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data é 03 de agosto de 1943. O local, provavelmente, é a Wolfsschanze (Toca do
Lobo), o Q.G de Hitler na Prússia Oriental, onde estão reunidos para receberem
suas condecorações. Mais do que um mero registro histórico, a foto acima diz muito
sobre os homens que, ao longo do maior conflito que o mundo já viu, criaram a
aura de heroísmo, bravura e fanatismo que costuma ser associada à Luftwaffe.
Em seus imponentes uniformes azuis acinzentados podemos ver, a partir da
esquerda, Werner Schröer (114 vitórias), Heinrich
Ehrler (208 vitórias), Prinz zur Lippe-Weissenfeld
(51 vitórias), Helmut Lent (113 vitórias), Manfred
Meurer (65 vitórias), Joachin Kirschner (188 vitórias)
e Theodor Weissenberger (208 vitórias). São sete
homens que, juntos, abateram 947 aviões inimigos. E alcançaram estes feitos numa
idade em que, hoje em dia, a maioria das pessoas estão apenas iniciando uma carreira
profissional.
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Diante destes "super-homens", os outrora quase míti-cos ases da Primeira Guerra
Mundial (1914-1918) fica-ram obscurecidos. Se o primeiro conflito viu
o surgimento da maior lenda da aviação de caça, Manfred
von Richthofen (1892-1918), eternizado como o "Barão Vermelho", que alcan
çou 80 vitórias aéreas, a última conflagração mundial trouxe Erich
Hartmann, que se tornou o maior ás de todos os tempos, ao atingir um total
de 352 vitórias confirmadas, entre o final de 1942 e maio de 1945 (quando contava
com apenas 23 anos de idade). A Luftwaffe teria ainda outros ases célebres
pelo nú-mero de vitórias obtidas, todas elas devidamente regis- | tradas
e homologadas com fotografias e documentos: Gerhard Barkhorn
(301 vitórias), Günther Rall (275), Otto
Kittel (267), Walter Nowotny (258), Wilhelm
Bätz (237), Erich Rudorffer (224), entre tantos
outros. Todos também voaram uma quantidade assombrosa de missões, sendo que o
campeão foi o "indestrutível" e lendario piloto de Stuka
Hans-Ulrich Rudel, com um total de 2.530 missões de combate.
A título de comparação, muito atrás dos ases alemães, encontra-se o coronel J.E.
Johnson (1914-2001) da RAF, que obteve "apenas" 38 vitórias, o americano
Richard Ira Bong (1920-1945) com 40 vitórias confirmadas no teatro do Pacífico
e o russo Ivan N. Kozuhedub com 62 vitórias na frente oriental.
| Mas
também haviam os grandes líderes. Não, não os políticos, mas os militares - e
não os grandes generais e marechais, mas sim pilotos que, graças à sua visão e
persistência, conseguiram continuar lutando até mui-to além do que as condições
normais permitiriam. Ho-mens como Werner Mölders, Adolf
Galland, Johannes Steinhoff, Werner
Streib e Günther Lützow. Além de verdadeiros
fenômenos como Hans-Joachim Marseille, Max-Helmut
Ostermann, Leopold Steinbatz e Emil
Lang, entre outros, que se destacaram por suas notá-veis e inigualáveis habilidades
naturais de caçadores dos céus. Estas bravas e destemidas aves de
rapina, |
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muitas vezes lançavam-se contra formações inimigas
numericamente superiores, em circunstancias totalmen-te desfavoraveis, simplesmente
pelo puro prazer do combate, protagonizando "dogfights" apoteóticos.
Em muitas ocasiões chegavam a abater varios caças numa única
surtida. Todos estes fatores reunidos, fizeram a diferença neste panorama.
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Eram homens que se viam como cavaleiros medievais, com seu próprio código de honra
e seus estandartes. Se na frente russa o que se viu foi uma guerra de
exter-mínio sem paralelo, na frente ocidental buscava-se manter um certo ar de
"civilidade" nos duelos contra os pilotos da RAF e da USAF. A imagem
de nazistas fanáticos se dilui quando obser-vamos os funerais que eles faziam
para os adversários que tombavam sob o fogo de suas armas. Ou, ainda, devemos
mencionar as recepções que faziam em ho-menagem àqueles mais afortunados que eram
captura- | dos - como o lendário jantar que Galland e seus companheiros
da JG26 ofereceram ao igualmente conhecido ás britânico Douglas
Bader (1910-1982) com 23 vitórias, quando este foi obrigado a saltar
sobre a França ocu-pada em 1941.
| Mas não foi só: Bader - que não tinha as
duas pernas - voava utilizan-do próteses e as perdeu neste seu último combate,
sendo que solici-tou aos seus anfitriões se estes lhes poderiam providenciar novos
e-xemplares. Com a autorização de Hermann Göring,
e utilizando a freqüência da Cruz Vermelha Internacional, Galland
comunicou-se com os britânicos e lhes assegurou salvo conduto para que jogassem
de pára-quedas as próteses sobre a base da JG26. Isto foi levado a cabo pelos
britânicos - que aproveitaram a ocasião para atacar o aeródromo alemão. Mesmo
assim, os caças da Luftwaffe assistiram a tudo impassíveis, mantendo a palavra
de honra de seu comandante. Episódios como estes - e tantos outros, como
a "escolta" que Erich Rudorffer providenciou para
um caça britânico - tendem a ser esqueci-dos face à violência do confronto e à
imagem perversa que permeia tu-do aquilo associado ao III Reich e ao movimento
nazista em particular. | |
Outro aspecto a ser considerado é o grande desenvolvimento técnico
alcançado pela aviação alemã na II Guerra: os quase 1.000 Km/h que podiam atingir
alguns modelos de caça, os armamentos pesados compostos de metralhadoras, pequenos
canhões e nos últimos anos, de mísseis e foguetes, fizeram destas aeronaves verdadeiras
máquinas de morte e destruição, o que explica o alto número de vitórias obtidas
nesse período, contra os números relativamente baixos alcançados pelos melhores
ases da I Guerra Mundial. Com isso, também coube à Força Aérea alemã a primazia
de possuir os primeiros ases da era da aviação à jato: Heinz
Bär, Georg-Peter Eder e Kurt
Welter, entre outros. E também os primeiros ases da caça noturna - outra modalidade
inédita de combate - tais como Heinz-Wolfgang Schnaufer,
Hans-Joachim Jabs, Prinz zu
Sayn-Wittgenstein e Martin Drewes (além dos acima
citados Helmut Lent, Manfred Meurer
e Prinz zu Lippe-Weissenfeld).
 | Mas
o panteão de ases da Luftwaffe não ficaria com-pleto sem outra categoria de especialistas:
os pilotos de bombardeiros (Kampflieger) e de ataque ao solo (Stukaflieger e Schlachtflieger).
Estes foram os respon-sáveis pelo sucesso da Blitzkrieg
no início da guerra, efetuaram missões desesperadas das areias do Egito às estepes
geladas da Rússia e do Mar Ártico ao Medi terrâneo e, depois, estiveram à frente
no uso das pri-meiras "armas inteligentes" da história. Seja bombardeando ao
som da sirene dos Stukas na Polônia, seja
atacando os comboios navais no Mar do Norte ou destruindo tanques na frente russa,
estes ho-mens também não poderiam ser esquecidos. |
Embora seu sucesso não possa ser mensurado pelo número de vitórias,
estes pilotos também cativaram o imaginário popular, planejando e conduzindo
arriscadas missões contra os aliados e sofrendo pesadas baixas à medida
que a superioridade dos adversários tornou-se definitiva. Nomes como
Werner Baumbach, Joachim
Helbig, Theodor Nordmann, Dietrich
Peltz, Alfred Druschel e Bernhard
Jope - além do próprio Rudel - merece-ram
não apenas as mais altas condecorações mas, também, a alcunha de "ases".
Após o termino do conflito, investigadores militares nor-te-americanos,
usando métodos próprios do FBI come- çaram a tarefa de examinar os arquivos da
Luftwaffe, pois não podiam acreditar nas quantidades de aviões derrubados pelos
ases alemães, dez vezes maior que a de seus melhores pilotos - a ponto de um General
da Força Aérea americana, no início dos anos cinqüenta, afirmar em seu livro que
"nenhum piloto alemão havia derrubado mais de 150 aviões" - o restante, portanto,
seria mera propaganda de guerra. Contudo, com o passar dos anos, tiveram
que se ren-der às evidências, e ainda consideraram que o número real de
aeronaves abatidas pelos pilotos de Hitler, era | | superior ao declarado. Hoje em dia, tais vitórias não
mais são contestadas. Tudo isto porque a Luftwaffe, antes de admitir e creditar
uma vitória a um de seus pilotos, exigia as seguintes provas: -
testemunho dos companheiros de vôo acreditando ser verdade o triunfo reclamado
pelo interessado, portanto
ter presenciado o combate e visto a destruição do avião inimigo; -
ter encontrado os destroços do avião inimigo; -
provas fotográficas obtidas com a câmara-metralhadora que equipavam todos os caças
alemães.
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Este rigoroso sistema de homologação fazia com que muitas vitórias conceituadas
como "prováveis" e que e-ram aceitas pelas demais forças aéreas, fossem repu-diadas
pelo Alto Comando da Luftwaffe (OKL). Mesmo assim,
os dados são assustadores. O número de aviõ- es Aliados abatidos pela força de
caça alemã, entre 1939 e 1945, foi de aproximadamente 70.000 unidades! Desse total,
25.000 foram franceses, ingleses e norte-americanos, e a grande maioria, ou seja,
45.000 foram abatidos na frente russa, diante da Força Aérea Ver-melha.
Segundo dados da própria Luftwaffe, 15.400 destes apa ratos foram derrubados
por apenas 106 pilotos, sendo estes aqueles que superaram as 100 vitórias aéreas
ca | da um. Foram homens como estes 106 ases que desequilibraram
a seu favor a balança dos recordes aéreos nesse conflito. Para estes homens, a
fim de substituir a expressão "ás" (dado ao piloto que abate cinco adver-sários),
os alemães merecidamente cunharam outro termo: Experten. A título de
comparação, durante o conflito um total de 1.222 pilotos de caça,
de várias nacionalidades, alcan- çaram a cifra de 20 vitórias
aéreas ou mais (ver tabela abaixo). Destes, 877 eram pilotos germânicos,
o que representa 71.8% do total. Contudo, a porcentagem de participação
dos pilotos da Luftwaffe aumenta a medi-da em que se considera o número
mais alto de abates. Por exemplo, dos 475 pilotos que alcançaram 40 ou
mais vitórias, 431 (90.7%) eram alemães e dos 106 pilotos que alcaçaram
100 ou mais vitórias, todos eram pi-lotos da Luftwaffe, dos quais 15 obtiveram
mais de 200 abates e apenas dois mais de 300. Número
de ases com 20 ou mais vitórias (por país) | País/Força
Aérea | 20 a 29 | 30
a 39 | 40 a 49 | 50
a 59 | 60 a 69 | 70
a 79 | 80 a 89 | 90
a 99 | 100+ | Total | % | | Luftwaffe | 267 | 179 | 100 | 83 | 58 | 41 | 21 | 22 | 106 | 877 | 71,8% | | URSS | 141 | 35 | 15 | 7 | 1 | -- | -- | -- | -- | 199 | 16,3% | | Japão | 19 | 7 | 5 | 2 | 2 | 2 | 1 | -- | -- | 38 | 3,1% | | USAAF | 25 | 3 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 29 | 2.4% | | Finlandia | 9 | 6 | 1 | 1 | -- | 1 | -- | 1 | -- | 19 | 1,6% | | RAF | 16 | 2 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 18 | 1,5% | | Romenia | 3 | -- | 2 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | 6 | 0,5% | | Nova
Zelandia | 5 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 5 | 0,4% | | África
do Sul | 2 | 1 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 4 | 0,3% | | Hungria | 3 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 4 | 0,3% | | França | 4 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 4 | 0,3% | | Itália | -- | 3 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 3 | 0,2% | | Canada | 2 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 3 | 0,2% | | Eslováquia | 2 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 3 | 0,2% | | Espanha | 2 | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 3 | 0,2% | | Croácia | -- | 2 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 2 | 0,2% | | Tchecoslovaquia | 2 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 2 | 0,2% | | Australia | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 1 | 0,1% | | Irlanda | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 1 | 0,1% | | Polônia | 1 | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | -- | 1 | 0,1% | Total | 505 | 242 | 125 | 94 | 61 | 44 | 22 | 23 | 106 | 1222 | 100% |
Consequentemente,
se elaborarmos uma lista com os principais ases da II Guerra Mundial, o primeiro
piloto não germânico que aparece ocupa a 127ª posição. Mas o mais surpreendente
disso tudo esta no fato de que os caças alemães, a partir de 1941, atuaram invariavelmente
em condições de desvantagem numérica em todas as frentes, em uma proporção de
3/1 e em certas ocasiões na frente russa, chegou a 15/1. Na frente ocidental tiveram
que enfrentar formações gigantescas de bombardeiros anglo-americanos escoltados
por caças norte-americanos de última geração em desvantagem de até 6/1.
No entanto, a Luftwaffe também sofreu pesadas baixas. Apenas os aviões
de caça, os alemães perderam 44.000 aparatos, mais 11.000 correspondentes as outras
categorias. Outro dado estremecedor é que apenas 25% dos pilotos alemães promovidos
a partir de 1943, conseguiram sobreviver ao seu quarto vôo em missão de combate
e 53% dos 877 pilotos com mais de 20 vitórias não sobreviveram à guerra. Muitos
morreram duran te as últimas semanas, uma vez que a Luftwaffe lutou até o último
dia com os escassos recursos disponiveis. Voltando à foto que inicia este
texto, vale lembrar que de todos aqueles sete homens, apenas dois chegaram vivos
ao final da guerra: Schröer e Weissenberger.
Mais uma evidência de que a foto acima é muito mais que um mero registro histórico.
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