A despeito de, no final, ter perdido a competição para o projeto do Prof. Willy Messerschmitt, o He 112 não era uma avião ruim, ao contrário do que se foi afirmado na época dos testes. Afinal, vários deles ainda continuavam voando pelos céus da Europa mesmo uma década após seu vôo inaugural. Mesmo tendo caído na obscuridade após a adoção do Bf 109, o He112 nos traz uma interessante história de desenvolvimento e uma admirável ficha de serviços.
O Nascimento do He112Durante o ano de 1933 o Technisches Amt (Departamento Técnico do RLM) concluiu uma série de estudos a respeito do futuro do combate aéreo. Os resultados das pesquisas refletiram num novo tipo de caça monopos-to (Verfolgungs-Jagdeinsitzer) que deveria possuir uma série de características: velocidade máxima de 400 km/h a 6000m, autonomia para 90 minutos de vôo e um armamento composto por, pelo menos, três metralha-doras (com 1000 cartuchos cada) e um canhão de 20mm. Fora isso, o arrasto alar deveria ser menor do que 10kgf/m² a fim de possibilitar maior manobrabilidade e agilidade nas curvas ou manobras mais fechadas.
A inspiração para os projetistas do He 112 era um outro avião da família, o He70 “Blitz”. Assim como o He70, o novo aparelho era inteiramente construído de metal, tinha asas fixadas por rebites abaixo da fuselagem mo-nobloco. O trem de pouso era retrátil e sua bitola larga proporcionava pousos e decolagens bastante seguros. Além disso, a visibilidade era excelente, mas a cabina aberta prejudicava em muito as funções do piloto.
Disputa AcirradaO primeiro protótipo do He112, isto é, o He 112V1 foi finalizado em 1º de setembro de 1935 e era equipado com um propulsor Jumo 210 de 510 kw (695 hp) de potência, o qual era na realidade uma cópia do Rolls-Royce Kestrel Mk.II.S. Os testes iniciais mostraram que o arrasto era bem maior do que os cálculos previam e, conseqüentemente, a velocidade máxima ficou abaixo do esperado. Mesmo assim, o V1 foi enviado para Travemünde para ser testado por pilotos do RLM no mês de dezembro desse mesmo ano.
Além disso, outros problemas foram registrados nos testes: 1) o Bf109 era muito mais rápido do que seu adver sário em todas as altitudes e possuía maior agilidade e manobrabilidade; 2) durante os testes de “spin” o avião de Messerschmitt saiu-se muito bem, enquanto o He 112V1 acidentou-se. Reparos foram feitos rapidamente, mas, numa outra tentativa, o aparelho novamente caiu e teve que ser enviado para fábrica em abril para rece-ber novas asas e consertar a fuselagem; 3) a espionagem germânica revelou que os ingleses desenvolviam um caça semelhante ao Bf109 - o futuro Spitfire - e o RLM acabou aprovando-o. Em outubro de 1936, após vários testes com a “série 0” das duas aeronaves, o contrato foi celebrado com a Messerschmitt.
Principais VersõesMesmo com a derrota em Travemünde, a Heinkel continuou a fabricar o He112 em sua pré-série. Seis He 112 A-0 foram construídos, sendo numerados de A-01 a A-06 e todos eram equipados com motores Jumo 210C. O RLM havia enviado uma ordem à fábrica da Heinkel para que todos as unidades da pré-série fossem completa-das e que o design dos He112 passasse por uma revisão a fim de continuar a produção. Surge, então, um avi- ão com novas características aerodinâmicas, denominado He 112B.
O próximo protótipo foi o He 112V9, que voou pela primeira vez em julho de 1937. Esta aeronave era propulsio-nada por um Jumo 210E de 680 hp e pode ser considerado o “protótipo da série B”, uma vez que o V7 ainda
Contratos EstrangeirosEmbora o He112 tivesse agradado o RLM, o próprio Ernst Udet informou a Heinkel que a Messerschmitt havia sido contratada para fabricar o novo caça monoposto em 1936. Ele propôs aos executivos da fábrica que ven-dessem o He112 para outros países uma vez que a Romênia, o Japão e a Turquia também estavam substituin-do seus biplanos por aeronaves mais modernas. Assim o protótipo V9 foi experimentado por pilotos de testes do mundo todo e foi mandado pela Europa para participar de shows aéreos e feiras, ganhando milhares de admiradores e pedidos de produção.
Após o sucesso do He112 na Guerra Civil Espanhola, a “Aviación Nacional” encomendou 12 aviões à Heinkel no início de 1938, seguidos de outros seis. Todos foram entregues entre novembro de 1938 e abril de 1939. Ainda no final de 1937, o Comandante da Luftstreiktkräft (Força Aérea da Áustria), o Generaloberst Alexander Löhr, enviou uma delegação para testar o He112. O piloto de testes Hans Schalk voou com a aeronave de Heinkel e com o Bf109, impressionando-se muito com a manobrabilidade do primeiro. Em 20.12.1937, um mês depois dos testes, os austríacos pediram 44 He 112B´s com suportes para seis bombas THM 10/I, quan tidade mais tarde reduzida para 36 unidades. O contrato nunca foi cumprido, pois a Áustria desapareceu de-pois do Anschluss em março de 1938.
A história de contratos mal sucedidos foi se repetindo com a Luchtvaartafdeling (Holanda), a Magyar Királyi Honvéd Légier (a Força Aérea Húngara, que recebeu apenas seis exemplares por razões políticas), Turquia, Bélgica e Suíça. Apenas a Fortelor Aeronautica Regalã ale Romana (Força Aérea da Romênia) conseguiu receber 30 aeronaves no final de setembro de 1939. No início de 1940, a guerra já tinha começado e havia melhores modelos no mercado - incluindo o Heinkel He100 - e nenhum país estava interessado no He112. A produção foi encerrada com um total de 98 aparelhos construídos, sendo 85 da série B.
O He112 na Legião CondorEnquanto o He112 estava perdendo a concorrência para o Bf109, a Heinkel re-equipou o protótipo V6 com um canhão de 20mm. O Technisches Amt se impressionou muito com isso, pois, na época, a maioria dos carros de combate era equipada com esse armamento e num avião podia se tornar uma arma mortal.
Apelidado de Kanonenvogel, o He 112V6 tornou-se o avião do Oberleutnant Günther Radusch (futuramente às da Nachtjagdwaffe com 65 vitórias e ganhador das Folhas de Carvalho) que começou a voá-lo em dezembro de 1938, a partir da sua base em Tablada. Ele realizou missões de ataque ao solo com o V6 até março de 1937, quando o aparelho foi enviado para o famoso Jagdgruppe 88, estacionado em Almorox, perto da cidade de Toledo.
Em virtude do sucesso, a Heinkel rapidamente enviou o He 112V8 e o He 112V9 para o JGr 88 na Espanha. O V8 acidentou-se em julho de 1938 e o V9 permaneceu na frente de combate realizando missões de caça-bom-bardeiro até o final da guerra.
A Serviço da LuftwaffeOs primeiros estágios da expansão do III Reich foram caracterizados por diversas anexações de territórios vizinhos, como a Áustria e os Sudetos. Nessa época a probabilidade de ocorrer um conflito armado era grande e todo material bélico disponível era absorvido pela Wehrmacht.
Os He 112B que não foram vendidos ou destruídos em acidentes ficaram estacionados numa pista de pouso perto da fábrica da Heinkel nas mãos de pilotos civis contratados. Essas aeronaves eram incumbidas de defender a empresa de possíveis ataques aéreos, mas nunca viram ação nesse papel. Gradativamente, eles foram vendidos para outras nações e substituídos pelo He 100.
ConclusãoA história do Heinkel He112 é repleta de controvérsias. Vários historiadores afirmam que sua derrota para o Bf109 tenha tido razões políticas e não necessariamente técnicas. O projeto dos irmãos Günther foi elogiado por dezenas de pilotos das mais diversas nações, inclusive o finlandês Eka Magnusson que afirmou categori-camente: “...o He112 foi o melhor avião que já pilotei”.
Trata-se
de uma grande questão. Mas é certo que Ernst Heinkel nunca aceitou a derrota para
a fábrica de Messerschmitt, culpando o diretor técnico Heinrich Hertel
dos problemas enfrentados pelo desenvolvimento. Hertel acabou se demitindo depois
de muitas pressões vindas de Heinkel, passando a integrar a equipe de projetistas
da Junkers em maio de 1939.
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