis e explosões, Graf pen-
sou que desta vez sua hora chegara. Sua munição estava esgotada e seu
combustível era suficiente apenas para retornar à base, mas os seus adversários
não o deixavam em paz.
Em um gesto que caracteriza muito bem sua personalidade,
Graf voltou-se contra um de seus adversários e avançou a toda velocidade para
chocar-se contra ele, partindo-o ao meio. O avião americano despencou em direção
ao solo, assim como o avião alemão, que caía em espiral. Ainda mais enervados
com a atitude daquele piloto alemão, os demais caças americanos continuaram
a perseguí-lo, tentando desfechar o golpe final.
Para Graf somente havia uma alternativa: saltar! Seu avião já havia perdido
uma grande altitude e seu pára-quedas abriu a apenas 150 metros do solo. Felizmente,
o impacto foi relativamente suave e foi amortecido pelo fato de se tratar de uma
área pantanosa. Mesmo assim, ele estava gravemente ferido e foi hospitalizado.
Somente a habilida de do cirurgião que o atendeu evitou que seu braço esquer do
fosse amputado.
Se ainda não bastasse, outro golpe atingiria Graf. Heinrich
Füllgrabe foi morto em combate em 30.01.1945, ao ter seu avião atingido pela
bateria antiaérea soviética, quando havia retornado à JG 52 e contabilizava
67 vitórias. Dos quatro amigos, somente Grislawski
sobreviveria à guerra e escaparia ao cativeiro soviético.
Após
sua recuperação, Hermann Graf foi designado para o comando da JG 52. Nesta fase
final da guerra, a JG 52 lutaria nos céus da Silésia e Checoslováquia, em suporte
às tropas do Generalfeldmarschall Ferdinand Schörner (ganhador dos Diamantes
da Cruz de Cavaleiro), sendo que a última vitória (não confirmada) de Graf foi no Domingo de
Páscoa de 1945. No dia da rendição, em 08 de maio de 1945, a JG 52 estava sediada
em Deutsch-Brod; Graf e o seu KommandeurErich Hartmann receberam ordens de entregarem-se aos
ingleses em Dortmund.
Mas ambos recusaram, alegando que havia mais de 2000
civis que encontravam-se sob sua proteção e que eles não poderiam abandoná-los
aos soviéticos - notórios por sua crueldade. Tendo conhecimento de que havia tropas
ameri canas em Pisek, há apenas 100 km de distância, Graf, Hartmann e aqueles
sob seus cuidados rumaram para lá - após incendiarem suas aeronaves -, rendendo-se
para a 90ª Divisão de Infantaria dos EUA.
Contudo, em 17.05.1945, para
desespero de Graf e seus homens, os americanos entregaram toda a JG 52 para os
soviéticos. Seu cativeiro duraria 5 anos, tendo sido julgado por vários "crimes
de guerra" pelos seus captores. No en-tanto, mesmo eles tiveram que absolvê-lo
diante da incon-sistência de suas alegações.
A relativamente rápida liberação de Graf do seu cativeiro (a maioria dos prisioneiros
somente foi solta em 1955), fez com que surgissem várias acu-sações de que ele
havia colaborado com os soviéticos durante sua prisão. Graf negaria essas acusações
por toda sua vida e nenhuma prova cabal de que isso ocorreu jamais surgiu.
Mesmo
assim, ele nunca retornaria à nova Luftwaffe nos anos que se se-guiram à guerra
e, por muito tempo foi visto com desconfiança por seus antigos companheiros.
Atuando
na iniciativa privada e abatido por doenças - decorrentes do trata-mento "especial"
dado pelos russos - Graf recusou receber a pensão ofe-recida pelo governo alemão
até completar 65 anos. Sua única ajuda viria dos antigos jogadores de futebol
que sempre lembraram do ótimo goleiro apaixonado pelo esporte que, outrora, evitou
que morressem inutilmente.
Somente em seus últimos anos,
alguns dos antigos pilotos buscaram uma reconciliação, mas agora faria pouca diferença.
O Oberst Hermann Graf, sem dúvida um dos mais destemidos pilotos da II Guerra
Mundial, tendo voado 830 missões e sido vitorioso em 212 combates aéreos, faleceu
na antiga Alemanha Ocidental em 04 de novembro de 1988, aos 76 anos de idade.