| Poucos debates podem desencadear a
tempestade de emoções e a euforia do que a discussão causada pela simples questão
"qual foi o maior caça da Segunda Guerra Mundial". Quais critérios podem definir
"o maior"? Performance? Sucesso em combate? Nem tente perguntar para um veterano
- ele, invariavelmente, vai eleger o "seu" avião. Uma das marcas de
um grande caça é a lealdade que ele acaba por adquirir de seus pilotos e de estudiosos,
e aviões como Hawker Hurricane, Grumman F6F Hellcat,
Lockheed P-38 Lightning, Republic
P-47 Thunderbolt, Focke-Wulk Fw190, North
American P-51 Mustang, Yakovlev Yak-3 e Mitsubishi
A6M Zero possuem seus defensores fanáticos. O apego de alguns entusiastas até
mesmo transcende a lealdade e pode ser descrita como uma paixão cega por estes
aparelhos. A esta lista devemos inevitavelmente adicionar o Messerschmitt
Bf 109. Talvez ele não fosse o melhor em termos de performance, e mesmo seus pilotos
admitiriam que ele não era o mais seguro ou mais confortável avião de se voar.
Mas os resultados que este aparelho obteve em combate, do início ao fim, foi monumental,
sendo sempre a primeira escolha dos maiores ases da história. O Messerschmitt
Bf 109 foi um espelho da própria Luftwaffe. Após uma série de sucessos iniciais,
em 1940 foi submetido à dura prova das Batalhas
da França e da Inglaterra, para protagonizar,
logo depois, os efêmeros triunfos e dolorosas tragédias nos campos de batalha
da África e da URSS. Mais tarde, na defesa
do Reich, o Bf 109 combateu até o fim contra um inimigo cada vez maior e mais
poderoso. Comparando o Bf 109G com o Brewster B-239, que ele havia voado
previamente, o maior ás finlandês da II Guerra, Eino Ilmari Juutilainen, disse
que "enquanto o Brewster era um avião de cavalheiros, o Messerschmitt era uma
máquina de matar". Esta foi a mesma impressão que teve o piloto de teste
da Marinha Real Britânica Eric Brown, que voou em um outro Bf 109G capturado,
em 1944: "O Bf 109 sempre trouxe à minha mente o adjetivo SINISTRO. Tem sido sugerido
que ele reflete as características da nação que o concebeu e, para mim, ele sempre
pareceu letal de qualquer ângulo, no solo ou no ar; assim, sempre que eu entrava
em seu cockpit claustrofóbico, eu me sentia letal!". Qualquer um que
voou o Bf 109 - e qualquer um que o tenha enfrentado em combate - provavelmente
concordaria esta observação. O P-47 inspirava surpresa.
O Zero conquistou lealdade. O Spitfire ganhou devoção.
O Bf 109 exigia respeito. O Homem e
a sua Obra-PrimaO homem por detrás desta máquina, Wilhelm Emil ("Willy")
Messerschmitt, nasceu em 26 de junho de 1898, em Frankfurt-am-Main, filho de um
comerciante de vinhos. Por volta de 1931, ele era co-diretor da Bayerische Flugzeugwerke
Allgemeine Gesellschaft (BFW), cuja falência seria decretada em 1º de junho daquele
ano. Esta empresa seria revivida em 01.05.1933, mas sob a direção de um dos grandes
adversários de Messerschmitt; Erhard Milch, que havia
se tornado uma figura política de destaque entre os nazistas.
Em meados de 1933 Messerschmitt começou a trabalhar em um
avião monoplano de transporte leve (4 passageiros), de asa baixa e com trem de
pouso retrátil. Completado na primavera de 1934, o BFW M.37, mais tarde redesignado
Bf 108 Taifun (Tufão), possuía uma performance impressionante,
o que lhe assegurou um contrato de produção. Ainda antes do primeiro
vôo do Bf 108, Messerschmitt soube que o Reichsluftfahrtministerium (RLM - ou
Ministério do Ar) estava preparando uma licitação para um novo caça, que deveria
utilizar o motor Junkers Jumo-210 e ser capaz de atingir uma velocidade mínima
de 450 km/h. Embora tenha sido boicotado por Milch no início desta concorrência
(apenas Arado, Heinkel, Fieseler e Focke Wulf foram convidadas oficialmente),
a intervenção direta de Hermann Göring, garantiu a
participação da BFW e de Messerschmitt. | |
Willy Messerschmitt e seu time de projetistas na fábrica da BFW em
Augsburg - principalmente Robert Lusser, Richard Bauer e Hubert Bauer - trabalharam
duro para incorporar ao Taifun as alterações necessárias para torná-lo um caça
monoposto. Nesse meio tempo, enquanto trabalhavam no protótipo (ou Versuchs),
a Alemanha oficialmente anunciou a criação da Luftwaffe ao mundo em 01.03.1935,
e, quinze dias depois, Adolf Hitler publicamente renunciou às restrições do Tratado
de Versailles, o que abriu caminho para o rearmamento alemão.
 | O
protótipo Bf 109 V1 foi completado em agosto
de 1935, e os vôos de avaliação começaram no centro de testes do RLM em Rechlin,
inicialmente utilizando um motor Rolls-Royce Kestrel de 675 H.P. no lugar do Jumo.
O Bf 109 V2, completado em outubro daquele ano, já utilizava o motor
Jumo 210A e uma fuselagem reforça-da; o Bf 109 V3, entregue em junho de 1936,
foi o pri-meiro a ser armado com um par de metralhadoras MG
17 de 7,92mm sobre o capô do motor. | A despeito
de sua pesada carga alar, que limitava sua manobrabilidade em baixas velocidades,
a superiorida-de do Bf 109 era tal que rapidamente desclassificou o Arado
Ar 80 e o Focke Wulf Fw 159 desta concorrência, restando apenas o Heinkel
He-112. Uma encomenda de dez Bf 109B-0,
de pré-produção, foi feita, mas dois eventos que ocorreram nesta época alterariam
definitivamente o destino do avião de Messerschmitt.
O Batismo de FogoEm junho de 1936 viu-se o pedido da Real Força Aérea
britânica (RAF) para a construção de 600 caças Hawker
Hurricane e 310 Supermarine Spitfire. Este último
havia voado pela primeira vez em 05.03.1936, e possuía características muito semelhantes
ao Bf 109 V1. Essa ameaça em potencial dos novos caças ingleses, apressou os esforços
de desenvolvimento do avião alemão, e o armamento introduzido no Bf 109 V4 foi
aumentado para três MG17.
O outro evento crucial foi a revolta dos rebeldes nacionalistas na Espanha,
sob o comando do General
Fran-cisco Franco y Bahamonde, contra o governo Republicano, seguido
do envio de uma frota de aviões alemães para permitir o transporte das
tropas rebeldes, então isoladas no Marrocos, em julho de 1936. Era o início
da Guerra Civil Espanhola.
Em novembro daquele mesmo ano, voluntários ansiosos
da Luftwaffe foram reunidos na chamada Legião Condor, para lutar pelos nacionalistas
de Franco. À esta altura a União Soviética também havia enviado aeronaves
e pilotos para ajudar os republicanos, incluindo biplanos Polikarpov
I-15 e monoplanos I-16 - o primeiro caça de asa baixa
e trem de pouso retrátil. Para desespero inicial dos alemães, ambos os caças soviéticos
superavam com facilidade os obsoletos biplanos Heinkel He 51.
Em conseqüência, a Luftwaffe apressou o desenvolvi-mento
do Bf 109 V4, enviando sua primeiras unidades para a Espanha ainda em dezembro
de 1936, sendo seguidos pela primeira versão de produção em série: o Bf
109B-1 (conhecidos pelo apelido de "Berta"), que começaram a deixar as linhas
de montagem em fevereiro de 1937. Os céus da Espanha provariam ser um campo de
testes perfeito para se refinar o projeto do Bf 109 como um caça - bem como as
táticas a serem utilizadas para maximizar seu desempenho. |
|
A primeira unidade operacional na Espanha, o 2º Staffel
do Jagdgruppe 88 (2./JGr88), sob comando
do Ober-leutnant Günther
Lützow, recebeu seus novos caças em março de 1937. Os primeiros vôos foram
inicialmente marcados por acidentes, mas os pilotos rapidamente aprenderam a superar
os desafios inerentes à decola-gem e pouso do novo avião, que tendia a tombar
sobre sua própria asa esquerda, compensando este "defeito" com o leme traseiro
- uma "excentricidade" que permaneceu até a última versão do caça. Passada a fase
de adaptação, as primeiras operações foram conduzidas na localidade de Brunete
em 08 de julho de 1937. Os Bertas e seus principais rivais, o I-16,
eram, a princípio, equivalentes. O 109B era mais rápido em vôo nive-lado e em
mergulho, enquanto o avião soviético eram melhor em velocidade de ascensão e manobrabilidade.
Em suas memórias o ás das forças republicanas Andres Garcia Lacalle comentou que
o I-16 era superior ao Messerschmitt até uma altitude
de 3000m, mas, a acima disso, o caça germânico era imbatível.
 | O
Bf 109B sentiu o gosto de sangue pela primeira vez em 08 de julho de 1937, quando
o Leutnant Rolf Pin-gel e o Unteroffizier
Guido Höness foram creditados com duas vitórias correspondentes a um par de bom-bardeiros
Tupolev SB-2. Uma série de combates se seguiram em 12 de julho, resultando no
abate de dois Aero A-101´s por Höness, um SB-2 e um I-16 por Pin-gel e outros
dois I-16´s pelos Feldwebels Peter Bod-dem
e Adolf Buhl. Höness foi abatido e morto enquan to atacava outro SB-2 naquele
mesmo dia - o primeiro de milhares de pilotos de Bf 109 que morreram em combate.
| Durante a segunda Campanha de Ebro, entre julho e outubro
de 1938, o Oberleutnant Werner
Mölders do 3./Jgr88 desenvolveu uma das mais importantes formações de combate
de caças. Ao combinar dois Rotte - a unidade
básica de elementos dentro de um Staffel
- para formar um time flexível e interdependente, ele criou uma formação infinitamente
ofensiva e defensiva que denominou de Vierfingerschwarm ("formação de quatro dedos")
ou simplesmente Schwarm. Esse conceito fundamental
se tornaria a base de várias outras variações. Mölders, por sua vez, estava destinado
a se tornar o maior ás da Legião Condor , com 14 vitórias confirmadas, e uma das
maiores lendas da II Guerra Mundial, sendo o primeiro piloto de caça a ultrapassar
a marca de 100 vitórias. A Guerra
Civil Espanhola terminaria somente em maio de 1939, com a vitória dos nacionalistas
de Franco. Neste contexto, o suporte dado pelos pilotos da Legião Condor foi fundamental
para seu triunfo, ao mesmo tempo que a Luftwaffe havia se tornado a Força Aérea
com o maior número de pilotos com experiência em combate do mundo ao final dos
anos 30. Uma diferença que seria fundamental nos primeiros anos da II Guerra Mundial.
Aprimoramentos e a Mudança de NomeEnquanto
o Bf 109 começava a escrever sua lenda sobre a Espanha, seu potencial também estava
sendo de-monstrado ao mundo na Suíça. No 4º. Encontro Internacional de Vôo, que
ocorreu em julho e agosto de 1937 em Zurique, Bf 109B´s ganharam os quatro primeiros
prêmios. De volta à Alemanha, o Bf 109 V13, usando uma versão mais incrementada
do motor Daimler-Benz DB 601, com 1650 H.P., atingiu um novo recorde de velocidade
em 08.11.1937, ao atingir 608 km/h. Ernst Heinkel, cujo He
112 estava rapidamente perdendo a competição para o Messerschmitt, respondeu
com um novo projeto, o He 100. Nos comandos de um He 100
(o V3) , o Inspetor-chefe da Luftwaffe, o ás da I Guer
ra Mundial Ernst Udet atingiu a velocidade de 631
Km/h em 06.06.1938 e, um He 100 V8, pilotado por Hans Dieterle, alcançou fantásticos
742 km/h em 30 de março de 1939. Para não ser superado, Messerschmitt
introduziu grandes mudanças em seu projeto básico, produzindo o que denominou
Me 209 V1, com um motor especial DB 601ARJ, que podia incrementar sua potência
de 1500 para 2300 H.P., por cerca de um minuto, elevando a velocidade máxima para
mais de 750 km/h em 29.04.1939. À esta altura, o Bf 109 já estava em produção
normal e o Ministério de Propaganda Nazista falsamente designou o novo avião recordista
de Bf 109R (tornando-o uma variante menos radical do caça de produção), enquanto
o Ministério da Aeronáutica (RLM) finalmente comunicaria à Heinkel que esta não
mais poderia tentar suplantar o Messerschmitt. Como resultado, aquele recorde
de velocidade para aviões a pistão permaneceria imbatível pelos próximos 30 anos.
Guiado pelas lições aprendidas na Espanha, Willy
Mes serschmitt produziu uma rápida sucessão de caças melhorados. O Bf
109C-1 (Apelidado carinhosamente de "Cäsar"), era equipado com um motor à
injeção de combustível Jumo 210Ga e quatro metralhadoras. Che-gou à Espanha na
primavera de 1938, seguido pelo Bf 109C-2, que introduziu a quinta metralhadora,
montada no motor, e disparando pelo cubo da hélice. O Bf
109D "Dora" - cinco dos quais juntaram-se ao 3./ JGr88 da Legião Condor em
agosto de 1938 - combina-va o armamento do C-1 com a motorização do B-1. |
|
Enquanto isso, os experimentos de Messerschmitt com os motores dotados de injeção
de combustível da Daimler-Benz (o DB600 e o DB601) demonstraram problemas no sistema
de arrefecimento do motor, o que levou à decisão de mudar os dois radiadores nas
asas do avião, deixando apenas o sistema de resfriamento de óleo sob a fuselagem.
De outro lado, o protótipo V14, incorporava o motor DB 601A (com uma hélice de
três pás que seria característica dos Bf 109 até o fim da II Guerra) e o armamento
foi melhorado para duas metralhadoras MG17 sob a capota
do motor e dois canhões MG FF de 20mm nas asas. O resultado
foi colo-cado em produção no início de 1939 sob a denominação de Bf
109E-1, logo chamado de "Emil" por seus pilo-tos.
 | A
nova designação do avião (mudando as iniciais de Bf para Me), tem causado muita
confusão e controvérsia entre os historiadores há décadas. Esta mudança refle-tia
a compra das ações da BFW por Willy Messersch-mitt no final de 1938, que passou
a ser sócio majoritá- rio do empreendimento. Assim, o velho prefixo Bf foi mantido
para o Bf 108, e para as versões Berta, Cäsar e Dora do
109, e para os caças pesados bimotores Zerstörer
Bf 110 versões A e B. Todas as demais cria- ções
de Messerschmitt, a partir do Bf 109E e Bf 110C, | usaram o prefixo
"Me". Contudo, muitos historiadores e estudiosos utilizam o antigo prefixo Bf
quando se refe-rem a qualquer um destes tres modelos, não importando a
versão, deixando o "Me" para os projetos posterio-res: Me
262, Me 163, Me 210, etc
Pouco depois do Bf 109E-1 ter entrado em produção, Messerschmitt desenhou
uma versão naval com a enver gadura aumentada, estrutura reforçada e um gancho
de pouso. Denominado Bf 109T (de Träger, ou "portador"), era destinado para ser
usado a bordo do porta-aviões "Graf Zeppelin". O projeto foi interrompido quando
a cons trução do navio foi suspensa em 1940, mas algumas unidades do T-1 e de
sua variante caça-bombardeiro T-2, viram uso operacional em bases terrestres até
o verão de 1942. Tempos de Guerra
A Luftwaffe tinha 946 Bf 109´s operacionais quando a Alemanha invadiu a Polônia
em 1º de setembro de 1939, dando início à II Guerra Mundial. Além destes, cerca
de 300 Emil´s foram exportados para a Suíça, Iugoslávia, Romênia e Espanha entre
abril de 1939 e abril de 1940. Três outros Bf 109E-3´s foram embarcados para o
Ja-pão para avaliação no início de 1941. Os japoneses, contudo, logo abandonaram
a idéia de produzir os Emil´s sob licença, mas os Aliados consideraram seriamente
a hipótese disto ocorrer por um bom tempo. Duas destas ordens de exportação
causaram incidentes curiosos mais tarde. Em maio de 1940, três bombar-deiros Heinkel
He 111 que invadiram o espaço aéreo suíço foram derrubados por Bf
109E´s da Força Aérea Helvétia. O Reichsmarschall
Hermann Göring reagiu deliberadamente enviando formações
de bombardeiros franceses capturados sob a Suíça, escoltados por bimotores Bf
110. Os embates seguintes resultaram na perda de sete outros aviões alemães
e três aeronaves suíças, o que levou Göring a desistir de outras missões. Mais
tarde, quando os alemães invadiram a Iugoslávia em abril de 1941, a Luftwaffe
novamente teve de lidar com adversários equipados com Bf
109E´s, habilmente pilotados por pilotos iugoslavos. Os Emils estiveram
à frente das ofensivas alemãs contra a Dinamarca, Noruega, Bélgica, Holanda e
França em 1940, superando oponentes como o Fokker D.XXI holandês, o Morane-Saulnier
MS.406 francês e o Hawker Hurricane britânico.
Os Experten alemães finalmente encontraram
um adversário à altura sobre as praias de Dunquerque em maio de 1940, quando encontraram
pela primeira vez o Spitfire da RAF. A rivalidade
entre es-tes dois caças continuaria ao longo da Batalha
da Inglaterra e durante toda a guerra. O Messerschmitt tinha a vantagem de
uma melhor performance às grandes altitudes, bem como um ótimo desempenho graças
ao mo-tor dotado de injeção de combustível, que permitia um funcionamento mesmo
em vôo invertido, o que não era muito recomendado nos Spitfires movidos pelo motor
Rolls-Royce Merlin. A manobrabilidade do caça britânico era um pouco melhor, mas
a principal desvantagem do Bf 109 estava em sua reduzida autonomia de vôo. A-pós
20 ou 30 minutos de vôo sobre um alvo situado na Inglaterra, um piloto alemão
teria que abandonar a luta ou ele ficaria sem combustível antes de conseguir chegar
às bases no outro lado do Canal da Mancha.
| Ainda antes do Bf 109E iniciar sua luta malfadada pe-lo espaço
aéreo sobre a Inglaterra, a equipe de Willy Messerschmitt já trabalhava em um
novo e aerodina-micamente melhor modelo, na primavera de 1940. Um Bf 109E foi
equipado com um motor DB601E-1 de 1300 H.P., e apresentava um novo radiador simétrico
e uma tomada de ar maior ao lado esquerdo do motor Adotou também asas de ponta
arredondada, spinner (cone da hélice) maior, ailerons tipo Frise e flapes sim
ples, em substituição ao fendidos. Uma bequilha total mente escamoteável entrou
no lugar da fixa anterior, e o avião recebeu um estabilizador cantiléver (sem
os | |
montantes). Depois do primeiro teste de vôo em 10 de julho de 1940, o
novo modelo foi ainda mais refinado, e o armamento modificado. Denominado
Bf 109F-0, o modelo definitivo foi testado
no fim de 1940 e aceito pelo RLM. A produção do Bf 109F-1, que utilizava um DB
601N de 1.200 H.P. e um canhão MG FF de 20mm no cubo
da hélice e duas MG17 de 7,92mm sob a capota do motor,
começou a alcançar o status operacional em janeiro de 1941. A versão F-2 do "Fritz"
- como era chamado pelos seus pilotos - substituiu o MG FF por um canhão de maior
velocidade MG 151 de 15mm, enquanto o F-3 seria equipado
com o novo motor DB 601E no início de 1942, que atingia uma velocidade de 628
km/h a 6.700m.
 | Os
Bf 109F juntaram-se ao III/JG26 Schlageter,
sob co-mando de Adolf Galland no começo de 1941,
na costa do Canal da Mancha. Nas primeiras etapas da Opera-
ção Barbarossa, equiparam a JG3 "Udet" (comandada pelo Major
Günther Lützow), a JG51 (sob comando de Werner
Mölders), a JG53 "Pik As" (sob o comando do Major Günther
von Maltzahn) e a JG54 "Grünherz" (Ma-jor Hannes Trautloft). A superioridade
do novo caça tor nou-se evidente quando o número de vitórias dos pilo-tos alemães
começou a disparar. |
"Fritz" surgiu no exato momento em que o Spitfire
Mk. V estava superan do o Bf 109E nos duelos
sobre o Canal da Mancha que se seguiram à Batalha
da Inglaterra, e restabeleceu a superioridade sobre o caça bri-tânico, especialmente
à altas altitudes. Bf 109F-4/Bs, equipados com suporte para uma bomba SC250 (de
250kg), freqüentemente faziam mis sões relâmpagos de "ataque-e-fuga" chamadas
de Jagdbomber ou Jabo. Variantes Bf 109F-4/Trop,
com filtros tropicais para proteger os motores da areia e poeira do deserto, também
travaram duros combates contra aviões britânicos no Mediterrâneo
e Norte da África. Foi principalmente com um Bf 109F-4 que o Oberleutnant
Hans-Joachim Marseille tornou-se o piloto
de caça da Luftwaffe com o maior número de vitórias no Oeste (158) - sendo 154
caças e 17 num mesmo dia. O próximo melhoramento na série envolveu
a introdução do motor DB 605A de 1475 H.P. na nova versão G-1,
chamada de "Gustav", que en-trou em serviço no final do verão de 1942. O primeiro
"Gustav" tinha o ar mamento básico de um canhão MG 151/20
de 20mm e duas metralhado ras MG17 de 7,92mm, mas o
G-5 introduziu duas MG 131 13mm no lu- |
|
gar das MG17´s. O novo armamento requeria uma culatra maior, o que ocasionou
o surgimento de "bolhas" na carenagem do motor (logo à frente do pára-brisas)
para acomodar a MG131 dando origem a outro apelido: "Beule" (inchado). Além disso,
o G-5 recebeu o motor DB 605D, com uma injeção de água e metanol (MW-50), que
possibilitava um pico de potência de 1800 H.P. para emergências.
 | O
Bf 109G foi o mais produzido de todos os Messer-schmitt, com a produção atingindo
a marca de 725 por mês em julho de 1943 e o total daquele ano chegando a 6.418
aeronaves. A despeito dos ataques dos Alia-dos contra as indústrias alemãs, a
produção de 109´s para 1944 alcançou o total de 14.212 aviões. Além dis-so, a
Hungria e a Romênia também o produziram sob licença por algum tempo.
A versão mais importante do Gustav foi o Bf 109G-6, que recebeu diversos modelos
do motor DB 605; o ar-mamento básico era um canhão MG151/20 no eixo da hélice
(mais tarde um MK108), e duas metralhadoras MG131
de 13mm sobre a capota do motor. Produzi- | ram-se numerosos kits
Rüstsatz, inclusive nos que resultaram no caça-bombardeiro Bf 109G-6/R1, e o destrui
dor de bombardeiros (Pulk Zerstörer) Bf 109G-6/R2, equipado com dois lança-foguetes
WGr210 "Dodel" (projé- teis de 210mm), substituindo os canhões dos módulos. O
Bf 109 G-6/U4 levava um Umrüst-bausatz (conjunto de fábrica), armado com dois
canhões Mk108 de 30mm sob as asas, o caça noturno Bf 109G-6/U4N possuía radar.
A maioria destes modelos teve versões tropicalizadas.
O Escolhido pelos AsesEmbora, por esta época, o seu tempo como um caça
de primeira linha já tivesse passado, o Bf 109G permaneceria um adversário a ser
respeitado até o fim do conflito, graças em parte ao seu motor DB605A e à habilidade
e expertise de seus pilotos. "Gustavs" foram pilotados por todos os grandes ases
das forças do Eixo, incluindo o finlandês Eino Ilmari Juutilainen (94 vitórias),
o romeno Alexandru Serbanescu (45 vitórias), o croata Mato Dukovac (40), o húngaro
Dezsö Szent-Györgyi (32), o eslovaco Ján Reznak (32), o búlgaro Stoyan Stoyanov
(6) e o voluntário espanhol Gonzalo Hevia Alvarez Quiñones (12). Até alguns italianos
obtiveram vitórias nos comandos de Bf 109G´s, sendo que o único aliado que não
os utilizou foi o Japão.
À frente de todos, claro, estavam os próprios alemães. O
maior ás de todos os tempos, Erich Hartmann,
obteve todas as suas 352 vitórias a bordo de um Bf 109, preferindo permanecer
com este aeronave até o fim da guerra em vez de familiarizar-se com modelos mais
novos e avançados. Seu amigo e companheiro no JG52, Gerhard
Barkhorn - o segundo maior ás da história e da Luftwaffe, com 301 abates -
considerava o Bf 109F seu avião favorito, mesmo tendo pilotado o Fw
190D-9 e o jato Me 262. Günther
Rall (o terceiro mais alto score, com 275 vitórias), que voou todas as variantes
do Bf 109, do E ao K, embora também tenha brevemente pilotado o Fw
190D-9, simplesmente afirmou : "Eu gostava do 109 principalmente porque eu
estava familiarizado com ele." Nem todo mundo que voou o Bf 109, tornava-se
um fã incondicional. Walter Nowotny, alcançou
seus primeiros sucessos em um Bf 109E, mas logo passou a utilizar um Fw
190A, no qual obteve a maioria de suas 258 vitórias. Para cada piloto que
preferia a familiaridade do Bf 109, havia outro que ficava mais feliz voando o
Fw 190, o Me 262 ou qualquer outro
aparelho. | |
Em meados de 1943 os Aliados estavam começando a operar caças iguais
ou melhores que o Gustav: os Spitfires Mk.IX e XIV,
P-51B Mustang, P-47D Thunderbolt
e Yak-9D. Mas, mesmo em desvantagem, o Messerschmitt
ainda podia surpreender seus adversários. Thomas L. Hayes Jr., um ás de P-51
do 357º Grupo de Caça (com oito vitórias), relembrou um mergulho atrás de um Bf
109G, até ambas as aeronaves atingirem velocidades próximas da barreira do som
e o seus comandos travarem. Ambos os pilotos tomaram providências para recuperarem
o controle de suas aeronaves, mas, para a surpresa de Hayes, o Bf 109 foi o primeiro
a sair do mergulho e ele agradeceria que o seu adversário alemão não tenha voltado.
Além disso, ele sempre lembrou que nunca viu um Bf 109 ficar sem controle em combate.
 | Pilotos
aliados que tiveram a oportunidade de sentar no cockpit de um Bf 109 afirmaram
que ele era tão estreito que ele ml podiam movimentar o manche situado entre seus
joelhos. Já os pilotos alemães viam as coisas de um ponto de vista diferente.
Fritz Stigler (28 vitórias e condecorado com a Cruz
Germânica), voou caças aliados capturados e comentou: "Eu não gostava do P-47
Thunderbolt. Ele era muito grande. O cockpit era imenso e pouco
familiar. Depois de tantas horas à bordo da minúscula cabine do Bf 109, tudo parecia
fora do alcance e muito distante do piloto. Embora o P-51
fosse um ótimo avião para se voar (...) ele era um pouco desconcertante. Com todos
aqueles relógios, indicadores e controles no cockpit, eu ficava surpreso que os
pilotos americanos tivessem tempo de voar." |
As Últimas VersõesÀ medida que a guerra virava contra os alemães, o Bf
109G ia incorporando uma variedade de armamentos desenvolvida especificamente
para enfrentar as armas de bombardeiros Aliados, como os acima citados Pülk Zerstörer
Bf 109G-6/R2. Em 1943, os pilotos de Gustavs da JG1, começaram a despejar bombas
de 250Kg no meio das formações de bombardeiros americanos na esperança de dispersá-los.
Já o Bf 109G-6/N era equipado com um equipamento de navegação sofisticado, incluindo
um radar FuG 350 Naxos Z, localizado em um pequena caixa de vidro à frente do
cockpit, que localizava os sinais do radar H2S dos bombardeiros guias da RAF,
e foi utilizado por algum tempo pela JG300 no início de 1944, em missões noturnas
de Wilde Sau. Contudo, o número de acidentes em pouso noturnos e sob mal tempo
levaram ao abandono destes caças-noturnos. Por fim, deve-se mencionar o projeto
Mistel, onde Bf 109F´s (e Fw-190A) eram montados nas costas de um Junkers
Ju 88 não-tripulado e cheio de explosivos, que depois de solto pelo caça,
eram guiados até os alvos através de rádio.
No outono de 1944, uma série de motores DB 605
in-crementados deram ao Bf 109 um novo sopro de vida. O motor DB 605D incluía
um sistema de injeção de óxi do nitroso, enquanto as variantes DB 605ASM,
ASB , ASC, DB e DC possuíam as já conhecidas injeções de metanol (MW-50). O Bf
109G-10, que também eli-minou as bolhas existentes sobre a capota - para aco-modação
das culatras das metralhadoras - foi o mais rápido de todos os Gustavs, com uma
velocidade de 684 km/h à 7.500m de altitude. Outras inovações dos últimos Bf 109G´s
(alguns G-6s, G-10s e G-14s) esta-vam na nova cauda de madeira e em uma carlinga
mo- | |
dificada que oferecia uma melhor visibilidade ao piloto, chamada de "Capota
Galland" ou "Erla". Um pequeno número de interceptadores de
alta-altitude Bf 109H-0 e Bf 109H-1 - de maior envergadura e equipados com motores
DB 601E-1 com injeções GM1 - foram testados na primavera de 1944. Este modelo
chegou a atingir a altitude de 14.000m, mas sofria de trepidações fortes em mergulhos,
e foi cancelado em favor do projeto do Focke-Wulf Ta 152.
Não existiu a versão "I" e a "J" foi uma proposta espanhola para pro-dução licenciada
pelo Hispano-Suiza. Experimentos diversos receberam os prefixos "L" (que usava
um motor Jumo 210E), "S" (novos flaps) e "TL" (turbinas à jatos), mas nenhum chegou
a passar a fase de protótipos.
 | A
variante final da guerra foi o Bf 109K
(chamado de "Kurfürst"), que utilizava um motor DB 605ASCM/DCM, com a consagrada
injeção de metanol MW-50. O arma mento padrão consistia de um canhão Mk103 ou
Mk 108 de 30mm disparando através do cubo da hélice, e dois canhões de 15mm MG151
sobre o motor. Sua ve-locidade máxima era de notáveis 723 km/h a uma alti-tude
de 5.900m. Os Bf 109K-2 e Bf 109K-4 fizeram seu debut na malfadada Operação Bodenplate
em 1º de ja-neiro de 1945. Contudo, à esta altura eles eram muito poucos para
ter qualquer impacto no destino da guerra e até mesmo já existiam aviões mais
modernos à servi ço da desesperada e agonizante Luftwaffe. | No
total, foram fabricados +30.000 Messerschmitt Bf 109s durante a guerra. Em constante
desenvolvimento e aprimoramento durante todo o conflito, o 109 apresentou inúmeras
variantes e subtipos. Ele combateu em todas
as frentes, em todos os teatros, do primeiro ao último dia.
Sobrevida no Pós-GuerraO dia 08 de maio de 1945
marcou o fim da II Guerra Mundial na Europa e do III Reich de Hitler mas, curiosa-mente,
não o fim da história do Bf 109. Entre 1939 e 1945, 45 Bf109B´s, 15 Bf 109Es,
10 Bf 109Fs e 25 Bf 109Gs foram entregues à Espanha. Depois da guerra, a empresa
Hispano Aviación instalou motores Hispano Suiza 12-Z-89 de 1300 H.P. em seus Gustavs,
o primeiro dos quais fez seu vôo de estréia em 02 de março de 1945.
A empresa subseqüentemente produziu sua própria versão do Messerschmitt, utilizando
um motor Hispano-Suiza 122-17. Chamado de HA-1109-KIL, fez seu primeiro vôo em
março de 1951, e 200 foram construídos ao todo, sendo que uma versão final, chamada
de HA-1112-MIL Buchon ("Pombo"), era propulsionado por um motor Rolls-Royce Merlin
500/45 de 1.400 H.P. de quatro pás. A última entrega saiu da fábrica La Hispano,
em Sevilha, em 1961. Era também, o último dos +30.000 Bf109s construídos
ao longo de 26 anos. Ironicamen te, seriam estes aviões, que usavam o mesmo motor
do arquiinimigo Spitfire, que representou a Luftwaffe
no lendário filme "A Batalha da Inglaterra" (The Battle of Britain, 1969), tendo
aparecido em várias películas e shows de aviação até hoje.
| O fato é que pouquíssimos dos +30.000 Bf 109s
de fa bricação alemã sobreviveram à guerra e, no início dos anos 90, menos de
seis encontravam-se preservados em museus ao redor do mundo. Felizmente, graças
à queda da Cortina de Ferro, uma onda de restaurações tornou-se possível devido
à grande quantidade de des-troços recuperáveis situados no Leste Europeu e Rús-sia.
Atualmente já há cinco Bf 109s em condições de vôo (sendo três originais):
um E-3 "14-branco" que po-de ter sido
pilotado pelo lendário Hans-Joachim Mar-seille
durante a Batalha da Inglaterra, um G-2/Trop
"6-preto" e um G-10 "2-preto"
(foto ao lado). E a tendên-cia é que esta quantidade aumente. Num futuro próxi- |
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mo, mesmo no Brasil, um Bf
109G-14 - retirado de um lago congelado e atualmente em restauração - poderá ser
incorporado ao acervo que uma companhia aérea brasileira está criando como base
de um museu. Por sua vez, Willy Messerschmitt viveu tempo suficiente para
ver sua maior criação tornar-se um lenda. Após a guerra, sua empresa enveredou
pelo caminho da indústria automobilística e produziu, por quase dez anos (entre
1955 e 1963), um veículo muito conhecido dos brasileiros: o Romi-Isetta. Messerschmitt
faleceu na antiga Alemanha Ocidental, em 1978, aos 80 anos de idade, mas vive,
de algum modo, no sombrio e eficiente caça, que dominou os céus da Europa à
sessenta anos atrás. |