| Heinz Bär foi o que
se costuma chamar de um “Piloto do Primeiro ao Último dia”, ou seja, ele voou
desde o primeiro dia da guerra, em 1º de setembro de 1939, até o último momento
daquele conflito, em 08 de maio de 1945. Com isso ele é um dos pouquíssimos pilotos
a alcançar e sobreviver a este feito. Some-se a isto o fato de que ele lutou e
obteve vitórias em todas as frentes de combate em que atuou: Polônia e França,
Canal da Mancha (na Batalha da Inglaterra), Rússia, Norte da África, Mediterrâneo
e, por fim, na Defesa do Reich. E, para completar, Bär (que, em alemão, significa
“urso”) fez tudo isso pilotando tanto caças com motor a pistão como jatos. Para
sobreviver a este tipo de carreira não basta ser um bom piloto, mas sim alguém
com caracte rísticas únicas. Heinz
"Pritzl" Bär nasceu em 25 de março de 1913 em Sommerfeld próxi-mo a Leipzig, Alemanha.
Bär aprenderia a voar em planadores durante sua adolescência nos anos 20 e, aos
17 anos de idade já possuía o brevê para as categorias A, B e C sendo que, pouco
depois, ele freqüentou o curso para aviões motorizados e também obteve sua licença
para este tipo de aeronave. O principal objetivo do jovem Pritzl era se
tornar um piloto comercial da Lufthansa. Contudo, devido à suas origens humildes,
ele não tinha condi ções de arcar com os custos de um curso de pilotagem avançado,
então requerido para aqueles que desejavam tornar-se comandantes de aerona-ves
de rotas comerciais. A solução encontrada por Bär para encontrar um “curso
gratuito” foi juntar-se à Luftwaffe, sendo que ele esperava usar a experiência
que ganharia na Força Aérea para catapultar sua carreira civil. | |
Assim,
em 1937, Heinz Bär alistou-se na Luftwaffe e, após o treinamento avançado, ele
foi incorporado como um Unteroffizier.
Ele iniciou sua carreira como piloto de avião de transporte, voando num Junkers
Ju 52/3m mas, em seguida, ele foi transferido para a caça diurna, tendo completado
o treinamento de piloto no inicio de 1939 e sendo designado para servir na JG51.
Mas a guerra impediu-o de abandonar a Luftwaffe - e, devido a esta obra do destino,
iniciava-se uma das mais brilhantes carreiras da aviação militar.  | Quando
a II Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, Heinz Bär estava servindo junto
ao 1º Staffel da Jagdgeschwader
51 (1./JG51) que então estava equipada com os caças Messerschmitt
Bf 109E. Em 25 de setem-bro de 1939, o já Feldwebel
Bär alcançou sua primeira vitória diante de um Curtiss H-75
A-2 francês do GC I/4 sobre a localidade de Weissenberg. Durante a campanha
da França em 1940, ele obteve mais sete vitórias: sendo três aviões franceses
e quatro britânicos. Na Batalha da
Inglaterra, enquanto dez caças inimigos sucumbiram diante de seus canhões,
seu Bf109 retor-nou a base severamente avariado por diversas vezes. Em 2 de setembro
de 1940, a sorte de Bär quase o abando-nou: enquanto retornava de uma missão,
com seu Bf 109 | E-4 (W.nr. 3714) crivado de balas e com o
motor superaquecido, ele foi "encontrado" por um Spitfire que deu o golpe de misericórdia.
Ele conseguiu saltar do avião para cair nas águas geladas do Canal da Mancha
Após
nadar por quase duas horas, já próximo do pôr do sol, ele finalmente foi localizado
por um hidroavião de resgate alemão e levado de volta à sua base para, no dia
seguinte, já estar voando normalmente. A despeito desse revés, durante o curso
desta épica Campanha, Heinz Bär se tornou o Oficial Não-Comissionado da Luftwaffe
mais bem sucedido daquele período, ao atingir a marca de 17 vitórias aéreas. Em
reconhecimento à sua bravura e habilidade, no dia 07.09.1940, ele foi promovido
a Leutnant. Em meados de junho de 1941,
Bär e sua unidade foram transferidos para o leste a fim de tomar parte na invasão
da URSS, que começaria no dia 22 daquele mês. Voando uma série de missões
nos primeiros dias da Operação Barbarossa, ele acumularia uma rápida seqüência
de vitórias, incluindo nada menos que cinco bombardeiros soviéticos no dia 30.06.1941
(suas 23ª a 27ª vitórias). Por fim, em 02 de julho de 1941 o Leutnant Heinz Bär
foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de
Ferro após abater 29 aviões inimigos. Pouco
depois, em 20.07.1941, Bär foi transferido para o 12./JG 51. Isso praticamente não alterou sua "rotina" de caçador: sua 40ª vítima
, um I-15, tombou dois dias depois, e sua 50ª vitória veio em 27.07. 1941.
Seu número
de abates elevou-se de tal modo que, em 14 de agosto de 1941, já promovido a Oberleutnant,
"Pritzl" foi convocado à presença do próprio Adolf Hitler para receber de suas
mãos as Folhas de Carva-lho da Cruz de Cavaleiro.
Ao se tornar o 31º soldado da Wehrmacht
a receber essa honraria, Bär já acumulava um total de 62 vitórias aéreas
Alguns dias mais tarde, Bär derrubou nada menos que seis aviões sovi éticos (suas
73ª a 78ª vitórias), mas ele quase não pôde comemorar. No dia seguinte, enquanto
tentava chegar à sua 80ª vitória à bordo de seu Bf
109F-2 ("braune 1" - Werkenummer
8318), Bär adentrou cerca de 50km atrás das linhas inimigas enquanto perseguia
sua vítima em potencial. Uma reviravolta fez com que seu avião fosse severamente
danificado, forçando-o a saltar de pára-quedas. | |
Contudo,
Bär chocou-se com força contra o solo e ventos forte o arrastaram por vários metros,
antes que ele conseguisse se livrar de seu pára-quedas. Severamente ferido e quase
cego de dor, ele iniciou um dos gran-des épicos de sobrevivência de um piloto
de caça. Escondendo-se de seus inimigos enquanto avançava em direção às suas linhas,
ele passou os dois dias seguintes em uma fuga agonizante e desesperada. Quando
ele finalmente alcançou as linhas alemãs, constatou-se que sua espinha havia se
fraturado em dois lugares! Os médicos simplesmente não puderam acreditar que alguém
nessas condições conseguisse viajar à pé 50 quilômetros. Mas ele se recuperaria
a tempo de acabar o ano de 1941 com nada menos que 88 vitórias confir-madas. 
| Em
24.11.1941, após a morte de Werner Mölders, a JG 51
tornou-se a Geschwader “Mölders”, sendo
que, pouco depois, no início de 1942, o agora Hauptmann
Heinz Bär foi nomeado Staffelkapitän do 12./JG 51. Mais
uma vez, em 16 de fevereiro de 1942, Heinz Bär dirigiu-se ao quartel-general de
Hitler para se tornar o 7º homem a ser agraciado com as Espadas
da Cruz de Cavaleiro, quando contava com 90 vitórias aéreas.
Ao retornar
para a frente de batalha, após uma breve licença, em 11. 05.1942, Heinz Bär tornou-se
Gruppenkommandeur do I./JG 77 "Herz As". Ele passou a liderar sua unidade nas duras
batalhas aéreas do sul da frente oriental, mais precisamente na região da península
de Kerch. Lá ele se envolveria em uma "corrida de ases" contra outro pilo-to igualmente
notório: o futuro Brillantenträger
Major Gordon Gollob,
então Geschwaderkommodore da
JG 77.
Homens de personalidades diametralmente opostas, Gollob e Bär prati
camente dominaram os céus na região de Kerch - Taman. Em 17 de maio de 1942 Gollob
derrubou três bombardeiros leves R-5. Ele ainda abateria um caça Yak-1,
pilotado pelo Sargento N. K. Chayka, que re- | portou como
sua 93ª vitória. Mas Bär sempre se manteve à frente a despeito de Gollob nunca
desistir. Em 18 de maio outros três obsoletos bombardeiros R-5 foram abatidos
por Gollob que, agora, atingia a marca de 96 abates. No dia seguinte, tanto Bär
quanto Gollob estavam em ação, mas foi "Pritzl" que conseguiu ganhar ao derrubar
nada menos que cinco adversários (suas 99ª a 103ª vitórias), a despeito do seu
comandante ter der-rubado outros três bombardeiros. Com isso, Bär entrou para
a história como o 9º piloto a atingir a "marca má- gica" das 100 vitórias. No
dia 08.06.1942 ele foi agraciado simultaneamente com o Troféu
de Honra da Luft-waffe e com a Cruz Germânica
em Ouro.
Mas,
com a transferência de Heinz Bär para o Mediterrâ
neo, em julho de 1942 - quando ele somava 113 vitórias -, a "corrida de ases"
estava acabada. Voando os caças Bf109 nas versões F e G, Bär viu-se combatendo
em si-tuações cada vez mais desfavoráveis. Em 13 de outubro de 1942 suas vitórias
foram diante de três Supermarine Spitfires (dois
deles do 185º esquadrão da RAF). Quatro dias depois, mais um Spitfire foi derrubado
próximo a La Valetta (ilha de Malta).
Em seguida, teve início sua participação
em combates no céu quente e escaldante do deserto do norte da Áfri ca, enquanto
apoiava o Afrika Korps do General Erwin
Rommel. Até o final daquele ano Bär derrubaria nada menos que outros 22 aviões
aliados, dos quais cinco no dia 03.11.1942. Entre janeiro de 1943 e a retirada
da JG | | 77
da Tunísia em direção à Sicília, em 29.04.1943, Bär acumularia outras 39 vitórias
(suas 140ª a 179ª vítimas) , incluindo dois quadrimotores. No mesmo período, ele
contraiu malária e, embora algumas vezes, entrasse no cockpit tremendo de febre,
ele continuou a voar em múltiplas missões diárias.
Porém, as difíceis condições
climáticas, combinado com as duras batalhas aéreas, a doença e a percepção de
que as tropas do Eixo seriam derrotadas, cobraram um alto preço de Heinz Bär,
levando-o a um profundo desgaste tanto físico como mental. Isso, aliado à sua
"língua afiada" o levaram a retirado do comando de sua unidade.  | O
grande ás da Luftwaffe foi afastado do comando de sua uni-dade em maio de 1943
e enviado de volta a Alemanha para recuperação e repouso. Após sua "recuperação",
em 19.08. 1943, Bär foi nomeado Kommandeur do Erganzungsgruppe Süd (Gruppe de
Reserva do Sul), então sediado no sul da Fran ça. Entretanto, a pressão
ocasionada pelos ataques constantes das grandes formações de bombardeiros da USAAF,
forçaram o Alto Comando a trazer Bär de volta à ativa em janeiro de 1944. Mas,
ainda sem esquecer as críticas que "Pritzl" havia feito, o Oberkommando der Luftwaffe
o "rebaixou" à Staffel-kapitän do
6./JG 1. |
Sem se abater ("No meu próprio buraco eu
ainda sou o Kommodore" - disse ele), Bär combateu com uma bra-vura ímpar as
Fortalezas Voadoras da 8ª Força Aérea americana e sua
escolta de caças e obteve um sucesso notável: entre 10.02 e 06.03.1944 ele derrubou
nada menos que 16 aviões inimigos, treze dos quais eram qua-drimotores! Como conseqüência,
o OKL dobrou-se diante da habilidade desse piloto, e Bär foi nomea do Grup-penkommandeur
do II/JG 1 em 15.03.1944. Suas primeiras vitórias depois do longo período de afastamento
foram à bordo de um Fw 190A-7, o "23 vermelho",
mas pouco depois ele mudou de aeronave, passando para outro Fw 190A-7, o famoso
"13 vermelho". Foi à bordo desse avião que, em 22.04.1944, Bär derrubou seu 200ª
inimigo, um quadrimotor B-24 Liberator. Na
manhã do dia 30.04.1944, 28 caças de sua unidade foram escalados para interceptar
uma formação de bom bardeiros da USAAF. Bär abateu um P-47
Thunderbolt - sua vitória de número 201 - e, alguns minutos depois, derrubou
mais um avião, dessa vez um quadrimotor B-24 Liberator.
Em 01.06.1944, Bär foi promovido a Oberstleutnant
e transferido novamente, desta vez para assumir a posição de Geschwaderkommodore
da JG 3 "Udet". Durante a desesperada "Operação Bodenplatte", em 01.01. 1945,
Bär abateu dois caças britânicos. Em janeiro de 1945, Heinz Bär foi transferido
para o co-mando de uma escola de pilotos de caça a jato o III/EJG 2 (Ergänzungs-Jagdgeschwader
2), conhecido como Le-chfeld Schule, que operava o Messerschmitt
Me 262. Es | | ses
futuros pilotos seriam utilizados posteriormente pela unidade de caças à jato
JG7. Essa tarefa porém, tor-nou-se cada vez mais difícil, devido aos ataques Aliados
e à crescente falta de recursos. Na terceira semana do mês de março, a unidade
de Bär que contava com onze Me 262 foi transformada em unidade operacional.
Em
19 de março, Bär obteve sua primeira vitória com um caça a jato, diante de um
P-51 Mustang e, em 21 de março, ele abateu mais um B-24.
Três dias depois suas vitórias foram sobre outro B-24 e um P-51. Nas mãos de um
piloto experiente, o Me262 provava ser realmente
uma arma muito poderosa. Bär abateria 13 aviões ini-migos - entre bombardeiros
e caças - enquanto estava no comando da EJG2. Sobre o incrível avião, Bär co-mentaria
depois da guerra:
"Um bom piloto aliado em qualquer de seus aviões era
duro de se lidar, e se ele tivesse a vantagem tática, ele tinha uma boa chance
de sair vitorioso no combate. (...) Mas quando nós recebemos o Me262 foi uma história
diferente, e eles se viram em tremenda desvantagem contra nós. O
jato era muito superior em relação a um monomotor à hélice. Nós poderíamos aceitar
ou recusar o combate com os caças Aliados. A escolha era nossa. O desempenho e
o armamento que nos era proporcionado pelo Me262 eram decisivos no combate entre
caças."  | Em
23 de abril de 1945, Bär juntou-se à lendária Jagdverband
44 (JV44) do Generalleutnant Adolf
Galland, então denominada “Esquadrão de Ases” ou “Esquadrão de Párias” - por
se com-por de vários pilotos que haviam sido expurgados pelo Alto
Co-mando da Luftwaffe - onde permaneceria até o fim da guerra. Quando
Galland foi ferido em combate, em 26 de abril de 1945, Heinz Bär tornou-se o Kommodore
daquela unidade. Como ás da JV44, ele abateu dois P-47 em 27 de abril e obteve
sua úl-tima vitória na Segunda Guerra Mundial dois dias depois, dian te de outro
P-47 voando sobre Bad Aibiling a bordo do novo Me 262A1-1a/U1 que chegara junto
com ele à unidade. O protótipo estava fortemente armado com dois canhões MK103,
dois MG 151/20 e outro par de Mk108.
|
Quando a guerra chegou ao fim, em 08 de maio de 1945,
o já Oberstleutnant Bär havia obtido um total de 221 vitórias e tinha sido abatido
18 vezes! Após sua libertação de um campo de prisioneiros, Heinz Bär retomaria
seu velho sonho de se tornar um piloto comercial civil mas a situação da Alemanha
no pós-guerra mais uma vez atrapalharia seus planos. Contudo, em 1950, ele recebeu
uma proposta de assumir um cargo de supervisor no Aeroclube Nacional, que estava
estimulando o ressurgimento do vôo esportivo. Assim, Heinz Bär poderia, mais uma
vez, voltar a voar. No
dia 28 de abril de 1957, enquanto estava fazendo acrobacias aére-as em um pequeno
avião esportivo de pouso e decolagens curtos (STOL) em Braunschweig, Heinz Bär
morreu instantaneamente quan do o aparelho repentinamente estolou a baixa altitude
e chocou-se contra o solo. Com certeza, um dos maiores e mais corajosos
pilotos da História da aviação militar, o Oberstleutnant Heinz Bär ocupa a oitava
posição na lista dos maiores ases da Luftwaffe e de todos os tempos. Com mais
de 1.000 missões de combate executadas ao longo da guerra, ele al-cançou a marca
de 221 vitórias confirmadas (das quais 96 no Leste e 65 no Mediterrâneo), o que
o torna, logo atrás de Hans-Joachim Marseille, o piloto
com o maior número de vitórias diante dos aliados ocidentais (computando entre
estas 21 quadrimotores e um Mosquito). Mais ainda,
com suas 16 vitórias confirmadas a bordo de um jato Me262,
Heinz Bär é considerado, ainda hoje, (ao lado do ás america-no da Guerra da Coréia
Joseph McConnell), como o maior ás da era do avião a jato | |
Bf 109E-3 - Fw. Heinz Bär, I./JG51 - França, 1939
FW 190A-7 - Heinz Bär, Stab II/JG1 - Abril, 1944
Me 262A-1a - Maj. Heinz Bär, Stab III./EJG2 - Lechfeld/Alemanha
- Março, 1945.
|