Oberst ZG76, JG3 e JG77
340 missões de combate, 150 vitórias Prisioneiro de guerra
De todos os ganhadores
da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas
de Carvalho, Espadas e Diamantes, nenhum foi tão controverso quanto Gordon
Gollob. O primeiro ás da História a atingir a marca de 150 vitórias confirmadas
foi um homem de uma indubitável habilidade no combate aéreo mas também
uma pessoa que possuía poucas afinidades com seus subordinados, além de ser conhecido
por ter uma natureza ambiciosa e uma proximidade perigosa com o regime de Adolf
Hitler.
Gordon Mc Gollob nasceu em Graz, Áustria em 16 de Junho de
1912. Seus pais tiveram que soletrar o seu nome para o Oficial do Registro Civil,
já que era absolutamente incomum - na verdade uma homenagem a um amigo, um estudante
americano chamado Gordon Mallet McCouch!!! Durante a guerra Gollob, atendendo
a um pedido de Göring - que achava o seu nome "pouco
germânico" - encurtou-o para Gordon M.
Desde jovem, Gollob pretendia ser
engenheiro e piloto e em 1930 já havia construído seu primeiro planador, com o
apoio de sua avó e, no ano se-guinte, já estava fazendo vôos regulares a partir
do velho aeroporto próximo a Innsbruck. Ele rapidamente ganhou seus brevês de
piloto de planadores A e B e se tornou instrutor de vôo, bem como construtor e
inspetor de estru-turas. Por essa época ele estudou engenharia mecânica por quatro
semes-tres no Colégio Técnico de Graz.
Gollob juntou-se ao Exército Nacional
Austríaco a princípio servindo na Arti-lharia, sendo logo transferido para a Academia
Militar Theresiana em Wiener Neustadt, cuja reputação era excepcional como formadora
de oficiais. Lá, Gollob passou três anos e, a partir de 1936, já como Leutnant,
tornou-se ins trutor de vôo para novos pilotos na Força Aérea Austríaca. Com a
anexação
da Áustria pelos alemães em março de 1938, Gollob foi incorporado à Luftwaffe,
sendo designado para o 3./ZG 76 (3º Staffel da Zerstörergeschwader
76 - unidade de caças pesados bimotores Bf 110),
sendo promovido a Oberleutnant em 01.06.1938.
A guerra chegou rápido: em 1º de setembro de 1939 as forças alemãs invadiram
a Polônia. A manhã do dia 05 de setembro estava clara e Gollob já estava retornando
de mais uma missão. De repente ele avistou uma pequena silhueta abaixo dele, identificando-o
como um biplano polonês PWS56. Gollob mergulhou sobre sua pequena, mas manobrável
presa que somente seria abatida após uma perseguição a baixa altitude. No dia
seguinte, por ter atacado um aeródromo inimigo e destruído vários aviões em solo,
Gollob foi condecorado com a Cruz de Ferro de 2ª
classe.
Sua segunda vitória viria apenas em 18 de dezembro de 1939.
A Polônia já havia caído e a Geschwader
de Gollob foi transferida para Jever (Alemanha) para defender a costa alemã de
ataques de bombardeiros da RAF. Neste dia uma formação de bombardeiros Wellingtons
aproximou-se da Baía Alemã e foram rapidamente interceptados por uma Schwarm
de Bf 110s, liderados por Gollob. Ele posicionou-se
atrás de um dos bombardeiros e atirou com seus canhões. Segundos mais tarde o
bombardeiro incendiou-se e caiu no mar.
Ele continuaria
sua carreira voando como Staffelführer
na ocupação da Noruega, sobre Narvik, e Newcastle, sobre Shetland e Trondheim
- sempre sendo bem sucedido e sendo condecorado com a Cruz
de Ferro de 1ª Classe. Contudo, Gollob queria ser piloto dos modernos caças
monopostos da Luftwaffe. Ele atingiu seu obje-tivo ao ser transferido para a JG 3
"Udet", ainda durante as Batalhas sobre o Canal da Mancha, pilotando um Bf
109E.
Quando iniciou-se a invasão
da URSS em 22 de junho de 1941, Gordon M. Gollob já era um Hauptmann
e Gruppen kommandeur do II./JG 3
(Gruppe II da Jagdgeschwader
3) e seria sobre as estepes russas que ele finalmente entraria para a História.
Sua pontaria invejável logo se tornou lenda na Frente Leste e, a despeito de abater
sempre um grande número de aviões, seu avião sempre voltava repleto de munição.
Isto porque Gollob costumava atirar sempre a uma distância muito próxima de seu
alvo, abatendo o avião adversário com menos de vinte disparos de seu canhão de
20mm. Logo, geralmente seu combus-tível acabava antes de sua munição e, certa
vez, após ter abatido cinco inimigos em uma missão ele retornou para sua base
com projéteis suficientes para outros três abates.
Como conseqüência, Gollob foi rapidamente reconhecido pelo Alto
Comando da Luftwaffe: em 24 de julho de 1941 ele foi condecorado com o seu
Troféu de Honra pela sua 17ª vitória e, seis
semanas mais tarde, e em 18 de setembro de 1941 ele foi condecorado com a sua
Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. As vitórias
sucediam-se rapidamente em razão de ainda estarem enfrentando um inimigo frágil
e mal treinado e, em 18 de outubro daquele ano, Gollob abateu nove caças soviéticos
e, três dias mais tarde, outros três adversários tombariam sob o fogo de suas
armas. Finalmente, em 26 de outubro de 1941, Gordon Gollob se tornou o 38º soldado
a ser condecorado por Hitler com as Folhas de Carvalho
da Cruz de Cavaleiro.
Após
seu sucesso na Frente Russa, uma transferência para a Alemanha era iminente. Nesse
momento, Gollob foi transferido para Rechlin (Alemanha), onde ficava o centro
de desenvolvimento de aeronaves da Luftwaffe. Lá ele descreveu detalhados relatórios
sobre os Bf 109F-4 e os Fw
190A-2. Somente no início de maio de 1942 é que Gollob retornaria à frente
de combate, agora como Geschwaderkommodore
da JG 77, passando a voar suas missões a partir da Criméia. Lá ele se envolveria
em uma "corrida de ases" contra outro piloto igualmente notório: Heinz
"Pritzl" Bär.
Homens de personalidades diametralmente
opostas, Gollob e Bär praticamente dominaram os céus na região de Kerch - Taman.
Em 17 de maio de 1942 Gollob derrubou três bombardeiros leves R-5. Ele ainda abateria
um caça LaGG-3, pilotado pelo Sargento N. K. Chayka, que
reportou como sua 93ª vitória. Não se importando muito com a guerra em geral,
Gollob se mostraria um competidor extremamente cínico. Poucos podiam se gabar
de serem próximos deste líder, sendo Adolf Dickfeld
uma das raras exceções.
Embora Bär sempre tenha se mantido à frente, Gollob nunca
desistia, procurando escolher alvos fáceis e, ao contrário da tática padrão de
atacar vindo de cima, Gollob preferia uma aproximação furtiva vindo de baixo,
para ter a certeza de que ninguém o atacaria por trás. Em 18 de maio outros três
obsoletos bombardeiros R-5 foram abatidos por Gollob que, agora, atingia a marca
de 96 abates. No dia seguinte, tanto Bär quanto Gollob estavam em ação, mas foi
o primeiro que conseguiu atingir a marca mágica das 100 vitórias, a despeito do
austríaco ter derrubado outros três bombardeiros.
Finalmente, em 20 de
maio, Gollob tornou-se o 10º piloto a conseguir derrubar 100 aviões em combates
aéreos quando abateu um Il-2 Shturmovik. Mas, com a transferência
de Heinz Bär para o Mediter-râneo, algumas semanas mais tarde,
a "corrida de ases" estava encerrada. Em 23 de junho de 1942, após abater seu 107º
inimigo, Gordon Gollob foi novamente condecorado pelo Führer, tornando-se o 13º
homem a ser agraciado com as Espadas de sua Cruz
de Cavaleiro e promovido à Major. Altamente
condecorado, ele também se orgulharia de nunca ter perdido um ala sequer em combate.
Livre de Bär, o Major Gollob atuaria furiosamente nos meses seguintes,
alcançando sua 120ª vitória em 14 de agosto. Finalmente, em 29 de agosto de 1942,
o jovem piloto de apenas 31 anos torna-se o primeiro piloto do mundo a atingir
a marca de 150 vitórias aéreas. Em reconhecimento a este feito histórico, no dia seginte ele
foi condecorado por Adolf Hitler com a Cruz de Cavaleiro
Com Folhas de Carvalho Espadas e Diamantes, sendo o 3º soldado em toda Wehrmacht
a receber tal honraria. Contudo, seguindo-se à condecoração veio a ordem que proibiu-o
de voar em combate. No entendimento do OKW,
a perda de um ás tão importante, seria uma perda terrível para o povo alemão!!!
Em outubro de 1942, Gollob foi indicado para o Stab
do Jagdflieger-führer (Jafü)
3 na Costa do Canal e em setembro de 1943 seria desig nado ele mesmo Jafü 5, quando
perturbava seus superiores com pedi dos constantes de novas e melhores aeronaves.
Esteve muito envolvi do (e foi um dos entusiastas) de aeronaves revolucionárias
como o Me 262, o Me
163 Komet (tendo até mesmo pilotado um desses ins-táveis aviões-foguetes)
e o He 162 Volksjäger.
Transferido novamente
para trabalhar no Staff do General
der Jagd-fliegerAdolf Galland, em 1944, as personalidades
de ambos logo os colocaram em confronto direto. Em 18 de setembro daquele ano,
Galland o exoneraria de suas funções, sob a alegação de incompe-tência. Por sua
vez, Gollob retrucaria, com acusações ao Alto Co-mando
a respeito da vida privada de Galland - um famoso bon vivant - alegando que gostava
de romances (o que não era mentira) e usava carros da Luftwaffe em seus encontros.
É óbvio, portanto, que, após Galland
ser exonerado por Göring de suas funções de GeneralderJagdflieger,
em janeiro de 1945, a sua escolha lógica foi o já Oberst
Gordon Gollob. Mas ele pouco podia fazer: os céus da Europa já pertenciam aos
Aliados. No entanto, mesmo ele encontraria um Göring impossível de se trabalhar,
pedindo sua exoneração em 07 de abril de 1945. Nunca recebeu uma resposta.
Gollob abandonaria Berlim - já ameaçada pelos
soviético, em 10 de abril de 1945, dirigindo-se para o sul. Dois dias mais tarde,
ele foi submetido a uma operação no Hospi-tal de Ingls (Áustria), devido a problemas
estomacais. Em 24 de abril ele foi transferido para o Hospital Militar de Kitzbühel,
sendo que dias depois ele receberia a com panhia do último Chefe Supremo da Luftwaffe:
General-feldmarschallRobert
Ritter von Greim (1892-1945). Greim havia estado com Hitler em Berlim dias
antes, conduzido pela aviadora Hanna
Reitsch, na tentativa de resgatar o Führer da capital sitiada; ao vê-lo, Hitler
nomeou-o Chefe da Força Aérea, sob o argumento de que Göring
o havia traído. Ferido na viagem de volta, Greim ficaria no mesmo quarto de Gollob
e manifestou a este sua intenção de se
matar ao invés de cair prisioneiro. Todas as tentativas de Gollob em dissuadi-lo
desta idéia foram em vão.
Algumas semanas depois, Kitzbühel foi ocupada
pelos americanos. Gollob apresentou-se em uniforme completo ao General Americano
Dahlquist que o tratou de modo respeitoso. No entanto, com a partida deste oficial
e a chegada de novas tropas, Gollob foi finalmente posto na prisão em 01 de junho
de 1945, tornando-se prisioneiro nº 318/45 da cela 8 da cadeia do Tribunal da
Corte de Kitzbühel, somente sendo solto após um ano em cativeiro.
Após ser libertado, Gollob iniciou publicações e artigos ligados à avi-ação.
Em 1948 ele se tornou Secretário Geral de uma Associação de Em-presários e, 1951,
quando já residia na cidade de sua esposa, na Baixa Sa-xônia, ele tornou-se gerente
de uma empresa de motores para automóveis. Mesmo com o advento da nova Luftwaffe,
nos anos 50, Gollob permaneceria ligado à iniciativa privada. Na verdade, devido
às suas ligações muito pró-ximas com membros do Partido Nazista durante a guerra
e a sua inimizade com vários outros oficiais, ele havia se transformado em persona
non-grata.
Independentemente disso, Gollob prosseguiu sua carreira, assumindo
a di-reção de uma empresa ligada à prevenção de incêndios nos Estados do Norte
da Alemanha. Pai de dois filhos e uma filha, ele permaneceria voando planadores
e aviões motorizados até ter um ataque do coração em 1975. Aposentado ele se retirou
para escrever sobre suas memórias e experi-ências de guerra - afinal, havia voado
mais de 100 tipos de aeronaves (inclusive o primeiro P-47
Thunderbolt capturado pela Luftwaffe), voado 340 missões de combate e abatido
150 aviões adversários.
O lendário Gordon M. Gollob
faleceu de causas naturais em 08 de setembro de 1987, em Suligen, na Antiga Alemanha
Ocidental, quando contava com 75 anos de idade.