"A
primeira regra de todo combate aéreo é ver o oponente primeiro. Como o caçador
que espreita sua presa e se coloca sem ser percebido para a posição mais favorável
para o abate, o piloto de caça na abertura de um combate aéreo deve detectar
seu oponente tão cedo quanto possível a fim de obter uma posição superior
de ataque"
Adolf Galland
Adolf Galland
(1912 - 1996)
Generalleutnant JG27, JG26 e JV44
705 missões de combate (280 na Espanha)
104 vitórias (35 na
Inglaterra, 7 c/Me 262, 47 Spitfires)
Ferido em ação (26.04.1945)
Adolf Galland é, de
longe, o mais conhecido piloto de caça da Luftwaffe de toda a II Guerra Mundial.
Muito já se escreveu sobre ele, que é uma das personalidades mais marcantes e
pitorescas daquele conflito, e adjetivos não faltam para descrevê-lo: piloto brilhante
- um dos poucos a superar a marca de 100 vitórias exclusivamente na Frente Ocidental
-, atirador excepcional e tático inventivo, Galland foi mais do que isso, pois
conseguiu fazer a transição de piloto de combate para oficial do Alto Comando
com grande sucesso. Consequentemente, ele será relembrado tanto por seus combates
nos céus da Europa deflagrada quanto em sua luta sem fim contra a burocracia do
Partido Nazista e suas mazelas.
Fora tudo isso, sua história fez a alegria
dos correspondentes de guerra e ainda é fonte de ótimas anedotas. Galland era
um bon vivant elegante que gostava da boa vida e de boa companhia. Seu símbolo
pessoal, uma ver-são do Mickey Mouse portando machadinha, revólver e mastigando
charu-to, estava pintada em seu avião. Aliás, ele raramente era visto sem seus
famosos charutos, a ponto de seu avião ser o único da II Guerra a ser e-quipado
com acendedor de cigarros! Tudo isso lhe valeu o apelido dado pelos britânicos
de "Piloto Almofadinha".
Adolf Joseph Ferdinand Galland nasceu em 19 de
março de 1912 em Westerholt, no seio de uma família descendente de huguenotes
(protes-tantes) franceses que haviam fugido para a Alemanha no século XVII. Se
gundo filho de um total de quatro irmãos, ainda menino desenvolveu a pai-xão pela
aviação. Aos 12 anos começou a construir aeromodelos e aos 16 já voava em planadores,
tornando-se mais tarde um piloto de sucesso. Nessa época seu grande sonho era
ser piloto comercial. Sonho esse que se realiza ao ser admitido no centro de treinamento
da Lufthansa em Brunswick - na verdade uma escola de treinamento de pilotos de
combate disfarçada, a fim de burlar o Tratado de Versalhes -, onde permaneceu
du-rante um ano, sob comando do veterano da I Guerra
Mundial, Alfred Keller
A mudança brusca veio em fevereiro de 1935, quando Galland ingressou
na Luftwaffe - a recém criada Força Aérea do III Reich. Mas sua carreira quase
teve um fim prematuro quando, nesse mesmo ano, sofreu um grave acidente enquanto
fazia acrobacias, no qual esfacelou seu nariz e comprometeu seriamente seu olho
esquerdo. Depois de três meses de tratamento, seu relatório médico apresentava
a sentença: "Incapacitado para o vôo". No entanto, ele solicitou um segundo exame
de visão. O resultado foi óbvio: foi aprovado e liberado para voar depois de usar
de certos artifícios muito pouco éticos. Contando com a ajuda de um colega que
também era oficial, ele conseguiu memorizar todas as letras do cartaz de exame
de vista. Pouco depois, comissionado com a patente de Leutnant,
ele foi designado para servir como instrutor na Jagdfliegerschule (Escola de Pilotos
de Caça) de Schleissheim.
Galland permaneceria lá até abril de 1937, quando apresentou-se como voluntário
designado para servir na famosa (e infame) Legião Condor. Formada para dar suporte
às forças nacionalistas do General Francisco Franco durante a Guerra
Civil Espanhola, a Legião serviu de inestimável batismo de fogo para toda
uma geração de futuros pilotos e líderes alemães como Werner
Mölders, Günther Lützow e Walter
Oesau. Em 08.05.1937, após chegar a El Ferrol, Galland foi designado Staffelkapitän
do 3./JGr 88 (3º Staffel do Jagdgruppe
88), parte da famo sa Legião. Sua unidade ficaria conhecida como "Esquadrão
Mickey Mouse" - alusão àquele que se tornaria seu símbolo pessoal.
Na Espanha,
voando a bordo de um obsoleto biplano Heinkel He 51,
muitas vezes apenas de calção e camiseta (devido ao forte calor do verão espanhol),
Galland seria o responsável por missões de apoio às tropas de infantaria, desenvolvendo
táticas que depois seriam a base de toda a força de bombardeiros de apoio terrestre
- Schlachtfliegerei - da II Guerra Mundial. Ele executou nada menos que 280 missões
de combate contra as forças republicanas espanholas, executando bom-bardeios de
mergulho e ataques a alvos terrestres.
Ainda em solo
espanhol, Galland encontraria aquele que seria seu grande rival e amigo: Werner
Mölders. Convocado para sucedê-lo no comando do 3./JGr 88, Mölders estava
destinado a se tornar o maior ás alemão e um dos grandes táticos daquele conflito.
Chamado de volta à Alemanha em julho de 1938, Galland foi incumbido pelo Reichsluftfahrministerium
(RLM - Ministério da Aeronáutica) de criar e desenvolver a primeira unidade específica
de apoio terrestre. Em 01.11.1938 ele foi nomeado Staffelkapitän
do 1./JG 433 (mais tarde chamado 1./JG 52). Condecorado com a Cruz
Espanhola em Ouro com Espadas e Brilhantes em 01.08.1939 pela sua liderança
na Espanha, Galland foi designado Staffelkapitän
do 5.(Sch.)/LG 2 (5º Staffel - Schlacht
- da Lehrgeschwader 2).
Promovido a Hauptmann,
com o início da II Guerra Mundi al, em setembro de 1939, Galland executou mais
de 50 missões durante a invasão da Polônia,
participando dos primeiros ataques às posições da infantaria polonesa, próximo
a cidade de Panki. Depois atacou várias pontes, veículos blindados, tropas e trens,
sendo condecorado com a Cruz de Ferro de 2ª Classe.
Contudo, ele estava extremamente infeliz - seu sonho era se tornar um caça-dor.
Ele sabia que a aviação de apoio terrestre ofereceria poucas oportunidades para
combater outros aviões. Mais uma vez, ele recorreu a um artifício para conseguir
o que queria.
Após a Campanha da Polônia, Galland foi acometido de reumatismo.
Enviado para Wiesbaden para tratamento, lá ele encontrou um oficial médico que
era seu amigo. Re-sultado: o diagnóstico afirmava que ele não mais poderia
voar em cockpits abertos - como era o caso do principal avião de ataque
ao solo, o biplano Henschel Hs123 - devendo passar
a pilotar tipos com a cabina fechada, tal qual o caça Messerschmitt
Bf 109E... Ainda em Wiesbaden, ele encontraria mais uma vez com Mölders,
que lhe ensinaria como ser um piloto de caça: "foi Werner Mölders que me ensinou
a atirar em vôo e como derrubar uma aeronave."
Após sua recuperação, Galland foi designado para servir como Geschwaderadjutant
(equivalente a Oficial de Operações) na Jagdgeschwader 27, sob comando
do Oberst Max Ibel. Mas ainda não seria desta vez:
seu trabalho era prioritariamente burocrático. Burlando seu superior,
Galland começou a efetuar uma série de mis-sões de combate durante a Campanha
da França. Finalmente, em 12.05.1940, a oeste de Lüttich (Liége), na Bélgica,
derrubou suas primeiras vitimas: três Hawker
Hurricane da RAF. Uma estréia notável!
Suas vitórias começaram a aumentar substancialmente, fazen-do com que o Alto-Comando
finalmente se rendesse: em 11.06. 1940, o Major
Galland foi nomeado Kommandeur do III./JG
26 (Gruppe III da JG 26) - derrubando dois
caças inimigos em seu primeiro dia com aquela unidade. Voando duas a três missões
diárias, escoltando bombardeiros e engajando-se em duelos mortais contra os Spitfires
e Hurricanes da RAF, ele encerraria a Campanha
da França, no final daquele mês, com um total de 14 vitórias confirmadas.
Ainda
no início da Batalha da Inglaterra, em
29 de julho de 1940, o Major Adolf Galland tornou-se o terceiro piloto de caça
da Luftwaffe a ser condecorado com a Cruz de Cavaleiro
da Cruz de Ferro. Menos de um mês depois, em 22.08.1940, Galland foi nomeado
Kommodore da Jagdgeschwader
26 "Schlageter", o qual lideraria durante o restante da luta sobre a Inglaterra
e sobre os combates no Canal da Mancha ao longo do ano seguinte. Em 24 de setembro
de 1940, após derrubar
"No dia 24 de setembro, a minha 40ª vitória aérea deu-me as Folhas
de Carvalho. Hitler, pessoalmente, devia fazer a entrega em Berlim. O Führer
recebeu-me na sua nova chancelaria. Era a segunda vez que estava sentado diante
dele. Para grande assombro meu, não representou, nem por um momento, o papel do
chefe sobrecarregado de trabalho. Pelo contrário, interrogou-me minuciosamente
sobre as minhas impressões pessoais. Não lhe escondi a minha admiração pelo adversário
contra o qual lutávamos no céu britânico. Segundo julgo, os caças ingleses, em
condições de inferioridade, tanto numérica como técnica, tinham salvo a sua pátria
no momento de maior perigo, graças à sua tenacidade e à sua dedicação. Eu sentia-me,
pelo menos, no dever de protestar contra certos comentários da imprensa e do rádio
que falavam da RAF em tom desdenhoso e arrogante. Fiquei pasmado ao ver que Hitler,
longe de tomar a defesa do seu serviço de propaganda, concordava plenamente comigo.
Ele também, declarou, sentia o maior dos respeitos pelos ingleses e lamentava
esta guerra, que se via obrigado a mover-lhes, uma guerra até à morte, que não
podia terminar sem o aniquilamento de um dos antagonistas."
Em 30.10.1940 ele atingiu a marca de 50
vitórias confirmadas. Nessa época uma "corrida de ases" se estabeleceu entre Galland,
Mölders e Helmut Wick. No ano
seguinte, ele continuou a voar em missões de combate partindo de bases situadas
na França, onde obteve mais e mais vitórias, em uma longa guerra de atrito contra
a RAF. Seu núme-ro de vitórias reflete a dureza dos combates.
A despeito
da violência da luta, Galland nunca perdeu o bom humor ou o sentimento de cavalheirismo.
Certa vez, somente para testar o jovem piloto, Göring
indagou a Galland sobre sua reação em caso de ser or-denado para atirar em pilotos
pendurados em pára-quedas. "Eu consi-deraria tal ordem assassinato. E faria
todo o possível para desobede-cê-la" - ele respondeu com indignação.
Muito
pelo contrário, haviam ordens expressas do Alto-Comando para que tal conduta fosse
evitada - o que nem sempre foi observado pelos ingleses e americanos que, com
certa freqüência, metralhavam pilotos alemães (principalmente aqueles dos jatos).
Outro costume de Galland era as recepções que fazia em homenagem àqueles
mais afortunados pilotos aba-tidos que eram capturados com vida - como o lendário
jantar que Galland e seus amigos da JG 26 ofereceram para o igualmente conhecido
ás britânico Douglas
Bader (1910-1982), quando este foi obrigado a saltar sobre a França ocupada
em 1941. Ambos jantaram, fumaram charutos e a Bader foi até mesmo permitido sentar
no cockpit de um caça Bf109.
Mas
não foi só: Bader - que havia derrubado 22 aviões alemães - havia perdido as duas
pernas antes da guerra em um acidente e voava utilizando próteses as quais per
deu neste seu último combate. Em seu encontro, ele soli citou aos seus "anfitriões"
se estes lhes poderiam provi-denciar novos exemplares. Com a autorização de Göring
e utilizando a freqüência da Cruz Vermelha Internacional, Galland comunicou-se
com os britânicos e lhes assegu- rou salvo-conduto para que jogassem de pára-quedas
as próteses sobre a base da JG 26. Isto foi levado a cabo pe-los britânicos - que
aproveitaram a ocasião para atacar o aeródromo alemão. Mesmo assim, os caças da
Luftwaffe assistiram a tudo impassíveis, mantendo a palavra de honra de seu comandante.
A amizade dos dois perdurou para muito além da guerra. Em
1946, quando Galland era prisioneiro na Inglater-ra, ele foi convidado por Bader
para conhecer outros altos oficiais britânicos na lendária base da RAF em Tang
mere. Lá, ele recebeu de seu anfitrião uma desejada caixa de charutos. Quando
Bader morreu em 1982, Galland estava presente ao seu funeral, ao lado da Primeira-Ministra
Margaret Tatcher - mas era para ele que pediam autógrafos.
Sua 60º vitória foi alcançada em 15.04.1941
em circuns-tâncias únicas. Aquele era o dia de aniversário do Gene-ral e Jagdführer
2 (líder dos caças na Luftflotte 2),
Theo-dor Osterkamp. Veterano ás da I
Guerra Mundial com 32 vitórias e ganhador da Pour
Le Mérite, ele também havia abatido outras seis aeronaves no segundo conflito
e rece-bido também a Cruz de Cavaleiro. Uma festa
surpresa foi organizada para "Onkel Theo" (tio Theo) como era cari-nhosamente
chamado pelos jovens pilotos e Galland foi convidado.
Animado com o compromisso,
ele colocou uma imensa cesta com lagostas e uma caixa de champanhe em seu Bf109
e decolou em direção a Le Touquet. Contudo, ele resolveu fazer um pequeno desvio,
sobrevoando o sul da
Inglaterra junto de seu Rottenflieger,
Leutnant Westphal. No meio do caminho a dupla avistou uma formação de seis caças
Spitfires sobre Kent. Não resistindo à tentação,
Galland mergulhou para o ataque: o primeiro caça inglês, pego de surpresa, foi
presa fácil. Ao atacar o segundo avião, ele não percebeu que seu ala, com problemas
no motor, havia se separado dele. Mesmo assim, Galland "completou o trabalho"
abatendo o segundo Spitfire e correndo de volta
à costa da França, desviando dos tiros dos furiosos ingleses. Desse modo, à noite,
eles celebraram não apenas o aniversário de Osterkamp
mas também sua 60ª vitória.
No dia 21.06.1941, após derrubar três aviões inimigos (suas 68ª e 69ª vi-tórias),
Galland foi severamente ferido na cabeça e braço e abatido, sen do forçado a saltar
de pára-quedas de seu Bf 109F-2 (werkenummer
6713) - ocasião em que quase morreu ao se ver enroscado em seu pró- prio avião.
Nesse mesmo dia em que, por pouco, escapou da morte, o Oberstleutnant
Adolf Galland tornou-se o primeiro soldado em toda a Wehrmacht
a ser agraciado por Adolf Hitler com as Espadas da
Cruz de Cavaleiro, no mesmo dia em que esta condecoração foi instituída.
Após
sua recuperação, ele continuou a acumular resultados impressio-nantes diante dos
pilotos ingleses. Outros três caças tombaram em 23. 07.1941 (suas 71ª a 73ª vítimas),
seu 75º inimigo caiu em 07.08.1941, o 80º em 19.08.1941 e o 90º no dia 21.10.1941 (ver gráfico).
Nesse momen to, a carreira do Oberst Galland
seria interrompida de modo abrupto. No dia 22.11. 1941, seu antigo amigo, Werner
Mölders - então servindo como "General der Jagdflieger "(equivalente a comandante
dos pilotos de caça) - morreu em um acidente de avião, enquanto ia para o funeral
do famoso herói da I Guerra Mundial, General
Ernst Udet.
Durante as homenagens
a Mölders, Galland foi informado por Hermann
Göring que seria nomeado sucessor de seu antigo rival. Ao ser designado oficialmente
o novo "General der Jagdflieger",
em 05.12.1941, Galland somava 94 vitórias confirmadas mas teve que deixar o comando
da JG 26, passando-o ao seu amigo Major Gerhard Schöpfel.
Mesmo assim, em reconhecimento aos seus feitos, Adolf Galland foi condecorado
por Hitler com os Brilhantes da Cruz de Cavaleiro
em 28 de janeiro de 1942 - o 2º soldado a receber essa honraria.
Não tardaria para Galland demonstrar suas qualidades
de líder nato. Em fevereiro de 1942 ele foi o principal respon-sável pela Operação
"Donnerkeil-Cerberus" (Trovão-Cérbe ro): a travessia do Canal da Mancha pelos
grandes navi-os de guerra alemães Scharnhorst, Gneisenau e Prinz Eugen sob proteção
de um guarda-chuva aéreo entre os dias 11 e 13.02.1942. Exemplo raro de trabalho
conjunto entre forças armadas distintas (Kriegsmarine
e Luftwaffe) durante o III Reich, o sucesso da operação foi garantido pelo empenho
de Galland e do Almirante Otto Ciliax. O jo vem "General der Jagdflieger" empregou
nada menos que 250 caças diurnos e 30 caças noturnos em uma cobertu-ra ininterrupta
sobre as belonaves germânicas, até que essas atingissem a segurança de portos
na Alemanha. A humilhação dos britânicos foi completa.
Como resultado pelos seus esforços, Galland foi promovido a Generalmajor
em 19.11.1942 - aos 30 anos de idade era, então, o mais jovem general da Wehrmacht.
Ele passaria os dois anos seguintes cuidando da organização, aparelhamento e desenvolvimento
da força de caças da Luftwaffe. A fim de se manter inteirado sobre os problemas
e situações vividos por seus subordinados, Galland não apenas passava várias semanas
visitando as unidades na frente de batalha mas, também, contrariando ordens diretas
de Hitler e Göring, efe-tuando missões de combate
reais.
No outono de 1943, contrariando ordens superiores, Galland partiu de um aeródromo
próximo a Berlim, a bordo de um Focke-Wulf Fw190,
a fim de interceptar uma grande formação de bombardeiros norte-ameri-canos, conseguindo
abater um B-24 Liberator, sua 95ª vitória.
Mas
a guerra também custou caro à Galland: seus dois irmãos mais novos morreram em
combate na frente ocidental. Paul Galland (ás de 17 vitórias) tombou em 31.10.1942
e Wilhelm-Ferdinand
Galland (55 vitórias e ganhador da Cruz de Cavaleiro
da Cruz de Ferro) foi morto em 17.08.1943.
Na primavera de 1944, em
mais uma missão secreta, abateu outro bombardeiro da USAAF, um B-17
Flying Fortress próximo a Magd-borg. Porém, dessa vez, ele foi seguido por
quatro P-51 Mustangs que faziam a escolta, conseguindo
escapar ileso por muito pouco. Este fato, narrado a seguir pelo próprio Galland,
ilustra muito bem a situação crítica pela qual os pilotos de caça alemães estavam
pas-sando:
"Eu estava a 100 jardas (91 m) atrás de
sua cauda... O B-17 disparou suas metralhadoras e realizou mano-bras evasivas
desesperadas. Nesse momento a única coisa que existia no mundo era esse bombardeiro
norte-americano, que lutava desesperadamente pela sua vida, e eu. Enquanto meus
canhões disparavam, pedaços de metal começaram a desprenderem-se da fuselagem
do bombardeiro, esteiras de fumaça surgiram de seus motores, e a tripulação lançou
toda sua carga de bombas. Um dos tanques de combustível das asas se incendiou.
Os tripulantes começaram a se lançar de pára-quedas. A voz de Trautloft
[Hannes Trautloft, outro grande ás da Lutfwaffe] ressoou nos meus audiofones:
´Achtung Adolf! Mustangs! Eu estou caindo fora! Meus canhões estão travados!´
E então, com a primeira rajada dos Mustangs, voltei à realidade. Não havia mais
dúvidas acerca da sorte do B-17: estava liquidado; porém eu, ainda não... Simplesmente
fugi. Num piquê com o acelerador no fundo, tentei escapar dos Mustangs que, voando
na minha perseguição, disparavam incessantemente. Direção: esta, rumo a Berlim.
Os projéteis traçantes (tracers) se aproximavam mais e mais. No instante em que
o meu Fw 190 ameaçava desintegrar-se, e quando me restavam apenas escassas possibilidades,
fiz algo que já havia salvo minha vida em duas oportunidades durante a Batalha
da Inglaterra: disparei todos os projéteis que restavam contra o vazio na minha
frente. Isso produziu o efeito desejado sobre os meus perseguidores que, repentinamente,
viram ir ao seu encontro a fumaça das minhas balas. Provavelmente acreditaram
que haviam se deparado com o primeiro caça que disparava para trás, ou que outro
caça alemão estava atrás deles. Meu truque deu resultado, pois deram uma volta
fechada para a direita e, subindo, desapareceram no céu."
Nos anos de 1943 e 1944, Galland lutaria
por uma força de caça mais poderosa como único modo de enfrentar a ofensiva de
bombardeios conduzida pela RAF e pela USAAF, a despeito da oposição de Hitler
(que nunca admitiu lutar na defensiva) e do já alienado Göring.
Desse modo, foi natural que ele se tornasse o maior entusiasta do revolucioná
rio caça a jato Messerschmitt Me262, o qual pilotou
durante sua fase de desenvolvimento.
Além de líder e excelente piloto,
Galland também era brilhante no de-senvolvimento de novas táticas e estratégias
de com bate, além de ser o grande responsável pela criação e implementação da
nova carlinga que equipou as ultimas versões do Messerschmitt
Bf109, a qual propor-cionou um aumento significativo na visibilidade dos pilotos
e recebeu o seu nome, "Gallandhaube".
Göring freqüentemente manobrou a
fim de minar o poder de Galland. Na prática, o ás tinha pouca autonomia. Mesmo
assim, nas ocasiões em que conseguia alguma liberdade operacional, Galland alcançava
resulta-dos admiráveis, como foi o caso do ataque maciço contra a força de bombardeiros
americanos B-17 que se dirigia para Brunswick em 10.02.
1944. Seguindo sua doutrina de que a concentração de caças poderia causar
pesados danos contra as forma- ções de Fortalezas Voadoras, seus 350 aviões conseguiram
abater nada menos que 39 B-17s e danificaram severamente outros 111 - de um total
de 169 bombardeiros.
Mas seria uma exceção. A situação da Luftwaffe piorava
a cada dia, forçando-o a reconstruí-la cada vez que era lançada por Hitler e Göring
em mais uma ofensiva sem sentido. O ponto crítico chegou em janeiro de 1945. Em
uma lendária reunião - hoje chamada de "Motim dos Pilotos" - Adolf Galland, Günther
Lützow, Gün ther von Maltzahn, Hannes
Trautloft, Johannes Steinhoff e outros veteranos
enfrentaram abertamente Göring. Em um dado momento,
quando o decadente Reichsmarschall
acusou-os de serem mentirosos, covardes e de inflarem seu número de vitórias,
Galland arrancou sua Cruz de Cavaleiro com Brilhantes
do pescoço e arremes sou-a na mesa de Göring. Era o fim.
Exonerado de seu cargo de Generalderjagdflieger
em 15.01.1945 (sen do sucedido por Gordon Gollob), Galland
passaria as semanas seguin tes praticamente em prisão domiciliar, enquanto seus
amigos eram enviados para postos remotos no que restava do III Reich. Ameaçado
pela Gestapo, ele cogitou seriamente de dar cabo à sua vida. Mas, en tão, Hitler
soube das intrigas conduzidas por Heinrich Himmler (chefe das SS e da Polícia
Secreta) e por Göring.
Acreditando que o antigo piloto merecia um fim melhor,
ele determinou que a atuação da Gestapo cessasse e que Galland fosse autorizado
a comandar um esquadrão de jatos. Se fosse para morrer - o que Hitler, Göring
e Himmler sinceramente esperavam que acontecesse - que morresse em combate.
O
resultado foi o surgimento daquela que seria a mais famosa unidade de caças à
jato da história: a Jagdverband 44 (JV
44). Utilizando Johannes Steinhoff como seu "recrutador",
Galland transformou sua unidade em um imã para os ases que haviam sobrevivido
ao conflito conhecido como o "Esquadrão de Experts". Vários ases tinham mais
Eles passaram a operar a partir do final de março
de 1945, sediados inicialmente em Brandenburg-Briest, onde permaneceram pouco
tempo antes de se mudarem para Riem, próximo a Munique, no sul da Alemanha. Operando
em pistas sob constante ataque de caças americanos e com constante falta de peças
de reposição e combustível, os resultados atingidos por Galland e seus homens
foram notáveis, dadas as circunstâncias. Seu melhor momento ocorreu em 07.04.1945,
quando uma formação de bombardeiros B-17 foi interceptada
pelos Me262 de Galland equipados com mísseis R4M.
O resultado foi catastrófico para os americanos: nada menos que cerca de 30 quadrimotores
foram abatidos.
Mas a guerra já estava perdida à essa altura.
Sua última missão no con-flito foi em 26 de abril de 1945 (duas semanas antes
do final da guerra). Voando em pequena formação de Me262
sobre o Danúbio, ele derrubou dois bombardeiros B-26 Marauder
antes de ser abatido pelo Lt. James Finnegan do 50º Figther Group da USAAF que
fazia a escolta com seu P-47 Thunderbolt. Esta também
seria a última ação conhecida dos Me 262. Quando a Alemanha se rendeu aos Aliados,
em 08.05.1945, Adolf Galland estava no hospital se recuperando dos ferimentos
de sua última missão.
Galland seria mantido como prisioneiro de guerra
pelos americanos e in-gleses até 1947. Após sua libertação, ele emigrou para a
Argentina, onde trabalhou como consultor do Ministério da Aeronáutica ao lado
de nomes como Werner Baumbach, Hans-Ulrich
Rudel e Kurt Tank (o projetista che-fe da Focke-Wulf), ajudando a desenvolver
o primeiro jato daquele país. No início dos anos 50 ele publicou sua aclamada
biografia, conheci da co-mo "The First and The Last" ("O Primeiro e o Último"),
ainda hoje editado. Seu trabalho permitiu que mantivesse contato com o mundo da
aviação, em um período em que a maioria de seus colegas estava afasta dos dessa
área.
Retornando à Alemanha em 1955, o nome de Galland foi um dos primeiros
a ser cogitado para assumir a liderança da nova Luftwaffe. Contudo, ao saber que
ficaria subordinado ao General Josef Kammhuber -
com quem já tinha tido alguns problemas de relacionamento durante a guerra - Galland
declinou e permaneceu como consultor, tornando-se um empresário extremamente bem
sucedido. Sua paixão pelo vôo continuou assim como sua fama de "bon vivant": ele
se casou três vezes e se tornou pai pela primeira vez aos 54 anos de idade.
Em 1969,
Adolf Galland foi contratado como consultor pelos produtores do hoje clássico
filme de guerra "A Batalha da Inglaterra" (The Battle of Britain). Um dia, visitando
o set de filmagem, ele surpreendeu a todos: tomou o assento no cockpit de um dos
Ha-1109 (a versão espanhola do Bf109) usados
pela produção, decolou e, diante das câmaras, executou uma impecável seqüência
de tunneau a poucos metros do solo. Pousou em seguida diante dos olhares atônitos
dos jovens pilotos contratados para as cenas dos combates aéreos. Nada mal para
um senhor de 57 anos!!
O eterno ás da Luftwaffe, o Generalleutnant
Adolf Galland faleceu em razão de uma parada cardíaca em sua casa em Oberwinter,
subúrbio de Bonn (Alemanha), no dia 09 de fevereiro de 1996, aos 83 anos de idade.
Durante sua carreira, Adolf Galland executou 705 missões de combate (280 na Espanha),
ao longo das quais alcançou a marca de 104 vitórias confirmadas - todas contra
aliados ocidentais (incluindo quatro bombardeiros quadrimotores e sete vitórias
à bordo do lendário jato Messerschmitt Me262).