
Várias aeronaves se consagraram
na História em razão do trabalho de sua equipe de projetistas, a qual muitas vezes
ia além do solicitado pelo comprador, atingindo resultados magníficos como o famoso
De Havi-lland Mosquito e o consagrado General Dynamics
F-16. Outro exemplo seria o Heinkel He 219.
Apelidado de “Uhu” ou Coruja,
o He 219 foi concebido como um avião versátil, a exemplo do Junkers
Ju 88, mas no final de seu desenvolvimento acabou por suprir a demanda da
Força de Caças Noturna, sendo futura-mente criticado por seu uso extremamente
restrito. O Desenvolvimento A Ernst Heinkel AG era uma das
maiores e melhores fábricas aeronáuticas da Alemanha Nazista e essa fama expandia-se
ao ramo dos aviões militares. Na metade de 1940, o Escritório de Engenharia de
Rostock-Marie-nehe estava criando novos projetos a todo o vapor, inclusive um
em particular, o Projekt 1064 (P.1064).
Os
desenhos dessa criação diziam a respeito de um Kampfzerstörer (destróier de guerra),
ou seja, um avião capaz de desempenhar diversos papéis, podendo servir como caça
pesado, caça noturno, bombardeiro horizon-tal, bombardeiro de picada e avião de
reconhecimento. O futuro avião trazia uma série de grandes inovações, co-mo
o cockpit pressurizado, a fuselagem aerodinâmica, a cauda com leme duplo e inclinada
verticalmente, gigan-tesca envergadura, dois motores potentes, trem de pou-so
na forma de tripé, sendo dois conjuntos de rodas sain-do das naceles e um do nariz
achatado, sem contar ar-mas defensivas controladas eletricamen-te. | |
Obviamente
o Projekt 1064 era uma revolução dentro dos paradigmas da engenharia da época
e, portanto, o OKL prontamente o rejeitou por toda essa ousadia tecnológica. Mesmo
assim os técnicos da Ernst Heinkel AG, antes da negação total do projeto, previram
a adoção de dois motores Daimer-Benz DB 603, os quais davam, teoricamente, uma
grande e surpreendente potência à aeronave.  | Mas
a guerra continuava. Embora com todo sucesso da Blitzkrieg,
a Alemanha sofria ataques de bombardeiros ingle ses, principalmente durante a
noite. Para combater essas ameaças, o piloto da Luftwaffe Wolfgang
Falck elaborou as primeiras técnicas de combate noturnas, mas, com o tem-po,
a frota de Bf110´s e Ju 88´s não
supria a demanda das unidades de caça noturna. Assim, o General der Nachtjäger
Josef Kammhuber reque-reu, pessoalmente a Adolf
Hitler um avião que desempenhas se com destreza o papel de caça noturno, mesmo
que fosse dotado de “poderes especais”. Assim a OKL, ao receber as ordens
de Hitler, ordenou a Heinkel recomeçar o Projekt 1064, o qual foi redesignado
pa-ra a denominação He 219. O contrato foi assinado em outu-bro de 1941 e o desenvolvimento
da aeronave foi acompanha do de perto por Kammhuber (assim também o fez com a
construção do Focke-Wulf Ta 154 “Moskito”). |
| Poucas
modificações foram feitas na pauta original do P.1064, apenas se colocou células
de metralhadoras MG 131 acima e abaixo da porção anterior
da fusela-gem, assim como inseriu-se um compartimento para 2000kg de bombas. O
armamento frontal também foi reconfigurado, passando a receber dois canhões MG
151/20 de 20 mm e uma gôndola ventral para um ca-nhão MK
103 de 30 mm dotado de cano longo (poden do-se optar também por dois MG 151/15).
| |
 | A
fuselagem era moderna e seu perfil bastante aerodi-nâmico para época; os avançados
flaps eram extrema-mente eficientes e ficaram conhecidos como “Fowler-flaps” por
seu formato. Os motores eram dotados de ra diadores circulares o que dava a impressão
de serem radiais. O canopy escamoteável facilitava o acesso dentro da espaçosa
cabina para dois tripulantes. E esse, envidra- çado, dava aos tripulantes uma
excelente visão exter- | na. Para o tripulante de ré, foi montada
uma metralhadora MG 131 que realizava a defesa traseira. No centro de massa da
aeronave, foram instalados três tanques de combustível, totalizando 2.6 m³ de
gasolina.
O
Heinkel He 219V-1 fez seu vôo inaugural em 15 de novembro de 1942 e demonstrou
grande manobrabilidade e performance para o piloto de testes e os observadores
em solo. O teste revelou apenas um único problema: a estabilidade horizontal (“yaw/roll
stability”), o que levou os projetistas a aumentar a largura das asas e estender
um pouco a fuselagem. Em seguida foram feitos 29 outros testes com novas
opções de armamento, mas foram interrompidos quando a fábrica da Heinkel em Rostock
foi bombardeada. Desta forma, a produção foi transferida para Viena (Áustria)
e Mielec (Polônia). | |
Além
desses problemas, o P.1064 sofreu diversos ataques do RLM, inclusive do Generalfeldmarschall
Erhard Milch, o qual considerava a adoção do He 219
como desnecessária. Outro fator de peso era que, por razões escusas, Milch não
tinha interesse que a Junkers sofresse concorrência de outro fabricante. Testes
e Intrigas Com o avanço da guerra, o General Kammhuber
começou a pressionar o desenvolvimento do He 219. Nos fins de 1942, ele ordenou
que a Heinkel apresentasse cerca de 50 unidades até 1º de abril de 1943, mas quando
o prazo chegou ao fim, haviam sido construídos apenas cinco protótipos. O terceiro
protótipo, o He 219V-3, reali zou um combate simulado contra um Junkers
Ju 188 na primeira semana de janeiro de 1943 e os resultados impressionaram
os pilotos. Como Milch apreciava muito o Ju 188 e o Bf 110,
ele omitiu a opinião dos pilotos de testes ao relatar o evento ao RLM. Mesmo diante
dessa grande dificuldade, as necessidades do esforço militar, levaram a Luftwaffe
fazer um pedido de 127 aeronaves à Heinkel AG.  | Em
25 de março de 1943, o He 219V-4 (o quarto protóti po) foi testado por pilotos
da Nachtjagdwaffe, sendo equi pado
com sistema de radar FuG 212C-1 “Lichtenstein”. Nessa ocasião, os comandos foram
assumidos pelo Gru-ppenkommandeur
do I/NJG 1, o Major Werner
Streib que realizou dois combates simulados contra um Junkers
Ju 88S e um Dornier Do 217N, ambos pilotados pelo
Oberst Wiktor Von Lossberg do Technischstaff do NJG 1. Mesmo tendo perdido
o “duelo” para Lossberg, Streib se impressionou com o desempenho do aparelho e
o apeli-dou de “Uhu” ou Coruja de Rapina na língua germânica. |
As
primeiras unidades de pré-série do He 219A-0 começaram a serem entregues em maio
de 1943, apresen-tando-se em duas versões: a He 219A-OR-1 e a He 219A-0R-2. A
primeira era equipada com canhões MK 108 de 30mm de
fogo lento, enquanto a variante R-2 apresentava armas MK 103 também de 30mm, mas
de fogo rápido e maior peso. Ambas tinham canhões de 20mm nas asas (geralmente
MG 151). O piloto operava esse arsenal frontal a partir de um manche com duplo
controle, tendo à sua disposição vários botões que controla-vam o armamento independentemente,
possibilitando diversas combinações. Um He 219 da pré-série foi espe cialmente
equipado com assentos ejetáveis para ambos os ocupantes, como forma de teste.
Em Combate Os aviões da pré-série foram destinados ao I/NJG
1 de Werner Streib, baseado em Venlo na Dinamarca.
A primeira missão de combate ocorreu na noite de 11/12 de junho de 1943. Nela,
o próprio Streib e seu Bord funker Fischer
decolaram com o seu He 219A-0 “G9+FB” e abateram nada menos que cinco bombardeiros
britânicos. Entretanto,
ao retornar para sua base, Streib viu as lu zes de aterrissagem no último momento
e tentou, mes mo assim, fazer o pouso, acionando os flaps e inclinan do o nariz
do avião. Mas o circuito elétrico entrou em pane, colocando os flaps na
posição normal: o avião se chocou tão violen-tamente no solo que o trem de pouso
foi destruído. | |
 | Embora
a tripulação tenha saído sem quaisquer arranhõ es, o ocorrido serviu para Erhard
Milch novamente criti-car o projeto. Ao visitar Streib, o Marechal
afirmou: “Se você tivesse usado outra aeronave, você teria abatido mais inimigos
e ainda por cima o acidente não ia acontecer”. Mesmo diante dessas palavras
desencorajadoras, o He 219 mos trou-se bem sucedidos no papel de Caça Noturno.
Em apenas seis missões de combateu, a nova arma abateu 20 bombardeiros
da RAF, incluindo seis Mosqui-tos, avião que nunca
havia sido abatido durante a noite, fato que mostrou uma lição a Milch. |
O
estrondoso sucesso do Heinkel He 219 levou aos pilotos a pediram mais aeronaves.
A Heinkel atendeu ao chamado e colocou as unidades de produção de Marienehe e
Oranienburg a disposição do He 219. Os enge-nheiros previram uma produção de 100
aviões por mês, mas, diante dos bombardeios aliados, nunca se ultra-passou a margem
de 12 aparelhos mensais. Schräge Musik e o Fim do He 219
Nos meses seguintes várias versões do He 219 foram construídas, mas poucas delas
foram fabricadas em quantidades consideráveis. Numa linha geral, elas tinham as
mesmas características, como a instalação do poderoso radar FuG 220SN-2 frontal,
a remoção do armamento traseiro (salvo o A-5/R-4), radares traseiros, antenas
de rádio sofisticadas, assentos ejetáveis e, obviamente, o terrível Schräge
Musik. | O
Schräge
Musik - tradução para “Jazz Music”, numa alusão ao ritmo acelerado das bandas
de swing norte-americanas - era uma arma impressionante. Tratava-se de
dois canhões MK108 de 30mm (com 100 cartu-chos cada)
instalados no dorso do avião, mais preci-samente na porção traseira da fuselagem.
As peças eram inclinadas no ângulo de 65º e disparavam contra a região ventral
dos bombardeiros ingleses, uma posi ção de ataque bastante segura para os pilotos
alemã es. A arma foi desenhada em meados de 1941 pelo escritório de engenharia
de Tarnewitz e testado pelo às Rudolf Schönert.
Os He 219A-5 receberam o apa-relho e o usaram satisfatoriamente durante a guerra.
| |
No
verão de 1944, os relatórios do RLM indicavam que a atual Luftwaffe não seria
capaz de conter as grandes formações aliadas. Em 1º de novembro de 1944, o Ministro
dos Armamentos Albert
Speer (1905-1981) lançou
 |
o Notprogramm (Programa de Emergência) que estabe-lecia prioridades ao desenvolvimento
de caças mono-postos a jato. Novamente Milch
entrou em cena, afirmando que era impossível manter a produção do
He 219 diante das or dens de Speer. Assim, a produção desse avião foi ces-sada
imediatamente, quando a Heinkel contabilizava 288 aparelhos fabricados. |
O
Heinkel He 219 jamais ganhou a prioridade que os pilotos de combate demandavam.
Aliás, o aeroplano ja-mais chegou a equipar um Gruppe
completo, apresentando alguns exemplares espalhados pelo I/NJG 1, NJGr 10 e Erg./JG
2. Por volta de junho de 1944, o I/NJG 1 tinha 20 Uhus das versões A-2 e A-5,
usados em incur-sões noturnas sobre a Inglaterra, a maioria perdida em combates
contra Mosquitos. Os últimos aparelhos fo-ram usados
até o final da guerra como interceptadores noturnos. Conclusão
Mas, qual a conclusão que se pode tirar do projeto do Heinkel He 219?
Não há dúvida que, para um desenho de 1940, tinha méritos excepcionais os quais,
em uma sociedade mais ordenada poderiam ter se desenvolvi-dos de modo a fazer
que o avião assumisse inúmeros papéis, tal como aconteceu com o Mosquito britânico.
Os
inúmeros subtipos apenas se prestaram para diluir o esfor ço de produção do avião
principal e a falha da Daimler-Benz e da Junkers de criarem motores adequados,
liquidou as versõ- es avançadas que teriam mantido o He 219 na frente de bata-lha.
Já para a aeronave em si as opiniões estão divididas. De acordo com Gebhard
Aders (autor de “Geschichte der deustchen Nachtjagd”), o He 219 “nunca alcançou
o desem-penho que constava em seu manual. Com os tanques cheios e armamento completo,
o He 219 não subia além dos 8.000m (...) Com Lichtenstein e os abafadores de chamas
sua veloci-dade máxima caia para cerca de 500km/h (...)”. Por outro
lado, o mesmo autor afirma que “o He 219 era o úni co caça noturno alemão que
ainda conseguia ascender usan-do um único motor e dar meia volta para tentar uma
nova ater rissagem”, um crédito que é confirmado por muitos pilotos do Uhu.
| |
 | Por
sua vez, o maior de todos os pilotos de testes alia-do, Capitain Erich M. “Winkle”
Brown, que voou vários He 219´s capturados, escreveu que o avião “era de al-gum
modo superestimado (...) Ele sofria daquela que talvez o pior defeito que um bimotor
pode ter: seus mo tores não eram potentes. Esse defeito torna a decola-gem uma
manobra crítica na hipótese de falha de um motor, e uma aterrissagem nas mesmas
condições podia ser igualmente perigosa.” |
Essa performance
marginal é um tanto surpreendente quando lembramos que o DB603 era o maior dos
moto-res de 12 cilindros em “V” invertido usados pela Luftwaffe, com capacidade
cúbica 65% maior do que a do Rolls-Royce Merlin. O problema repousa inteiramente
na quantidade de equipamentos e sistemas que o Uhu tinha que transportar: um típico
He 219A-7 pesava mais vazio do qualquer caça noturna Ju88,
e mais do que um Mosquito completamente carregado!
Atualmente existe apenas um He219 sobrevivente em todo o mundo. Trata-se
do He
219A (W.Nr.290202) G9+QK ou GI+KQ que recebeu os códigos norte-americanos
FE-614 (posteriormente T2-614) e encontra-se em processo de restauração
no NASM em Silver Hill/EUA.
| Histórico |
| Séries:
| | |
Categoria(s): |
| | Caça
pesado: A-3,B-2 Caça noturno: A-0,A-5,A-6,C-1 | |
| Tripulantes:
| | |
Primeiro Vôo: |
| |
Primeira entrega: |
| |
Última entrega: |
|
| Ficha
Técnica - He 219 A-5 | |
Motor: |
| |
Potência: |
| |
Dimensões: |
| |
Envergadura:...................................... | 18,50
m | |
| Comprimento:..................................... | 16,34
m | | | Altura:................................................. | 04,15
m | | |
Pesos: |
|
| Vazio:.................................................. | 08.345
kg | |
| Máximo:............................................. | 15.100
kg | | |
Desempenho: |
|
| Vel. cruzeiro:...................................... | |
| |
Vel. máxima:...................................... | 615
km/h | | |
Vel. ascensão:.................................... | |
| |
Autonomia:......................................... | 2.850
km | | |
Teto serviço:...................................... | 9.800
m | | |
Armamento(s): |
|
| 2 x MG151 de 20mm montado numa
célula ventral 2 x MG151 nas asas 2 x MK108 na porção dorso-traseira em
ângulo de 65º (Schräge Musik) | |  |
|
|